Relatividade Geral · UDESC/CCT · Capítulo 1

Relatividade
especial

A geometria do espaço-tempo plano. O intervalo como grandeza invariante, e o tempo próprio como o que um relógio de fato mede.

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Roteiro

O caminho deste capítulo

AulaAssunto
1Newton e Einstein · eventos e intervalo
2Tempo próprio · transformações de Lorentz
3O que se mede · diagramas de Minkowski · gêmeos
4A velocidade invariante · problemas · oficina

A pergunta que organiza tudo

Se a velocidade da luz é a mesma para todos os observadores, o que mais precisa mudar?

A resposta custa o tempo absoluto de Newton — e é isso que o capítulo cobra.

Aula 1 · Seção 1.1

Duas visões de mundo

A maior dificuldade do curso não está na matemática — está em desmontar hipóteses que parecem óbvias por nunca terem sido enunciadas.

NewtonEinstein
Tempoabsoluto, universalrelativo ao observador
Espaçopalco fixoinseparável do tempo
Simultaneidadeabsolutadepende do referencial
Velocidade máximanão existec, igual para todos
Invariantetempo e distância, separadoso intervalo, que os combina
Gravidadeforça instantâneacurvatura (Relatividade Geral)

Aula 1 · Seção 1.1

O que Maxwell já dizia

\nabla\cdot\mathbf{E}=\dfrac{\rho}{\varepsilon_0} \qquad \nabla\cdot\mathbf{B}=0
\nabla\times\mathbf{E}=-\dfrac{\partial\mathbf{B}}{\partial t}
\nabla\times\mathbf{B}=\mu_0\mathbf{J} +\mu_0\varepsilon_0\dfrac{\partial\mathbf{E}}{\partial t}

São estas duas que se acoplam: o rotacional de cada campo alimenta a derivada temporal do outro. Sozinhas, as de divergência não propagam nada.

No vácuo, \rho=0 e \mathbf{J}=0. Tome o rotacional da lei de Faraday e substitua Ampère–Maxwell:

\nabla^{2}\mathbf{E} =\mu_0\varepsilon_0\dfrac{\partial^{2}\mathbf{E}}{\partial t^{2}}

Passando por \nabla\times(\nabla\times\mathbf{E}) =\nabla(\nabla\cdot\mathbf{E})-\nabla^{2}\mathbf{E}, cujo primeiro termo morre porque \nabla\cdot\mathbf{E}=0. Uma equação de onda — e a mesma conta, trocando os papéis, dá a de \mathbf{B}.

c=\dfrac{1}{\sqrt{\mu_0\varepsilon_0}} =2{,}998\times10^{8}\ \mathrm{m/s}

\varepsilon_0 e \mu_0 se medem com capacitores e ímãs parados na bancada, sem nenhuma referência a movimento. E a velocidade que sai delas é a da luz. Em relação a quê? As equações não dizem.

Aula 1 · Seção 1.1

A transformação de Galileu

t'=t,\qquad x'=x-vt,\qquad y'=y,\qquad z'=z

A segunda equação apenas desconta o quanto a origem andou. A primeira é a hipótese forte — e passa despercebida justamente por parecer óbvia.

Consequência imediata: velocidades se somam, u'=u-v.

Onde quebra

Aplique a um pulso de luz: u=c daria u'=c-v. Quem corresse junto veria a luz parada.

Maxwell diz que não, e Michelson–Morley mede que não.

Aula 1 · Seção 1.1

Os dois postulados

  1. As leis da física têm a mesma forma em todos os referenciais inerciais — o princípio da relatividade, que já valia para Newton.
  2. A velocidade da luz no vácuo vale c em todos os referenciais inerciais, independentemente do movimento da fonte ou do observador.

A culpada é t'=t, e não x'=x-vt. Enquanto o tempo não participar da transformação, só sobra a posição para ajustar — insuficiente para manter c fixo.

O preço é a simultaneidade deixar de ser absoluta. É inegociável.

Aula 1 · Seção 1.2

Evento e intervalo

Um evento é algo que ocorre em um ponto e em um instante:

x^\mu=(t,x,y,z)

O intervalo entre dois eventos próximos é

\mathrm{d}s^2=-\mathrm{d}t^2+\mathrm{d}x^2+\mathrm{d}y^2+\mathrm{d}z^2

\mathrm{d}s^2 é invariante sob transformações de Lorentz. Essa invariância substitui o tempo absoluto de Newton no papel de referência comum a todos.

Convenção de sinais: (-,+,+,+). Unidades com c=1.

De agora em diante, o espaço por si só e o tempo por si só estão condenados a desvanecer-se em meras sombras, e somente uma espécie de união dos dois conservará realidade independente.
Hermann Minkowski, Espaço e Tempo — conferência em Colônia, 21 de setembro de 1908. Ele havia sido professor de Einstein em Zurique, e foi quem deu à relatividade especial a forma geométrica que usamos aqui.

Aula 1 · Seção 1.2

O relógio de luz

Relógio de luz em dois referenciais
À esquerda, o relógio parado: o tique dura \Delta t'=2L. À direita, o relógio em movimento: o pulso percorre duas hipotenusas.

Em S, o caminho do pulso é \sqrt{4L^2+\Delta x^2}. Como a luz também viaja com velocidade 1 aqui — é a única vez que o postulado entra — esse caminho é numericamente o tempo:

\Delta t^{2}=4L^{2}+\Delta x^{2}
\Longrightarrow\; -\Delta t^{2}+\Delta x^{2}=-(2L)^{2}=\Delta s'^2

O mesmo número nos dois referenciais.

Aula 1 · Seção 1.2

Uma hipótese que precisa de defesa

A conta supôs que L, transversal ao movimento, é a mesma nos dois referenciais. Isso não é gratuito.

Dois anéis idênticos aproximam-se ao longo do eixo comum. Se o movimento encolhesse comprimentos transversais, cada observador diria que o anel do outro é menor e preveria que o seu passa por fora.

Mas qual anel passou dentro de qual é um fato absoluto — fica registrado em qualquer marca de raspagem.

A única possibilidade consistente é que comprimentos perpendiculares ao movimento não mudem.

Aula 1 · Seção 1.2

O que o sinal do intervalo diz

SinalSeparaçãoExiste referencial em que…
\mathrm{d}s^2<0temporalos eventos ocorrem no mesmo lugar
\mathrm{d}s^2=0nulaum raio de luz os liga
\mathrm{d}s^2>0espacialsão simultâneos

Como o valor é invariante, o sinal também é: dois observadores nunca discordam se um evento pode influenciar o outro.

Cone de luz
O cone de luz de um evento: futuro e passado causais, e as cunhas laterais que nenhum sinal alcança.

Aula 1 · Seção 1.2

Invariante não é constante

Invariante significa que observadores diferentes, medindo o mesmo par de eventos, obtêm o mesmo número.

Não significa que \mathrm{d}s^2 tenha o mesmo valor para pares de eventos diferentes.

E a invariância é da combinação: tomados isoladamente, \mathrm{d}t e \mathrm{d}x mudam de referencial para referencial — e é precisamente por isso que dilatação do tempo e contração do comprimento existem.

Aula 2 · Seção 1.3

Tempo próprio

Ao longo da linha de mundo de uma partícula massiva, \mathrm{d}s^2<0. Define-se

\mathrm{d}\tau^2=-\mathrm{d}s^2

No referencial que acompanha a partícula, \mathrm{d}x=0 e sobra \mathrm{d}\tau=\mathrm{d}t: \tau é o tempo marcado pelo relógio que viaja com ela.

Para quem não viaja junto, com velocidade v:

\mathrm{d}\tau=\mathrm{d}t\,\sqrt{1-v^2}=\frac{\mathrm{d}t}{\gamma}, \qquad \gamma\equiv\frac{1}{\sqrt{1-v^2}}\ \ge\ 1

Duas linhas de conta, nenhuma hipótese nova. A dilatação do tempo não é um efeito à parte — é a leitura desta equação.

Aula 2 · Seção 1.4

Diagnóstico de Galileu

Com t'=t e x'=x-vt:

\mathrm{d}s'^2=\underbrace{-\mathrm{d}t^2+\mathrm{d}x^2}_{\mathrm{d}s^2} \;-\;2v\,\mathrm{d}t\,\mathrm{d}x+v^2\mathrm{d}t^2

Sobrou -2v\,\mathrm{d}t\,\mathrm{d}x+v^2\mathrm{d}t^2: Galileu não preserva o intervalo.

O vilão é o termo cruzado \mathrm{d}t\,\mathrm{d}x. Para eliminá-lo, a nova coordenada temporal precisa conter um pedaço de x — e é exatamente isso que a transformação correta vai fazer.

Aula 2 · Seção 1.4

Deduzindo Lorentz

Por homogeneidade, a transformação é linear: t'=At+Bx, x'=Ct+Dx. Duas condições fixam tudo.

1 · A origem de S' move-se com v

x'=0 \Leftrightarrow x=vt \Rightarrow C=-Dv

2 · O intervalo é invariante

A^2-D^2v^2=1,\quad D^2-B^2=1,\quad AB=-D^2v

Isolando B na terceira e levando à segunda: D^2(A^2-D^2v^2)=A^2, e o parêntese vale 1. Logo D^2=A^2.

D=-A comporia com uma reflexão e não tende à identidade quando v\to0 — fica A=D\equiv\gamma.

\gamma^2(1-v^2)=1 \;\Longrightarrow\; \gamma=\frac{1}{\sqrt{1-v^2}}
t'=\gamma(t-vx),\qquad x'=\gamma(x-vt),\qquad y'=y,\quad z'=z

Aula 2 · Seção 1.4

O limite newtoniano não é v\to0

Restaurando c:

t'=\gamma\Bigl(t-\frac{vx}{c^2}\Bigr),\qquad x'=\gamma(x-vt)

Os dois termos cruzados não são da mesma ordem: um carrega 1/c^2, o outro não.

O limite newtoniano é c\to\infty com v fixo — e não v\to0, que daria a identidade.

\gamma\to1, o termo vx/c^2 desaparece, e sobra Galileu. O que morre é justamente o termo de simultaneidade.

Aula 3 · Seção 1.5

Um comprimento é uma medida simultânea

Uma barra em repouso em S' tem comprimento próprio L_0. Em S, onde ela desliza, medir significa registrar as duas extremidades no mesmo instante: \Delta t=0.

De x'=\gamma(x-vt), com \Delta t=0:

L_0=\Delta x'=\gamma\,\Delta x \;\Longrightarrow\; L=\frac{L_0}{\gamma}

Por que \gamma troca de lugar?

No tempo, os eventos ocorrem no mesmo lugar do referencial próprio (\Delta x'=0). No comprimento, ocorrem ao mesmo tempo do referencial que mede (\Delta t=0). São condições diferentes, em lados diferentes da transformação.

Quem decora erra; quem pergunta "o que está fixo?" acerta.

Aula 3 · Seção 1.5

Nenhum dos dois está enganado

A contração é recíproca — e isso não é contradição, pela mesma razão que a dilatação recíproca não é: cada observador mede um par de eventos diferente.

Quando S registra as duas pontas simultaneamente segundo o seu relógio, esses registros não são simultâneos para S' — que vê S medir a ponta da frente e a de trás em instantes distintos.

Nada disso significa que "o tempo fica lento" ou que "a barra encolhe" em sentido absoluto. Tempo próprio e comprimento próprio são propriedades dos objetos, e ninguém discorda deles. O que depende do observador é o resultado de uma medida que envolve simultaneidade.

Aula 3 · Seção 1.5

Velocidades não se somam

Dividindo uma linha da transformação pela outra — os \gamma se cancelam:

u'=\frac{\mathrm{d}x'}{\mathrm{d}t'}=\frac{u-v}{1-uv}

A luz é ponto fixo

u=1 \Rightarrow u'=\dfrac{1-v}{1-v}=1 para qualquer v.

O segundo postulado reaparece — agora como teorema.

A barreira é algébrica

1-u'^2=\frac{(1-u^2)(1-v^2)}{(1-uv)^2}

Se |u|<1 e |v|<1, o lado direito é positivo. Nenhuma composição de subluminais escapa.

Aula 3 · Seção 1.6

Os eixos de S'

Eixo t': os eventos com x'=0, ou seja x=vt — a própria linha de mundo da origem de S'.

Eixo x': os eventos com t'=0, ou seja t=vx — o que S' considera simultâneo.

Os dois se fecham sobre a linha de luz, pelo mesmo ângulo \arctan v, em sentidos opostos.

É dessa tesoura que sai visualmente a relatividade da simultaneidade.

Diagrama de Minkowski com eixos inclinados
A e B são simultâneos em S; a reta de simultaneidade de S' por A não contém B.

Aula 3 · Seção 1.6

Falta a escala

Saber a direção dos eixos não basta: é preciso saber onde fica t'=1. E aqui a intuição euclidiana atrapalha — o papel é euclidiano, o espaço-tempo não. Não se marca a unidade com régua.

Quem resolve é o próprio invariante:

-t^2+x^2=-1 \quad\Longleftrightarrow\quad t^2-x^2=1

Uma hipérbole com assíntotas t=\pm x — o cone de luz. Todos os seus pontos estão à mesma distância de Minkowski da origem, para qualquer observador. Logo ela cruza o eixo t' exatamente onde t'=1.

No papel a unidade de t' parece maior: a interseção está em (\gamma,\gamma v), à distância euclidiana \gamma\sqrt{1+v^2}>1. O papel mede comprimentos euclidianos; a física mede intervalos.

Aula 3 · Seção 1.6

As hipérboles em ação

v = 0,60  ·  \gamma = 1,250

Arraste e repare no que não se mexe: as hipérboles. Elas são o lugar dos eventos à mesma distância de Minkowski da origem, e essa distância é a mesma para todo observador.

O que gira são os eixos, e as marcas de unidade deslizam sobre hipérboles paradas. Não é que cada observador tenha a sua régua: é uma régua só, lida de ângulos diferentes.

Os ramos 2 e 3 estão apagados de propósito — a família continua, mas quem calibra o eixo é o primeiro.

Aula 3 · Seção 1.7

Paradoxo dos gêmeos

Não é contradição porque as duas linhas de mundo entre "partida" e "reencontro" não são equivalentes.

\tau=\int\sqrt{1-v(t)^2}\,\mathrm{d}t

As marcas na figura são intervalos iguais de tempo próprio. O viajante acumula visivelmente menos, percorrendo o mesmo par de eventos.

Diagrama de Minkowski do paradoxo dos gêmeos
Com v=0{,}8: \tau_{\rm casa}=10 contra \tau_{\rm viajante}=6.

Aula 3 · Seção 1.7

A inercial é a de maior tempo próprio

Num referencial em que os dois eventos ocorrem no mesmo lugar, qualquer linha de mundo temporal ligando-os acumula

\tau=\int_0^{T}\sqrt{1-v(t)^2}\,\mathrm{d}t \;\le\; \int_0^T\mathrm{d}t=T

com igualdade se e somente se v(t)=0 sempre — exatamente a reta inercial.

A desigualdade triangular se inverte

No plano, o caminho reto é o mais curto. No espaço-tempo, a linha de mundo reta é a mais longa em tempo próprio. Desviar custa relógio.

O viajante não envelhece menos por causa da aceleração — envelhece menos porque desviou. A conta acima não menciona aceleração nenhuma: basta conhecer v(t).

Aula 3 · Seção 1.7

Afastar-se é relativo.
Desviar não é.

Durante a ida, a simetria é perfeita: cada irmão pode legitimamente dizer que está parado e que o outro se afasta. Nenhum dos dois está enganado, e não há como eleger um.

Se eles nunca mais se reencontrassem, não haveria paradoxo nenhum — não haveria nada a comparar.

E para saber quem desviou nenhum dos dois precisa olhar para o outro: basta um acelerômetro, ou um copo d'água. Só um deles sente a virada.

O que quebra a simetria

Duas retas distintas no espaço-tempo se cruzam no máximo uma vez.

As linhas de mundo dos gêmeos se cruzam duas — partida e reencontro. Logo pelo menos uma delas não é reta.

É um teorema de geometria, não uma escolha de referencial: nenhum sistema de coordenadas transforma duas retas em algo que se cruze duas vezes.

Aula 3 · Seção 1.7

Um desconto no relógio

É literalmente assim que se viaja para o futuro, e não há outro jeito conhecido. Ver a Terra do ano 3000 gastando dez anos da sua vida é caro, mas é só engenharia — a física já permite.

Anos na TerraAnos seus\gammav/c
1061,70,800
10010100,99499
1 000101000,99995
100 000205 0000,99999998

E já é medido de rotina

Um múon vive 2{,}2\ \mu\mathrm{s} em repouso — o bastante para 0{,}66 km. A 0{,}999c, com \gamma=22{,}4, percorre 14,75 km: por isso atravessa a atmosfera e chega ao solo.

É de mão única. O tempo próprio só cresce ao longo de uma linha de mundo — dá para adiantar o encontro com o futuro, nunca para voltar.

Aula 4 · Seção 1.8 · aprofundamento

E se ninguém falasse de luz?

A velocidade da luz entrou como postulado, quase por decreto. Seria possível chegar à mesma estrutura sem mencioná-la?

Três hipóteses, nenhuma sobre luz:

  1. Homogeneidade — nenhum ponto ou instante é privilegiado (⇒ a transformação é linear);
  2. Isotropia — nenhuma direção é privilegiada;
  3. Princípio da relatividade — a transformação de S' para S tem a mesma forma, com v\to-v.

É o argumento de Ignatowski (1910). Schutz não o faz.

Aula 4 · Seção 1.8

Uma única constante sobrevive

A forma geral é x'=\gamma(x-vt), t'=\gamma(t-\beta x). O princípio da relatividade exige que a inversa seja a direta com v\to-v, o que dá \gamma^2(1-\beta v)=1; e a composição de duas transformações ser do mesmo tipo força \beta/v a não depender de v. Chame-o de K:

\beta=Kv,\qquad \gamma=\frac{1}{\sqrt{1-Kv^2}}
CasoResultado
K=0Galileu — não é rival, é o caso particular
K>0escreva K=1/c^2: existe velocidade invariante
K<0rotações euclidianas — nenhuma ordem causal sobrevive

Aula 4 · Seção 1.8

Onde o experimento entra

O ponto não é dispensar o experimento — K tem de ser medido, e é. O ponto é onde ele entra.

Ele não determina a forma das equações, já fixada por homogeneidade, isotropia e relatividade sozinhas. Determina apenas o valor de um número.

E, medido K>0, a existência de uma velocidade invariante é consequência, não hipótese: ela existiria mesmo que o fóton tivesse massa.

A luz é rápida porque o fóton não tem massa; c é invariante porque o espaço-tempo é assim.

Aula 4 · Seção 1.9

As transformações em forma matricial

Quatro coordenadas numa coluna, a transformação numa matriz:

\Lambda(v)=\begin{pmatrix} \gamma & -\gamma v & 0 & 0\\ -\gamma v & \gamma & 0 & 0\\ 0 & 0 & 1 & 0\\ 0 & 0 & 0 & 1\end{pmatrix}

As duas últimas linhas são a identidade — o boost não mexe nas direções transversais. Toda a física está no bloco 2\times2, e é com ele que os programas trabalham.

x'^{\alpha}=\Lambda^{\alpha}{}_{\beta}\,x^{\beta}

Índice repetido, um em cima e um embaixo, está somado. Parece preciosismo para um boost — mas é esta notação que sobrevive aos tensores e à relatividade geral.

A definição, em uma linha

\Lambda^{T}\eta\,\Lambda=\eta

Com \eta=\operatorname{diag}(-1,1,1,1). Exigir isso é exigir que o intervalo se preserve — e tudo o que deduzimos na Seção 1.4 está contido aqui.

Compor vira multiplicar

\Lambda(w)\,\Lambda(v)=\Lambda\!\left(\dfrac{v+w}{1+vw}\right)

O produto de dois boosts é um boost. Com a rapidez v=\tanh\varphi a conta some: \Lambda(\varphi)\Lambda(\psi)=\Lambda(\varphi+\psi).

E matrizes não comutam — isso é física. Dois boosts em direções diferentes não dão um boost puro: sobra uma rotação espacial, a rotação de Wigner, que produz a precessão de Thomas do spin do elétron. Sem forma matricial, compor boosts perpendiculares seria quase impraticável.

Aula 4 · Seção 1.10

Problemas orientados

Seis, feitos em aula ou em casa, cada um atacando um mal-entendido específico.

1Relógio de luz — refazer a dilatação usando apenas a invariância do intervalo
2A barra e o celeiro — quatro eventos, dois veredictos, nenhuma contradição
3Ordem temporal — inverter a ordem de dois eventos sem violar causalidade
4Tempo próprio máximo — a inercial contra uma linha de mundo qualquer
5Velocidades transversais — até a aberração estelar, medida em 1728
6Rapidez — o parâmetro que restaura a soma

Aula 4 · Seção 1.10 · problema 2

A barra e o celeiro

Barra de comprimento próprio L_0, celeiro de L_0/2, com \gamma=2.

O fazendeiro

A barra contrai para L_0/2 e cabe exatamente. As duas portas fecham ao mesmo tempo, com ela inteira dentro.

O piloto

É o celeiro que contrai, para L_0/4. A barra mede L_0 e não cabe de jeito nenhum.

Os dois não podem estar errados sobre um fato: a barra ficou presa ou não ficou. E ficar presa não é o que eles discordam.

Aula 4 · Seção 1.10 · problema 2

A resolução está nos quatro eventos

No celeiro S, com a porta de entrada em x=0 e a de saída em x=L_0/2, ambas fecham em t=0. Aplicando t'=\gamma(t-vx):

t'_{\text{entrada}}=0,\qquad t'_{\text{saída}}=-\gamma v\,\frac{L_0}{2}\;<\;0

Para o piloto, a porta da saída fecha e reabre antes — bem antes de sua ponta dianteira chegar lá. Depois, já com a barra atravessando, a porta da entrada fecha e reabre atrás dela.

A barra nunca está inteira dentro para o piloto, e nunca é atingida por porta nenhuma. Os dois relatos descrevem os mesmos quatro eventos; o que difere é só quais deles são simultâneos.

E se as portas ficassem trancadas? Aí há colisão — e nada de corpo rígido: a notícia do impacto percorre a barra no máximo a c, de modo que a outra ponta ainda não sabe de nada.

Aula 4 · Seção 1.11

Rapidez: o parâmetro que soma

Defina \varphi por v=\tanh\varphi. Então \gamma=\cosh\varphi e \gamma v=\sinh\varphi, e a transformação vira

t'=t\cosh\varphi-x\sinh\varphi,\qquad x'=x\cosh\varphi-t\sinh\varphi

É uma rotação hiperbólica no plano (t,x) — a mesma forma de uma rotação euclidiana, com seno e cosseno trocados por suas versões hiperbólicas.

E a razão do sinal: rotações preservam x^2+y^2; estas preservam -t^2+x^2.

Boosts sucessivos somam rapidezes:

\varphi=\varphi_1+\varphi_2

A lei estranha de composição de velocidades é só \tanh(\varphi_1+\varphi_2) reescrita. A soma nunca sumiu — mudou de variável.

Aula 4 · Seção 1.11

Mais dois exemplos resolvidos

Simultaneidade relativa

Dois eventos com \Delta t=0 e \Delta x=L em S. Em S':

\Delta t'=-\gamma vL

Só é nulo se v=0 ou L=0: eventos simultâneos e separados nunca continuam simultâneos.

Trajetória por partes

Ida com v por T/2, volta com -v por T/2:

\tau=T\sqrt{1-v^2}

Contra T na Terra. A diferença não vem do instante da virada — vem de todo o trajeto em movimento.

O terceiro exemplo, a invariância do cone de luz: se \Delta x=\Delta t em um referencial, o mesmo vale em qualquer outro — porque \Delta s^2=0 é invariante, e zero continua zero por mais que \gamma o multiplique.

Aula 4 · Seção 1.12

Oficina computacional

Boosts — verificar numericamente que \Lambda^{T}\eta\Lambda=\eta, que boosts compõem pela fórmula relativística (e não por soma), e que a rapidez \varphi=\operatorname{artanh}v é aditiva.

Tempo próprio — integrar \tau=\int\sqrt{1-v(t)^2}\,\mathrm{d}t para um perfil suave, sem forma fechada.

Com T=10 e v_0=0{,}8: \tau\approx8{,}13. Usar \gamma da velocidade média daria 8{,}61\gamma não comuta com a média.

Perfil de velocidade e tempo próprio acumulado
Perfil de velocidade e tempo próprio acumulado, por quadratura adaptativa.

Fechamento

O que fica

Uma ideia

O intervalo é o que todos os observadores medem igual. Tudo o mais — dilatação, contração, simultaneidade — é consequência.

Uma conta

\mathrm{d}\tau=\mathrm{d}t\sqrt{1-v^2}

O relógio que viaja marca menos. Nada além disso é necessário para o paradoxo dos gêmeos.

Uma inversão

No espaço-tempo, a reta é o caminho mais longo em tempo próprio. Desviar custa relógio.

O que vem

Se existe velocidade máxima, nenhuma influência é instantânea — e a gravidade newtoniana, instantânea por construção, fica insustentável.

É o impasse que a Relatividade Geral vem resolver.

Para a próxima aula

Exercícios

Cinco por capítulo, para entrega — dois fáceis, dois médios, um difícil. A marca indica a seção do Schutz que cobre o assunto.

AssuntoSchutz
1Classificar uma separação e achar o referencial simultâneo1.6
2Régua e relógio: por que \gamma troca de lugar1.8
3Composição de velocidades; nenhuma soma ultrapassa c1.10
4Hipérboles invariantes calibrando o diagrama1.7
5Duas naves em sentidos opostos — qual par de eventos cada capitão compara?1.11

E três problemas de Conteúdo extra, que pedem para modificar os programas da página da disciplina: rotação de Wigner, perfis de viagem, e o horizonte de Rindler.

Apêndice interativo · Seção 1.9

Rotação euclidiana: o ângulo soma, a inclinação não

m_3=\dfrac{m_1+m_2}{1-m_1m_2}

= 1,192 e \tan(\theta_1{+}\theta_2) = 1,192

ângulos
\theta_120°
\theta_230°
\theta_1+\theta_250° — soma trivial
inclinações m=\tan\theta
m_10,364
m_20,577
m_1+m_20,941errado

Apêndice interativo · Seção 1.9

Rotação hiperbólica: a rapidez soma, a velocidade não

v_3=\dfrac{v_1+v_2}{1+v_1v_2}

= 0,9217 e \tanh(\varphi_1{+}\varphi_2) = 0,9217

A fórmula ao lado com um sinal trocado — e é só isso que separa os dois mundos. 1+v_1v_2 nunca zera, e compor subluminais jamais alcança a luz.

rapidezes
\varphi_10,80
\varphi_20,80
\varphi_1+\varphi_21,60 — soma trivial
velocidades v=\tanh\varphi
v_10,6640
v_20,6640
v_1+v_21,3281passaria de c

Apêndice interativo · Seção 1.9

A rapidez tem unidade? Dá para medi-la?

Unidade: nenhuma

Em \varphi=\operatorname{artanh}(v/c) o argumento já é adimensional, e o resultado também — um número puro, como o ângulo em radianos.

E o paralelo é literal: o radiano é o dobro da área do setor circular; a rapidez é o dobro da área do setor hiperbólico. Daí o nome — em \operatorname{artanh} o “ar” é de área, ao contrário do \arctan, que tem arco.

Medir velocidade a distância exige régua e dois relógios sincronizados — ou seja, exige escolher uma simultaneidade. A rapidez escapa disso.

Três medidas que entregam \varphi, não v

Doppler. k=\sqrt{\tfrac{1+v}{1-v}}=e^{\varphi}, logo \varphi=\ln k. Razão de frequências, medida num ponto só, sem sincronizar nada.

Acelerômetro e relógio de bordo. \varphi=\int a\,\mathrm{d}\tau. O astronauta sabe a própria rapidez sem olhar pela janela; a velocidade, não — ela precisa ser relativa a alguém.

Aceleradores. O LHC reporta y=\tfrac12\ln\frac{E+p_z}{E-p_z} porque diferenças de rapidez não mudam sob boosts ao longo do feixe.

A intuição pede velocidade; o Doppler, o acelerômetro e o detector entregam rapidez.

Apêndice · medir a rapidez (1 de 3)

Doppler: a rapidez é o logaritmo

Uma fonte que se afasta com v tem suas frequências multiplicadas pelo fator Doppler

k=\sqrt{\dfrac{1+v}{1-v}}=e^{\varphi} \qquad\Longrightarrow\qquad \varphi=\ln k

É uma medida local: compara-se a frequência recebida com a conhecida da fonte — uma linha espectral, um pulso combinado — tudo num ponto só. Não há régua a esticar nem relógio distante a sincronizar, e é por isso que ela escapa da convenção de simultaneidade.

v\varphik
0,20,20271,2247
0,60,69312,0000
0,81,09863,0000
0,992,646714,107

Compor boosts é multiplicar fatores

k_1\,k_2=e^{\varphi_1}e^{\varphi_2}=e^{\varphi_1+\varphi_2}=k_3

Duas fontes a v=0{,}6 em série: 2\times2=4, e 4 é o fator de v_3=0{,}882. A soma de rapidezes vira produto de fatores Doppler — é o k-calculus de Bondi, que constrói a relatividade inteira contando sinais de luz.

Apêndice · medir a rapidez (2 de 3)

Acelerômetro: a rapidez que se acumula a bordo

Com aceleração própria a — a que o acelerômetro de bordo marca, e que o astronauta sente nos pés —

\varphi=\int a\,\mathrm{d}\tau \qquad\xrightarrow{\;a\ \text{constante}\;}\qquad \varphi=a\,\tau

As duas grandezas são medidas dentro da nave: um acelerômetro e um relógio de pulso. O astronauta sabe a própria rapidez sem olhar pela janela. A velocidade, não — ela exige dizer em relação a quem.

Viagem a 1g, que em unidades geometrizadas vale 1{,}03 por ano próprio:

\tau (anos)\varphi=a\tauv=\tanh\varphi
11,030,7748
22,060,9683
33,100,9959
55,160,999934
1010,320,99999999

A rapidez cresce em linha reta; a velocidade satura. O motor empurra sempre igual, e é a rapidez — não a velocidade — que responde de forma proporcional ao esforço.

Apêndice · medir a rapidez (3 de 3)

Aceleradores: a variável que o detector reporta

y=\tfrac12\ln\dfrac{E+p_z}{E-p_z}

No LHC, cada colisão acontece entre dois pártons que carregam frações diferentes do momento dos prótons. O referencial onde a colisão é simétrica muda a cada evento, e não é o do laboratório.

Uma variável cujas diferenças não mudam sob boosts ao longo do feixe vale ouro: a forma da distribuição em y é a mesma, apenas deslocada. Com velocidade não haveria como comparar dois eventos.

Quando a massa não é conhecida — o caso comum — usa-se a pseudorapidez, que sai direto do ângulo medido no detector:

\eta=-\ln\tan(\theta/2)
\theta\eta
90°0,00transversal ao feixe
45°0,88
10°2,44
4,74quase ao longo do feixe

A medida é geométrica: um ângulo. Nenhuma velocidade é medida em momento algum.

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