FEX1001 · Aula 1

Medidas e algarismos significativos

Como ler um instrumento, como escrever o resultado e quanto se pode confiar nele.

Prof. Rafael de Lima · Departamento de Física · CCT/UDESC

O caminho de hoje

Roteiro

  1. Por que medir — grandezas e unidades
  2. Algarismos significativos
  3. Conversão de unidades e notação científica
  4. Operações com algarismos significativos
  5. Critérios de arredondamento
  1. Classificação dos erros
  2. Tratamento estatístico de séries de medidas
  3. Erro relativo percentual
  4. Propagação de erros
  5. Exercícios
Uma ideia atravessa a aula inteira

Uma medida não é um número: é um número, uma unidade e uma incerteza. Perder qualquer um dos três é perder a medida.

Parte 1

Por que medir

Grandezas, unidades e o que de fato acontece quando comparamos algo com um padrão.

A Física é uma ciência experimental

  • Todo conhecimento físico — leis, princípios, modelos — vem de medidas, das partículas elementares às galáxias.
  • Saber medir envolve:
    • manusear os instrumentos;
    • expressar corretamente a informação extraída deles;
    • operar matematicamente sem inventar precisão;
    • informar o quanto se pode confiar no resultado.
O incômodo produtivo

Se toda medida tem erro, então a Física não é uma ciência tão exata assim. É exatamente por isso que precisamos ser cuidadosos com o tratamento dos erros.

Método científico, na prática

  1. Observação do fenômeno;
  2. Formulação de hipóteses explicativas;
  3. Teste das hipóteses através de experimentos;
  4. Elaboração de uma teoria sobre o fenômeno estudado.

É na fase da experimentação que entram as medidas das grandezas físicas relacionadas ao fenômeno em estudo.

Grandezas físicas

Definição

Quantidades que podem ser medidas: massa, comprimento, velocidade, força, temperatura…

Fundamentais × derivadas

As fundamentais são independentes entre si e formam um sistema — o SI. As derivadas se escrevem a partir delas.

Exemplo: comprimento e tempo são fundamentais; velocidade (\(\mathrm{m/s}\)) é derivada.

As sete unidades fundamentais do SI

Tabela das sete grandezas fundamentais do Sistema Internacional com suas unidades e símbolos.

Medir é comparar

Medir uma grandeza significa compará-la com outra da mesma espécie, definida como unidade, para verificar a relação numérica entre elas.

Sendo \(G\) a quantidade da grandeza e \(U\) a unidade convencionada, o valor numérico \(M(G)\) é a razão

$$ M(G)=\frac{G}{U} \qquad\Longrightarrow\qquad G = M(G)\,U. $$
Sem exceção

Toda medida de grandeza física apresenta unidade.

Exemplo 1 — uma massa em uma balança

Enunciado

Adotamos \(U = 1\ \mathrm{grama}\). A medição de uma certa massa \(m = G\), comparando-a com essa unidade, fornece \(M(G) = G/U = 101{,}25\).

$$ G = M(G)\,U = m = 101{,}25\ \mathrm{g}. $$

O número \(101{,}25\) só ganha sentido físico acompanhado do grama. Sozinho, não é uma medida.

Toda medida traz um erro provável

Os erros têm origens variadas, e a informação sobre eles obrigatoriamente faz parte do resultado:

$$ G = \bigl(M(G) \pm \Delta M\bigr)\,U. $$
  • O sinal \(\pm\) indica que o erro provável tanto pode aumentar quanto diminuir o valor medido.
  • A medida mais provável está na região \(\bigl[(M(G)-\Delta M)\,;\,(M(G)+\Delta M)\bigr]\,U\).

Exemplo 2 — a mesma massa, agora com incerteza

Enunciado

Na medição do Exemplo 1, o erro provável foi de \(0{,}04\ \mathrm{g}\).

$$ m = (101{,}25 \pm 0{,}04)\ \mathrm{g} $$

Ou seja: a massa está entre 101,21 g e 101,29 g, dadas as condições em que a medição foi realizada.

Múltiplos e submúltiplos

As unidades são apresentadas em múltiplos e submúltiplos conforme a escala da grandeza:

  • dimensões atômicas → angstroms (\(10^{-10}\ \mathrm{m}\));
  • dimensões terrestres → quilômetros (\(10^{3}\ \mathrm{m}\));
  • distâncias entre estrelas → ano-luz ou parsec.
Critério

Escolha o instrumento — e a unidade — coerentes com o “tamanho” da grandeza observada.

Parte 2

Algarismos significativos

O que a escrita de um número já conta sobre o instrumento que a produziu.

Medida direta e medida indireta

Medida direta

O valor desconhecido é comparado diretamente com o padrão. Ex.: a largura de uma parede, \(L_x = 4{,}3\ \mathrm{m}\).

Medida indireta

Obtida por operações matemáticas com medidas diretas. Ex.: com \(H_x = 2{,}6\ \mathrm{m}\),

\(\text{área} = L_x H_x = 4{,}3\ \mathrm{m} \times 2{,}6\ \mathrm{m} = 11{,}18\ \mathrm{m^2} = 11\ \mathrm{m^2}.\)

\(L_x\) e \(H_x\) têm erro individualmente — logo a área também tem. Esse erro propagado é o assunto da parte final da aula.

O que são algarismos significativos

Definição

São todos os algarismos dos quais se tem plena certeza, mais um duvidoso — o último, estimado a olho.

  • O algarismo duvidoso é significativo.
  • Qualquer algarismo à direita do duvidoso não é significativo e não deve aparecer no resultado.
  • O duvidoso é um indicativo da escala do instrumento.

Nesta apresentação, o algarismo duvidoso aparece assim: 11,3 cm

Exemplo 3 — a mesma tira de papel, três réguas

Três réguas sobrepostas medindo a mesma tira de papel: a primeira graduada em decímetros, a segunda em centímetros e a terceira em milímetros.
Figura 1 — réguas decimetrada, centimetrada e milimetrada.

Exemplo 3 — as leituras corretas

InstrumentoLeitura de LAlg. significativos
régua decimetrada1,1 dm2
régua centimetrada11,3 cm3
régua milimetrada113,4 mm4

A extremidade do objeto cai entre dois traços. O experimentador divide mentalmente esse intervalo em décimos e supõe a olho o último dígito.

E se outra pessoa medisse?

1,2 dm, 11,4 cm, 113,3 mm também seriam aceitáveis: o último algarismo depende do olho de quem mede.

E se a extremidade coincidir com um traço?

Fica ainda mais fácil: o algarismo duvidoso é simplesmente o zero.

Leituras possíveis nesse caso

1,0 dm  ·  10,0 cm  ·  100,0 mm

Cuidado com a calculadora

Calculadoras descartam zeros à direita da vírgula, por economia. Esses zeros, porém, são imprescindíveis e precisam ser escritos.

Zeros: quando contam?

Regra dos zeros

Todos os algarismos de uma medida são significativos, exceto os zeros à esquerda do primeiro algarismo significativo — eles apenas fixam a posição da vírgula.

Não significativos

0,00187 km → os três zeros só ancoram a vírgula.

Significativos

100,0 mm → o zero final é o duvidoso, logo conta.

Precisão do instrumento

  • A precisão do instrumento determina quantos algarismos significativos se consegue obter.
  • Das três réguas, a milimetrada é a mais precisa: forneceu 4 algarismos.
  • Para obter mais, é preciso um instrumento melhor — um paquímetro com escala em décimos de milímetro, por exemplo.
Erro comum

Com a régua decimetrada, jamais se pode escrever 1,15 dm: a escala só permite certeza na casa dos decímetros, e o algarismo dos centímetros já é o duvidoso.

A escrita denuncia a escala

Quando alguém escreve 11,3 cm, está dizendo que usou uma régua centimetrada — porque o duvidoso está na primeira casa decimal.

“Mas isso é óbvio pela unidade!” Então mudemos a unidade:

$$ 11{,}3\ \mathrm{cm} = 0{,}113\ \mathrm{m} $$

A escala passou a ser o metro? Não. O duvidoso — 0,113 m — continua na mesma posição física: a casa dos décimos de centímetro.

Regra

A mudança de unidade não pode alterar a quantidade de algarismos significativos — isso seria adulterar a medida.

“Mas apareceu um algarismo a mais!”

Alguém pode objetar: eram três (11,3 cm) e passaram a ser quatro (0,113 m).

Não. O zero à esquerda dos demais não é significativo; seu papel é ancorar a vírgula depois da mudança de unidade.

O caso do zero duvidoso

100,0 mm tem quatro algarismos significativos. Em metros, precisa continuar com quatro:

\(100{,}0\ \mathrm{mm} = 0{,}1000\ \mathrm{m}\)  — e não 0,1 m.

Quantos algarismos significativos há aqui?

MedidaAlg. sign.MedidaAlg. sign.
\(7\times 10\ \mathrm{km}\)um \(0{,}0001540\ \mathrm{K^{-1}}\)quatro
\(0{,}000005\ \Omega\)um \(35{,}40\ \mathrm{g}\)quatro
\(0{,}0013\ \mathrm{A}\)dois \(9{,}8067\ \mathrm{m/s^2}\)cinco
\(66\times 10^{11}\ \mathrm{anos}\)dois \(1{,}9764\times10^{-23}\ \mathrm{átomos}\)cinco
\(0{,}0450\ \mathrm{mm}\)três \(15000\ \mathrm{s}\)cinco
\(2{,}31\times10^{-1}\ \mathrm{cal/J}\)três \(4{,}00000\times10^{-3}\ \mathrm{eV/C}\)seis

Conte da esquerda para a direita, começando no primeiro algarismo diferente de zero.

Parte 3

Conversão de unidades e notação científica

Como trocar de unidade sem alterar a informação que o instrumento forneceu.

Prefixos do SI

FatorPrefixoSímbolo
\(10^{24}\)iotaY
\(10^{21}\)zetaZ
\(10^{18}\)exaE
\(10^{15}\)petaP
\(10^{12}\)teraT
\(10^{9}\)gigaG
\(10^{6}\)megaM
\(10^{3}\)quilok
\(10^{2}\)hectoh
\(10^{1}\)decada
FatorPrefixoSímbolo
\(10^{-1}\)decid
\(10^{-2}\)centic
\(10^{-3}\)milim
\(10^{-6}\)microμ
\(10^{-9}\)nanon
\(10^{-12}\)picop
\(10^{-15}\)femtof
\(10^{-18}\)atoa
\(10^{-21}\)zeptoz
\(10^{-24}\)ioctoy

Prefixos — a tabela da apostila

Tabela de prefixos do Sistema Internacional, dos fatores 10 elevado a 24 até 10 elevado a menos 24, com nome e símbolo de cada prefixo.

Convertendo para unidades maiores

Um fio de linha medido com as três réguas:

InstrumentoComprimento \(l_f\)A. S.
decimetrada 18,7 dm = 1,87 m = 0,187 dam = 0,0187 hm = 0,00187 km 3
centimetrada 186,6 cm = 1,866 m = 0,1866 dam = 0,01866 hm = 0,001866 km 4
milimetrada 1865,4 mm = 1,8654 m = 0,18654 dam = 0,018654 hm = 0,0018654 km 5

Os zeros que surgem à esquerda não são significativos: apenas fixam a posição da vírgula. A quantidade de algarismos não muda em nenhuma linha.

Convertendo para unidades menores

Aqui mora a armadilha. Queremos escrever 18,7 dm em milímetros.

Errado

\(18{,}7\ \mathrm{dm} = 1870\ \mathrm{mm}\) — isso transforma três algarismos significativos em quatro, como se a medida tivesse sido feita com uma régua centimetrada. É falso.

Correto

\(18{,}7\ \mathrm{dm} = 18\underline{7}\times 10\ \mathrm{mm}\)

Regra

Para converter a uma unidade menor, multiplique por uma potência de 10 — nunca acrescente zeros à direita.

Convertendo para unidades menores — a tabela completa

InstrumentoComprimento \(l_f\)A. S.
decimetrada 18,7 dm = 187 cm = 187×10 mm = 187×10⁴ μm = 187×10⁷ nm = 187×10⁸ Å 3
centimetrada 186,6 cm = 1866 mm = 1866×10³ μm = 1866×10⁶ nm = 1866×10⁷ Å 4
milimetrada 1865,4 mm = 18654×10² μm = 18654×10⁵ nm = 18654×10⁶ Å 5

1 Å = 10⁻¹⁰ m.

Notação científica

Considere: 30 dm, 300 cm e 3000 mm. Mesma dimensão, três medidas diferentes — dois, três e quatro algarismos significativos.

Forma padrão

Um único algarismo significativo antes da vírgula, o primeiro à esquerda, multiplicado por uma potência de dez:

$$ x = a \times 10^{n}, \qquad 1 \le a < 10. $$

O expoente \(n\) representa a ordem de grandeza da medida.

As três medidas, agora em micrometros

30 dm = 30 ×10⁵ μm = 3,0 ×10⁶ μm (2 a.s.) 300 cm = 300 ×10⁴ μm = 3,00 ×10⁶ μm (3 a.s.) 3000 mm = 3000×10³ μm = 3,000 ×10⁶ μm (4 a.s.)
A vantagem

Em notação científica só aparecem os algarismos significativos. Os zeros de posicionamento simplesmente somem.

\(18{,}7\ \mathrm{dm} = 0{,}00187\ \mathrm{km} = 1{,}87\times10^{-3}\ \mathrm{km}\) — os três algarismos, e nada além deles.

Exemplos em notação científica

MedidaAlg. significativos
\(4\ \mathrm{N/m^2} = 4\times10^{0}\ \mathrm{N/m^2}\)um
\(0{,}0000013\ \mathrm{g} = 1{,}3\times10^{-6}\ \mathrm{g}\)dois
\(760\ \mathrm{mm\text{-}Hg} = 7{,}60\times10^{2}\ \mathrm{mm\text{-}Hg}\)três
\(0{,}003671\ \mathrm{K^{-1}} = 3{,}671\times10^{-3}\ \mathrm{K^{-1}}\)quatro
\(980{,}66\ \mathrm{cm/s^2} = 9{,}8066\times10^{2}\ \mathrm{cm/s^2}\)cinco
\(299776\ \mathrm{km/s} = 2{,}99776\times10^{5}\ \mathrm{km/s}\)seis
\(5000000\ \mathrm{eV/C} = 5{,}000000\times10^{6}\ \mathrm{eV/C}\)sete

Conversões resolvidas — áreas e volumes

Eleve a unidade junto com o número
$$ 123{,}89\ \mathrm{km^3} = 123{,}89\,(1\times10^{6}\ \mathrm{mm})^3 = 123{,}89\times10^{18}\ \mathrm{mm^3} = 1{,}2389\times10^{20}\ \mathrm{mm^3} $$ $$ 1{,}576\ \mathrm{cm^2} = 1{,}576\,(1\times10^{-4}\ \mathrm{hm})^2 = 1{,}576\times10^{-8}\ \mathrm{hm^2} $$ $$ 984{,}7\ \mathrm{mm^3} = 984{,}7\,(1\times10^{-3}\ \mathrm{m})^3 = 984{,}7\times10^{-9}\ \mathrm{m^3} = 9{,}847\times10^{-7}\ \mathrm{m^3} $$

Em todos os casos, a quantidade de algarismos significativos é preservada.

Conversões resolvidas — unidades compostas

$$ 1{,}3\ \mathrm{km/h} = 1{,}3\,\frac{1\times10^{3}\ \mathrm{m}}{3600\ \mathrm{s}} = 0{,}36111\ldots\ \mathrm{m/s} = 3{,}6\times10^{-1}\ \mathrm{m/s} $$ $$ 148{,}0\ \frac{\mathrm{N}}{\mathrm{m^2}} = 148{,}0\ \frac{\mathrm{kg}}{\mathrm{m\cdot s^2}} = 148{,}0\ \frac{1\times10^{3}\ \mathrm{g}}{(1\times10^{2}\ \mathrm{cm})\,\mathrm{s^2}} = 1{,}480\times10^{3}\ \mathrm{g\,cm^{-1}s^{-2}} $$

Repare que a unidade é operada exatamente como o número.

Conversões resolvidas — tempo

$$ 1{,}290\ \mathrm{s} = 1{,}290\left(\tfrac{1}{60}\right)\left(\tfrac{1}{60}\right) \left(\tfrac{1}{24}\right)\left(\tfrac{1}{365{,}25}\right)\ \mathrm{ano} = 4{,}088\times10^{-8}\ \mathrm{ano} $$ $$ 493{,}70\ \mathrm{anos} = 493{,}70 \times 365{,}25\ \mathrm{dias} \times \tfrac{24\,\mathrm{h}}{1\,\mathrm{dia}} \times \tfrac{60\,\mathrm{min}}{1\,\mathrm{h}} \times \tfrac{60\,\mathrm{s}}{1\,\mathrm{min}} = 1{,}5580\times10^{10}\ \mathrm{s} $$
Note

Os fatores de conversão (60, 24, 365,25) são números exatos: não limitam a quantidade de algarismos significativos do resultado.

Parte 4

Operações com algarismos significativos

Adição, subtração, multiplicação, divisão — e tudo o mais.

O princípio único

Vale para toda operação

O resultado não pode ter precisão maior do que a da medida “mais pobre” que entrou na conta.

  • Efetue a operação normalmente;
  • arredonde apenas no final, conforme a regra da operação;
  • apresente o resultado em notação científica, com unidade.

É natural precisar operar medidas feitas com instrumentos de precisões diferentes — é para isso que servem estas regras.

Exemplo 4 — somando tábuas

Enunciado

Com réguas decimetrada, centimetrada e milimetrada mediram-se os comprimentos de algumas tábuas. Qual é o comprimento total?

  • 2355,1 mm
  • 11,1 dm
  • 117,3 cm
  • 13,5 mm
  • 3,4 dm
  • 77,5 cm
  • 813,3 mm

Primeiro passo: uma única unidade. A unidade de maior ordem é o dm, então convertemos para o dm ou para uma unidade superior — o metro.

Exemplo 4 — conversão para metros

2355,1 mm = 2,3551 m 11,1 dm = 1,11 m 117,3 cm = 1,173 m 13,5 mm = 0,0135 m 3,4 dm = 0,34 m 77,5 cm = 0,775 m 813,3 mm = 0,8133 m

O algarismo duvidoso viaja com a medida: mudar de unidade não o move de posição física.

Exemplo 4 — a soma

2,3551 m + 1,11 m + 1,173 m + 0,0135 m + 0,34 m + 0,775 m + 0,8133 m ───────────── 6,5799 m

Onde um duvidoso participa da soma, o resultado naquela casa também é duvidoso. Mas o resultado só pode ter um duvidoso: o “menos duvidoso de todos”, o primeiro à esquerda — aqui, o 9 da segunda casa decimal.

Exemplo 4 — o arredondamento

6,5799 m → 6,58 m

Despreza-se tudo o que vem depois do 9. Como a parte desprezada está mais próxima de uma unidade acima, arredonda-se para cima.

O que o resultado conta

6,58 m tem o duvidoso na casa dos centímetros — exatamente a posição do duvidoso da régua decimetrada, a menos precisa das três. A soma não pode ser mais precisa do que a pior parcela.

Exemplo 4 — por outro caminho

Escrevendo cada medida como parte certa + parte duvidosa:

certas: 2,355 + 1,1 + 1,17 + 0,013 + 0,3 + 0,77 + 0,813 = 6,521 m duvidosas: 0,0001 + 0,01 + 0,003 + 0,0005 + 0,04 + 0,005 + 0,0003 = 0,0589 m ───────────────────────────────────────────────────────────────── total: 6,521 + 0,0589 = 6,5799 m → 6,58 m

A parte duvidosa acumulada (0,0589 m) já é da ordem dos centímetros. Não faz sentido reportar milímetros ou décimos de milímetro no total.

Regra da adição

Enunciado

O resultado da adição de várias medidas de uma mesma grandeza física não pode ter maior quantidade de algarismos significativos na sua parte decimal do que a parte decimal mais pobre das parcelas.

No Exemplo 4, a parcela mais pobre é 0,34 m — duas casas decimais. Logo o total tem duas casas decimais: 6,58 m.

Por que não converter para unidade menor

Se adotássemos o milímetro no Exemplo 4, seria preciso introduzir potências de 10:

2355,1 mm + 111×10 mm + 1173 mm + 13,5 mm + 34×10 mm + 775 mm + 813,3 mm ────────────── ?????
O problema

As potências de 10 escondem a parte decimal mais pobre e a regra fica impossível de aplicar. Converta sempre para uma unidade de ordem superior.

Critérios de arredondamento

Arredonda-se no primeiro algarismo duvidoso à esquerda, desprezando o resto.

1º caso — parte desprezada MAIOR que 5, 50, 500…

O duvidoso anterior é aumentado de uma unidade.

2º caso — parte desprezada MENOR que 5, 50, 500…

O duvidoso anterior não se altera.

3º caso — parte desprezada IGUAL a 5, 50, 500…

Duvidoso anterior ímpar → aumenta.
Duvidoso anterior par (zero incluso) → permanece.

1º caso — parte desprezada maior que 5

1524,5500100 cm³1524,6 cm³ = 1,5246×10³ cm³
12,12599875 g12,13 g = 1,213×10¹ g
204,96501212 N205,0 N = 2,050×10² N
0,00121521111 A0,00122 A = 1,22×10⁻³ A
0,137298760 V0,14 V = 1,4×10⁻¹ V

2º caso — parte desprezada menor que 5

699,05 mm-Hg699 mm-Hg = 6,99×10² mm-Hg
80,032 cal/g80,0 cal/g = 8,00×10¹ cal/g
27,24 g27,2 g = 2,72×10¹ g
4,8205 dyn/cm²4,8 dyn/cm² = 4,8×10⁰ dyn/cm²
0,5431 N/m0,54 N/m = 5,4×10⁻¹ N/m

3º caso — parte desprezada exatamente 5

1,55500 Wb/m²1,56 Wb/m²ímpar, aumenta
0,00355 cal/g0,0036 cal/g = 3,6×10⁻³ cal/gímpar, aumenta
129,500 g/s130 g/s = 1,30×10² g/símpar, aumenta
1,9500 dyn/cm²2,0 dyn/cm²ímpar, aumenta
0,805 N/m0,80 N/m = 8,0×10⁻¹ N/mpar, permanece
25,105 mm-Hg25,10 mm-Hg = 2,510×10¹ mm-Hgpar, permanece
26500 m2,6×10⁴ mpar, permanece
28,500 J28 J = 2,8×10¹ Jpar, permanece
0,0004500 N·m0,0004 N·m = 4×10⁻⁴ N·mpar, permanece
9,50000 C/g1×10¹ C/gímpar, aumenta

A última linha é a mais instrutiva: 9 aumenta para 10, e o resultado muda de ordem de grandeza.

Adição — exemplos de aplicação

5,3 m + 4,38 m = 9,68 m = 9,7 m 2 m + 22 cm + 2 mm = 2,222 m = 2 m 14,54 s + 408,1 s + 0,333 s = 422,973 s = 423,0 s = 4,230×10² s 1,0 g + 0,015 g = 1,015 g = 1,0 g
Atenção

Embora a adição seja a mais simples das operações, é onde aparecem os erros mais inacreditáveis. Efetue normalmente e arredonde apenas o resultado.

A mesma soma, em três unidades

0,015 cA + 7 cA + 9,1 cA + 5,93 cA = 22,045 cA = 22 cA = 2,2×10⁻¹ A 0,0015 dA + 0,7 dA + 0,91 dA + 0,593 dA = 2,2045 dA = 2,2 dA = 2,2×10⁻¹ A 0,00015 A + 0,07 A + 0,091 A + 0,0593 A = 0,22045 A = 0,22 A = 2,2×10⁻¹ A

Três caminhos, o mesmo resultado. É assim que tem de ser: a unidade escolhida para fazer a conta não pode alterar a física.

Subtração

Do ponto de vista matemático, a subtração é idêntica à adição de números relativos — a regra é a mesma.

Enunciado

O resultado da subtração de várias medidas de uma mesma grandeza física não pode ter maior quantidade de algarismos significativos na sua parte decimal do que a parte decimal mais pobre das parcelas.

Exemplo 5 — cortando uma tábua

Enunciado

De uma tábua de 2859,0 mm são cortados pedaços de 12,3 dm, 113,7 cm e 63,5 mm. Qual é o comprimento final?

2,8590 m - 1,23 m - 1,137 m - 0,0635 m ───────────── 0,4285 m

O primeiro duvidoso à esquerda é o 2. Despreza-se o 85 e arredonda-se: 0,43 m.

Exemplo 5 — leitura do resultado

O duvidoso do resultado, 0,43 m, está na casa dos centímetros — a mesma da régua decimetrada, a menos precisa das três usadas.

Coerência

Assim como na adição, o total não pode ter precisão maior do que a fornecida pelo pior instrumento envolvido.

Contra-exemplo 6 — quando a regra deixa a desejar

Enunciado

De uma tábua de 1592,0 mm são cortados pedaços de 12,3 dm e 36,1 cm.

1,5920 m - 1,23 m - 0,361 m ───────────── 0,0010 m → 0,00 m
O que aconteceu

As conclusões sobre precisão ficam prejudicadas. Isso sempre ocorre quando os valores subtraídos são muito próximos: a subtração destrói algarismos significativos.

Subtração — exemplos de aplicação

138,94 m - 12,3 m = 126,64 m = 126,6 m = 1,266×10² m 118,57 s - 58,303 s = 60,267 s = 60,27 s = 6,027×10¹ s 5,00 g - 2,016 g = 2,984 g = 2,98 g 0,00015 A + 0,072 A - 0,091 A - 0,0593 A = -0,07815 A = -0,078 A = -7,8×10⁻² A 1,0000 m² - 0,633 m² + 0,5 m² - 0,27 m² = 0,597 m² = 0,6 m² = 6×10⁻¹ m²
Importante

Tanto na adição quanto na subtração, o arredondamento é executado após a operação, conforme a medida menos precisa.

Exemplo 7 — a área de um retângulo

Enunciado

Os lados \(a\) e \(b\) de um retângulo, medidos com as três réguas:

RéguaLado aLado b
decimetrada12,8 dm1,2 dm
centimetrada127,8 cm11,7 cm
milimetrada1279,1 mm117,4 mm

Multiplicamos as medidas feitas com a mesma régua — assim não é preciso converter nada.

Exemplo 7 — as três áreas

RéguaÁrea = a · b
decimetrada12,8 × 1,2 = 15,36 dm² = 15 dm²
centimetrada127,8 × 11,7 = 1495,26 cm² = 150×10¹ cm²
milimetrada1279,1 × 117,4 = 150166,34 mm² = 1502×10² mm²

Repare: 2, 3 e 4 algarismos significativos — a quantidade do fator mais pobre em cada linha.

Exemplo 7 — por que 3 algarismos?

1 2 7,8 cm × 1 1,7 cm ────────────────── 8 9 4 6 cm² 1 2 7 8 cm² 1 2 7 8 cm² ────────────────── 1 4 9 5, 2 6 cm² 1495,26 cm² → 150×10¹ cm² = 1,50×10³ cm²

O “menos duvidoso de todos” é o 9. Tudo à direita dele é desprezado; como a parte desprezada é maior que 5, arredonda-se para cima.

Exemplo 7 — por certo + duvidoso

127,8 × 11,7 = (127 + 0,8) × (11 + 0,7) = (127×11) + (127×0,7) + (0,8×11) + (0,8×0,7) = 1397 + 88,9 + 8,8 + 0,56 = 1397 + 98,26 = 1495,26 cm² → 1,50×10³ cm²

A parte duvidosa acumulada (98,26 cm²) já é da ordem da centena de cm². Reportar as casas decimais de 1495,26 seria fingir uma precisão que não existe.

Regra da multiplicação

Enunciado

O produto de várias medidas não pode ter maior quantidade de algarismos significativos do que o fator “mais pobre”.

No Exemplo 7: 127,8 cm tem 4 algarismos e 11,7 cm tem 3. Logo o produto tem 3 algarismos significativos.

Note a diferença em relação à adição: lá contavam-se casas decimais; aqui contam-se algarismos significativos.

Multiplicação — exemplos de aplicação

1,52834 dm × 3,38 cm = 1,52834 dm × 0,338 dm = 0,51657892 dm² = 0,517 dm² = 5,17×10⁻¹ dm² 832 N/m × 0,25 m² = 208,00 N·m = 2,0800×10² J = 2,1×10² J 0,315 μA × 5327 mΩ = 1,678005×10⁻⁶ V = 1,68 μV (8,3 K)⁴ = 4745,8321 K⁴ = 4,7×10³ K⁴ 0,0001 m × 0,0198 m × 0,77 m = 1,5246×10⁻⁶ m³ = 2×10⁻⁶ m³

No último caso, 0,0001 m tem um algarismo significativo — e é ele quem manda no resultado.

Divisão

A divisão é idêntica à multiplicação pelo inverso: \(h \div g = h \cdot g^{-1}\). A regra, portanto, é a mesma.

Enunciado

O quociente de duas medidas não pode ter maior quantidade de algarismos significativos do que o “mais pobre” dos termos — dividendo ou divisor.

Divisão — exemplos de aplicação

57,38 cm / 2,1 s = 27,32380952 cm/s = 27 cm/s = 2,7×10¹ cm/s 1,68 V / 5327 Ω = 3,15374507×10⁻⁴ A = 3,15×10⁻⁴ A 8,44444 g / 10,76 cm³ = 0,784799256 g/cm³ = 0,7848 g/cm³ = 7,848×10⁻¹ g/cm³ 183,965 μm / 2,2000 cm = 0,0183965 cm / 2,2000 cm = 8,362045454×10⁻³ = 8,3620×10⁻³

O último resultado é adimensional — cm dividido por cm. Mesmo assim as regras valem: 5 algarismos significativos, ditados por 2,2000 cm.

Radiciação, logaritmo, potenciação…

Regra

Nas demais operações — radiciação, logaritmação, potenciação, exponenciação e funções especiais (trigonométricas, hiperbólicas) — efetue normalmente e arredonde o resultado mantendo a mesma quantidade de algarismos significativos da medida operada.

Operações em que a unidade também é operada

∛(351,113 m²)² = (351,113 m²)^(2/3) = 49,76965226 m^(4/3) = 4,97697×10¹ m^(4/3) (1,68 V)^(-π) = 0,1959611664 V^(-π) = 1,96×10⁻¹ V^(-π) (444,4 °C)^2,5 = 4163275,259 °C^2,5 = 4,163×10⁶ °C^2,5 (0,0081 g/h)⁻¹ = 123,4567901 (g/h)⁻¹ = 1,2×10² (g/h)⁻¹ (0,006×10⁴ mm)² = 3600,000000 mm² = 4×10³ mm²

O último caso: 0,006 tem um algarismo significativo, então o resultado também tem um só.

Operações cujo resultado é adimensional

cos(π rad) = -1,00000… sen(0,707 rad) = 0,6495557556 = 0,650 tan(181,97°) = 0,0343965417 = 3,4397×10⁻² log(8,362045×10⁻¹³ W/m²) = -12,07768749 = -1,207769×10¹ ln(3,601×10² K/mm³) = 5,886381771 = 5,886 e^(-18,1) = exp(-18,1) = 1,378065555×10⁻⁸ = 1,38×10⁻⁸

A quantidade de algarismos do resultado acompanha a da medida que entrou na função.

Fórmulas com uma única medida direta

Regra

As constantes e números da fórmula (π, 2, 3…) são operados normalmente. No final, arredonde para a mesma quantidade de algarismos significativos da medida direta.

Exemplo 8 — volume de uma esfera

Com uma régua decimetrada mediu-se o diâmetro de uma esfera: \(d = 40{,}\underline{0}\ \mathrm{dm}\). Qual é o volume?

$$ V = \frac{4\pi r^3}{3} = \frac{\pi d^{3}/2}{3} = \frac{\pi\,(40{,}0\ \mathrm{dm})^{3}/2}{3} = 33510{,}321638\ \mathrm{dm^3} $$ $$ V = 3{,}35\times10^{4}\ \mathrm{dm^3} = 3{,}35\times10^{1}\ \mathrm{m^3} $$

Três algarismos significativos — os mesmos de 40,0 dm.

Fórmulas com duas ou mais medidas diretas

Regra

O resultado tem a mesma quantidade de algarismos significativos da medida direta mais pobre.

Exemplo 9 — área de um triângulo

Com uma régua centimetrada: \(b = 21{,}\underline{3}\ \mathrm{cm}\) e \(h = 1{,}\underline{5}\ \mathrm{cm}\).

$$ A = \frac{b\,h}{2} = \frac{21{,}3\ \mathrm{cm}\times 1{,}5\ \mathrm{cm}}{2} = 15{,}975\ \mathrm{cm^2} = 16\ \mathrm{cm^2} = 1{,}6\times10^{1}\ \mathrm{cm^2} $$

A altura tem apenas dois algarismos significativos — e é ela quem limita o resultado, mesmo a base tendo três.

Exemplo 10 — impedância de um circuito RLC

Dados medidos

\(f = 60\ \mathrm{Hz}\) · \(L = 18{,}91\ \mathrm{mH}\) · \(C = 15{,}42\ \mathrm{\mu F}\) · \(R = 173{,}0\ \Omega\)

$$ Z = \sqrt{R^{2} + \left[2\pi f L - \frac{1}{2\pi f C}\right]^{2}} $$

A medida direta mais pobre é a frequência, \(f = 60\ \mathrm{Hz}\), com dois algarismos significativos. O resultado terá dois.

Exemplo 10 — arredondando a cada passo

R² = (173,0 Ω)² = 29929,00 Ω² = 2,993×10⁴ Ω² 2πfL = 2π × 60 Hz × 18,91 mH = 7,12890204952 Ω = 7,1 Ω 2πfC = 2π × 60 Hz × 15,42 μF = 0,0058132030 Ω⁻¹ = 5,8×10⁻³ Ω⁻¹ 1/(2πfC) = 1/(5,8×10⁻³ Ω⁻¹) = 172,413793 Ω = 1,7×10² Ω [2πfL - 1/(2πfC)]² = [7,1 - 1,7×10²]² = [-162,9]² = [-1,6×10²]² = 2,6×10⁴ Ω² Z = √(2,993×10⁴ + 2,6×10⁴) = √(5,6×10⁴) = 236,64 Ω Z = 2,4×10² Ω

Exemplo 10 — arredondando só no final

A cada arredondamento intermediário descartamos informação. Uma forma de minimizar isso é operar a fórmula inteira e arredondar apenas o resultado:

Z = √{(173,0)² + [2π·60·18,91×10⁻³ - 1/(2π·60·15,42×10⁻⁶)]²} = 238,9953995597 Ω Z = 2,4×10² Ω
Conclusão

Aqui os dois caminhos coincidem. Em geral, a discrepância aparece apenas no algarismo duvidoso em diante, o que é aceitável — e arredondar só no final dá muito menos trabalho.

Conversão por fator — exemplos

143,45 grau × 0,01745329252 rad/grau = 2,503674811994 rad = 2,5037 rad 1,020 rad × 57,2957795131 grau/rad = 58,441695103 grau = 58,44 grau 33,65479 cm × (1 pol / 2,540 cm) = 13,24991732 pol = 13,25 pol 218,809765 u × 1,661×10⁻²⁴ g/u = 3,6344301967×10⁻²² g = 3,634×10⁻²² g 7,841009×10⁻⁶ cal × 4,186 J/cal = 3,2822463674×10⁻⁵ J = 3,282×10⁻⁵ J

O fator de conversão também é uma medida: em três dos casos acima é ele quem limita o resultado.

Parte 5

Erros experimentais

De onde vêm, como se classificam e o que se pode fazer com cada tipo.

Por que falar de erros

  • Por mais preciso que seja o instrumento, os dados experimentais sempre contêm erros.
  • Um número sem avaliação do erro não tem muito significado como medida.
  • O valor real do erro permanece desconhecido — a teoria de erros limita-se a estimar o erro máximo que a medida pode ter.
Erro ≠ engano

O engano (ou erro grosseiro) vem da falta de habilidade de quem mede e é perfeitamente evitável. Quando dizemos “erro”, falamos daqueles que são inevitáveis.

a) Erro de escala

É o erro devido ao limite de precisão do instrumento.

Estimativa usual

Metade da menor divisão da escala. Numa régua milimetrada, 0,5 mm; numa centimetrada, 0,5 cm.

Exemplo

Lendo 583,4 mm numa régua milimetrada, escreve-se \((583{,}4 \pm 0{,}5)\ \mathrm{mm}\).

Um caso real

A fronteira que tinha dois comprimentos

Retrato fotográfico em preto e branco de Lewis Fry Richardson, de terno e gravata.

Lewis Fry Richardson
NOAA · domínio público

Nos anos 1950, Richardson investigava se países com fronteiras longas brigavam mais. Foi buscar os comprimentos e encontrou algo estranho: para a mesma fronteira entre Espanha e Portugal,

a Espanha declarava987 km
Portugal declarava1214 km
diferença227 km — 23%
Ninguém errou a conta

Os dois países mediram com escalas diferentes. O padrão se repetia: Bélgica e Países Baixos declaravam 449 e 380 km da mesma fronteira — e era sempre o país menor que dava o número maior, por medir com régua mais fina.

A mesma costa, três réguas

Por que a régua menor dá um número maior

régua de 25 km 4 passos 100 km régua de 10 km 12 passos 120 km régua de 4 km 43 passos 172 km
Cada ponto dourado é uma pousada do compasso. A régua menor entra em reentrâncias que a maior atravessa em linha reta — e acrescenta comprimento a cada uma.

E sempre há reentrâncias menores

Imagem de satélite da costa recortada da Noruega: fiordes escuros e estreitos penetrando profundamente por entre montanhas cobertas de neve.

Fiordes da Noruega · NASA/USGS · ASTER

É por isso que o comprimento não converge. Numa costa recortada, refinar a régua não aproxima o resultado de um valor — faz o resultado crescer.

A pergunta sem resposta

“Qual é o comprimento desta costa?” não tem resposta única. Só faz sentido perguntar: qual é o comprimento medido com uma régua de tal tamanho?

Mandelbrot pegou essa observação de Richardson e publicou, em 1967, How Long Is the Coast of Britain? — o artigo que funda a geometria fractal.

O que isso ensina sobre o erro de escala

No caso comum — a bancada do laboratório

O objeto é liso na escala do instrumento. Trocar a régua centimetrada pela milimetrada acrescenta um algarismo e o valor converge. É a situação da Apostila 1.

No caso patológico — a costa

O objeto tem estrutura em toda escala. Trocar de régua muda o resultado, e não existe “valor verdadeiro” independente do instrumento.

O que fazer

Sempre informe com que instrumento a medida foi feita. Nos casos comuns isso é boa prática; em objetos irregulares — o perímetro de uma folha, o contorno de uma trinca, a rugosidade de uma superfície — é o que torna o número interpretável.

b) Erro sistemático

Perturba todas as medidas sempre da mesma forma, afastando os valores do valor provável em um sentido definido — sempre para mais ou sempre para menos.

A boa notícia

Como segue um padrão, é possível descobrir sua origem e eliminá-lo.

Exemplo

Um ponteiro de medidor analógico torto ou descalibrado para a direita indicará sempre leituras maiores do que as corretas.

Um caso real

Um erro sistemático de 2,2 micrometros

O telescópio espacial Hubble em órbita, fotografado da Terra ao fundo, com os painéis solares abertos.

NASA · STS-125, 19 de maio de 2009

Lançado em abril de 1990, o Hubble mandou as primeiras imagens borradas: o espelho principal, de 2,4 m, fora polido com a forma errada.

A dimensão do desvio

A borda ficou cerca de 2,2 μm achatada demais — algo como 1/50 da espessura de um fio de cabelo. Pequeno, mas dez vezes maior que a tolerância.

A causa: o aparelho que media a forma do espelho durante o polimento estava montado com um espaçamento 1,3 mm fora do lugar.

Por que ninguém percebeu antes

Repetir a medida não ajudava

A assinatura do erro sistemático

O instrumento de teste dava sempre a mesma resposta errada. Medir de novo confirmava o resultado. Medir mil vezes e tirar a média confirmava com mais casas decimais. O erro não estava no espalhamento das medidas — estava no zero de quem media.

O aviso que foi descartado

Dois outros testes, mais simples, indicaram a aberração durante a fabricação. Os dois foram desconsiderados: confiou-se no aparelho mais sofisticado, tido como o mais preciso.

É assim que um erro sistemático sobrevive — não por falta de dados, mas porque a medida discordante foi jogada fora.

O que se via: a galáxia M100

Duas imagens da região central da galáxia M100 lado a lado: à esquerda, borrada e difusa, feita antes da correção; à direita, nítida, com estrelas individuais e faixas de poeira resolvidas, feita após a correção.
À esquerda, antes da correção; à direita, depois. A mesma galáxia, o mesmo telescópio, o mesmo espelho defeituoso.

NASA / ESA

A correção, em duas etapas

Primeiro o algoritmo, depois a óptica

1990–1993 · em software

Como o defeito era conhecido e estável, deu para medir como um ponto luminoso era borrado e desfazer o borrão por cálculo — a deconvolução de Richardson–Lucy. Salvou três anos de observações.

Dezembro de 1993 · em órbita

A missão STS-61 instalou o COSTAR — espelhos com a aberração inversa, óculos para o telescópio — e a câmera WFPC2, já com a correção na própria óptica.

Duas imagens da mesma estrela feitas pela Faint Object Camera: à esquerda, antes do COSTAR, a luz espalha-se num halo largo; à direita, depois do COSTAR, concentra-se num ponto pequeno.
A mesma estrela, antes e depois do COSTAR.

NASA, ESA e equipe do COSTAR

O que o Hubble ensina sobre medidas

O espelho nunca foi trocado

Trocar o espelho em órbita era impossível. Ele continua lá, com o mesmo defeito até hoje — o que se corrigiu foi o caminho da luz depois dele. Em 2009 o COSTAR foi até removido, porque todos os instrumentos já traziam a correção embutida.

Erro sistemático

Desloca tudo no mesmo sentido. Mais medidas não resolvem. Mas, uma vez conhecido, pode ser corrigido — no cálculo ou na montagem.

Erro aleatório

Espalha as medidas para os dois lados. Mais medidas reduzem. Mas nenhuma correção posterior o elimina.

No laboratório: desconfie quando dois instrumentos discordam — e não descarte o que parece “menos confiável” sem entender por quê.

c) Erro aleatório (randômico)

Ocorre totalmente ao acaso, sem qualquer sentido ou previsibilidade.

  • É a soma de pequenas perturbações inevitáveis: vibrações, calor, campos externos, oxidações…
  • Está fora do controle — e, na maioria das vezes, do conhecimento — de quem mede.
  • Não pode ser evitado: tem de ser tratado estatisticamente.

Foi para tratar erros aleatórios que se desenvolveram as teorias estatísticas, inicialmente por Gauss.

Um caso real

Quando o erro aleatório virou instrumento de medida

Em 1827, Robert Brown viu grãos de pólen em água tremendo sem parar. Por oitenta anos aquilo foi curiosidade — um tremor que atrapalhava a observação ao microscópio.

1905 · Einstein

Mostrou que o tremor tem lei — o deslocamento quadrático médio cresce com o tempo, \(\langle x^{2}\rangle = 2Dt\) — e que ele vem das moléculas do líquido batendo na partícula.

A virada conceitual

O artigo foi escrito como um método para medir. Se a flutuação obedece a uma lei que envolve o tamanho das moléculas, então medir a flutuação é medir as moléculas. Einstein mesmo tirou o número de Avogadro na tese do mesmo ano — \(6{,}56\times10^{23}\), depois de corrigir um erro de derivação em 1911.

Smoluchowski chegou a resultados equivalentes, de forma independente, em 1906.

1908–1913 · Jean Perrin

Um teste que podia derrubar os átomos

Três trajetórias de partículas coloidais observadas ao microscópio, com as posições sucessivas marcadas por pontos e ligadas por segmentos de reta, sobre uma malha quadriculada.
Três partículas de 0,53 μm, posição marcada a cada 30 s. Malha de 3,2 μm.

J. B. Perrin, 1913 · domínio público

O que estava em jogo

Einstein escrevera que, se o movimento fosse observado e a lei falhasse, isso seria argumento forte contra a teoria cinética. Era um teste que podia derrubar a hipótese atômica.

Perrin foi ao microscópio, marcou posições em intervalos iguais e acumulou estatística sobre o zigue-zague. Da dispersão — puro erro aleatório — obteve

\(N_A = 6{,}8 \times 10^{23}\)

Converteu os últimos céticos: Ostwald e Mach sustentavam que átomos eram ficção útil. Nobel de 1926 — enquanto Einstein nunca recebeu Nobel por este trabalho; o dele, em 1921, foi pelo efeito fotoelétrico.

A ligação com a tábua de Galton

É o mesmo passeio aleatório

+√n −√n n → número de passos
Vinte e seis passeios saindo do mesmo ponto. Em vermelho, \(\pm\sqrt{n}\): o espalhamento cresce com a raiz do número de passos.
Na tábua de Galton

Doze pinos, doze passos. A bolinha termina numa caçapa.

No microscópio de Perrin

Bilhões de choques por segundo. O mesmo caminho, em duas dimensões.

E é a mesma raiz de \(\sigma_{\bar{x}} \propto 1/\sqrt{n-1}\): repetir a medida reduz o erro aleatório porque os desvios se acumulam como um passeio aleatório, não em linha reta.

Erro máximo

O erro máximo na medida, também chamado desvio da medida, é a soma de todos:

$$ \Delta x = \text{erro}_{\text{escala}} + \text{erro}_{\text{sistemático}} + \text{erro}_{\text{aleatório}} $$
Escala

Bem conhecido.

Sistemático

Pode ser consertado.

Aleatório

Desconhecido e não consertável.

Na prática, o erro máximo costuma ser dominado por um dos três — por exemplo, quando o erro de escala é muito maior que os demais.

Parte 6

Tratamento estatístico

Se as medidas de uma grandeza não são todas iguais, como comunicar o seu valor?

Média — o valor mais provável

Para um número infinito de medidas, a média aritmética é o valor verdadeiro. Na prática fazemos \(n\) medidas, e obtemos uma estimativa:

$$ \bar{x} = \frac{1}{n}\sum_{i=1}^{n} x_i = \frac{x_1 + x_2 + \cdots + x_n}{n} $$

\(\bar{x}\) aproxima-se tanto mais do valor verdadeiro \(X\) quanto maior for \(n\). Por isso a média é chamada de valor mais provável da grandeza.

Desvio de uma medida

É a diferença entre a \(i\)-ésima medida e a média:

$$ \Delta x_i = x_i - \bar{x} $$

Esse desvio pode ser positivo ou negativo. Para estimar efetivamente o desvio, usa-se o desvio absoluto:

$$ |\Delta x_i| = |x_i - \bar{x}| $$

Desvio médio

É a média aritmética dos módulos dos desvios:

$$ \overline{\Delta x} = \frac{1}{n}\sum_{i=1}^{n}|\Delta x_i| = \frac{1}{n}\sum_{i=1}^{n}|x_i - \bar{x}| $$
Por que o módulo

Somando os desvios com seus sinais, eles poderiam se cancelar completamente e resultar em média nula — o que não é a informação correta. O objetivo é sempre estimar o erro máximo.

Comunica-se então: \(x = \bar{x} \pm \overline{\Delta x}\).

Desvio padrão da medida

Dá uma ideia da dispersão das medidas em torno do valor médio:

$$ \sigma_x = \sqrt{\frac{1}{n-1}\sum_{i=1}^{n}\left(x_i-\bar{x}\right)^{2}} $$
  • Informa a incerteza com que um dado conjunto de medidas foi realizado.
  • Fala sobre a precisão do instrumento e o rigor do processo.
  • Dá a “largura” do valor mais provável.

Adotaremos, daqui em diante, o erro aleatório provável como sendo o próprio desvio padrão: \(\text{erro}_{\text{aleatório}} = \sigma_x\).

Um pouco de história

De onde vem a curva em sino

Retrato a óleo de Carl Friedrich Gauss, de casaco escuro e barrete, pintado por Christian Albrecht Jensen em 1840.

C. A. Jensen, 1840 · domínio público

Em 1º de janeiro de 1801, Giuseppe Piazzi, em Palermo, encontrou um corpo celeste desconhecido — Ceres. Acompanhou-o por 41 dias e o perdeu no brilho do Sol.

Restaram cerca de vinte observações, cobrindo um pedacinho do céu. Onde procurar meses depois? Ninguém sabia.

O cálculo que ficou famoso

Gauss, com 24 anos, calculou a órbita pelo método dos mínimos quadrados. Em 7 de dezembro de 1801, von Zach apontou o telescópio para onde Gauss havia previsto — e Ceres estava lá.

A pergunta invertida

Por que a média, e não outra coisa?

Em Theoria Motus (1809), Gauss inverteu o problema. Em vez de supor uma lei para os erros e daí tirar o melhor valor, perguntou:

A pergunta de Gauss

Qual teria de ser a distribuição dos erros para que a média aritmética fosse o valor mais provável?

A resposta é a curva em sino. E isso muda o estatuto da média:

O que estava por trás da apostila

Quando escrevemos que \(\bar{x}\) é o valor mais provável, não é força de expressão nem costume. É um teorema — válido quando os erros são aleatórios e se distribuem em sino.

Quem descobriu, e por que funciona

De Moivre achou a curva; Laplace explicou

1733 · Abraham de Moivre

Chegou à curva 76 anos antes de Gauss, aproximando o resultado de muitos lançamentos de moeda. Não a via como lei dos erros — era um atalho de cálculo para jogos de azar.

1810 · Pierre-Simon Laplace

Mostrou por que ela aparece: a soma de muitos efeitos pequenos e independentes tende à curva em sino, seja qual for a natureza de cada um. É o teorema central do limite.

Releia a definição de erro aleatório

“Soma de pequenas perturbações inevitáveis: vibrações, calor, campos externos, oxidações e outros fatores fora do controle do experimentador.”

Muitos efeitos pequenos e independentes, somados — exatamente a hipótese de Laplace. A curva em sino não é uma suposição sobre suas medidas: é consequência de como o erro aleatório se forma.

A curva é de de Moivre, o nome é de Gauss — o tipo de troca que a história da ciência faz com frequência.

O que o desvio padrão mede na curva

68,3% 95,4% 99,7% x̄−σ x̄+σ −2σ +2σ −3σ +3σ
Informar \(x = \bar{x} \pm \sigma_x\) é dizer que cerca de dois terços das medidas caem nesse intervalo.

No Exemplo 11, 37 das 50 medidas — 74% — caíram em \(\bar{L} \pm \sigma_L\). A teoria prevê 68,3%: perto, como se espera de 50 medidas.

Simulação · a curva se formando

Tábua de Galton

O procedimento padrão

  1. Realizar as medidas (determinar os \(x_i\));
  2. calcular a média \(\bar{x}\);
  3. calcular os desvios de cada medida, \(\Delta x_i\);
  4. calcular os \((\Delta x_i)^2\);
  5. calcular o desvio padrão \(\sigma_x\);
  6. informar o resultado no formato \(x = \bar{x} \pm \sigma_x\).
Sempre

As regras de operação com algarismos significativos e os critérios de arredondamento continuam valendo. Apresente o resultado, preferencialmente, em notação científica e com a unidade adequada.

Exemplo 11 — 50 medidas de um comprimento

Enunciado

Um grupo de alunos mediu o comprimento \(L\) de objetos idênticos com uma régua centimetrada e obteve 50 leituras. Vamos organizá-las por frequência \(f\).

fLᵢ (cm)ΔLᵢ (cm)(ΔLᵢ)² (cm²) fLᵢ (cm)ΔLᵢ (cm)(ΔLᵢ)² (cm²)
1240,4−0,60,36 7241,00,00,00
2240,5−0,50,25 6241,10,10,01
3240,6−0,40,16 5241,20,20,04
4240,7−0,30,09 4241,30,30,09
5240,8−0,20,04 3241,40,40,16
6240,9−0,10,01 2241,50,50,25
1241,60,60,36
1241,70,70,49

Total: n = 50 medidas.

Exemplo 11 — histograma

2 4 6 x̄ = 241,0 cm x̄ − σ x̄ + σ 240,4 240,6 240,8 241,0 241,2 241,4 241,6 L (cm) frequência f
Figura 2 — as medidas distribuem-se quase simetricamente em torno da média. Na faixa destacada, \(\bar{L} \pm \sigma_L = [240{,}7\,;\,241{,}3]\ \mathrm{cm}\), estão 37 das 50 medidas: 74% do total.

Exemplo 11 — a) valor mais provável

$$ \bar{L} = \frac{1}{50}\sum_{i=1}^{50} L_i = \frac{12050{,}7\ \mathrm{cm}}{50} = 241{,}014\ \mathrm{cm} $$
O corte vem do instrumento

Numa régua centimetrada, o duvidoso está na casa dos décimos de centímetro. A média não pode ter algarismos significativos além dessa casa:

$$ \bar{L} = 241{,}014\ \mathrm{cm} = 241{,}\underline{0}\ \mathrm{cm} $$
Se ignorássemos isso

Com 10 000 medidas alguém poderia anunciar \(\bar{L} = 241{,}0138\ \mathrm{cm}\) — colocando o duvidoso na casa dos micrometros. Com uma régua centimetrada, isso é falso.

Exemplo 11 — b) desvio médio

$$ \overline{\Delta L} = \frac{1}{50}\sum_{i=1}^{50}|L_i - \bar{L}| = \frac{11{,}9\ \mathrm{cm}}{50} = 0{,}238\ \mathrm{cm} = 0{,}2\ \mathrm{cm} $$

E se usássemos os desvios com sinal?

$$ \frac{1}{50}\sum_{i=1}^{50}(L_i - \bar{L}) = \frac{0{,}7\ \mathrm{cm}}{50} = 0{,}014\ \mathrm{cm} = 0{,}0\ \mathrm{cm} $$
Nada de útil

Os desvios se cancelam. É exatamente por isso que se usa o módulo.

$$ L = \bar{L} \pm \overline{\Delta L} = (241{,}0 \pm 0{,}2)\ \mathrm{cm} $$

Exemplo 11 — c) desvio padrão

$$ \sigma_L = \sqrt{\frac{1}{n-1}\sum_{i=1}^{n}(\Delta L_i)^2} = \sqrt{\frac{4{,}41\ \mathrm{cm^2}}{49}} = 0{,}300\ \mathrm{cm} = 0{,}3\ \mathrm{cm} $$

Como o erro aleatório contribui tanto para mais quanto para menos:

$$ L = \bar{L} \pm \sigma_L = (241{,}0 \pm 0{,}3)\ \mathrm{cm} $$

Note que 37 das 50 medidas (74%) caem no intervalo \([240{,}7\,;\,241{,}3]\ \mathrm{cm}\), isto é, \(\bar{L} \pm \sigma_L\).

Mais medidas: o que melhora e o que não melhora

Não melhora

A precisão da média. A quantidade de algarismos significativos é ditada pelo instrumento, não por \(n\). Para mais algarismos, troque a régua centimetrada por uma milimetrada ou por um paquímetro.

Melhora

O erro aleatório, que diminui com \(n\):

\(\sigma_{\bar{x}} \propto \dfrac{1}{\sqrt{n-1}}\)

Em uma frase

Para aumentar a precisão, use um instrumento melhor. Para diminuir o erro, faça mais medidas.

Afinal, o que devo calcular?

No Exemplo 11 obtivemos três respostas defensáveis:

desvio médio\(L = (241{,}0 \pm 0{,}2)\ \mathrm{cm}\)
desvio padrão\(L = (241{,}0 \pm 0{,}3)\ \mathrm{cm}\)
erro de escala (½ da escala)\(L = (241{,}0 \pm 0{,}5)\ \mathrm{cm}\)

Todas colocam o erro na casa do algarismo duvidoso. Como o erro de escala (0,5 cm) é maior que os demais, a rigor bastaria informar a última linha.

Na disciplina

Siga o procedimento padrão dos seis passos, sem esquecer arredondamento e unidades. Depois, calcule especificamente o que o exercício ou o professor pedir.

Parte 7

Erro relativo percentual

Por que o erro absoluto, sozinho, pode desinformar.

A motivação

  • Muitas vezes medimos para comparar com um valor de referência — tabelado, esperado ou de especificação.
  • Na indústria de papel, por exemplo, as máquinas precisam produzir folhas com dimensões dentro de uma tolerância máxima.
  • O erro absoluto, isolado, pode levar a conclusões enganosas nessa comparação.
$$ \Delta x_{\text{absoluto}} = |x_{\text{lido}} - x_{\text{referência}}| $$

Exemplo 12 — controle de qualidade de uma folha

DimensãoReferênciaLidaErro absoluto
largura215,900 mm215,404 mm0,496 mm
altura279,400 mm280,002 mm0,602 mm
espessura0,010 mm0,011 mm0,001 mm
Olhando só o erro absoluto

O maior erro estaria na altura, depois na largura, e por último na espessura — que teria, de longe, o menor erro.

Erro relativo percentual

Tomando \(x_{\text{referência}} = 100\%\):

$$ \varepsilon\% = \frac{\Delta x_{\text{absoluto}}}{x_{\text{referência}}}\times 100\% = \frac{|x_{\text{lido}} - x_{\text{referência}}|}{x_{\text{referência}}}\times 100\% $$

Depois de obter um valor médio, também é útil compará-lo com uma referência:

$$ \varepsilon\% = \frac{|\bar{x} - x_{\text{referência}}|}{x_{\text{referência}}}\times 100\% $$

Como todo erro, o percentual pode ser para cima ou para baixo do valor de referência.

Exemplo 12 — a reviravolta

DimensãoErro absolutoErro percentual
largura0,496 mm0,229736 %
altura0,602 mm0,215462 %
espessura0,001 mm10 %
Conclusão invertida

O maior erro está na espessura — e muito maior. Além disso, o erro percentual da largura supera o da altura, ao contrário do que sugeriam os erros absolutos.

O percentual é adimensional: reduz grandezas diferentes a uma mesma linguagem de comparação.

Parte 8

Propagação de erros

Cada medida direta traz seu erro. O que acontece quando as combinamos?

O problema

  • A grandeza de interesse (medida indireta) relaciona-se matematicamente com outras, medidas diretamente.
  • Cada medida direta contém erro.
  • Logo, a medida indireta tem um erro que é o resultado da propagação dos erros das diretas.

Sendo \(Y\) a medida indireta e \(x_1,\ldots,x_n\) as diretas:

$$ Y = f(x_1, x_2, x_3, \ldots, x_n) $$

Da diferencial ao desvio

A diferencial da função, em termos das variações de cada variável:

$$ dY = \frac{\partial f}{\partial x_1}dx_1 + \frac{\partial f}{\partial x_2}dx_2 + \cdots + \frac{\partial f}{\partial x_n}dx_n $$

Substituindo as diferenciais pelas respectivas variações (desvios):

$$ \Delta Y = \frac{\partial f}{\partial x_1}\Delta x_1 + \frac{\partial f}{\partial x_2}\Delta x_2 + \cdots + \frac{\partial f}{\partial x_n}\Delta x_n $$

\(\partial f/\partial x_i\) é a derivada parcial: deriva-se a função apenas em relação àquela variável, tratando as demais como constantes.

Equação do erro indeterminado

As derivadas parciais podem ter qualquer sinal — e \(\Delta Y\) poderia até dar zero por cancelamento. Como o objetivo é o erro máximo provável, tomamos todas as contribuições como positivas:

$$ \Delta Y = \left|\frac{\partial f}{\partial x_1}\right|\Delta x_1 + \left|\frac{\partial f}{\partial x_2}\right|\Delta x_2 + \cdots + \left|\frac{\partial f}{\partial x_n}\right|\Delta x_n $$
Como usar

Nas derivadas, substitua cada variável pelo seu valor médio; e multiplique cada uma pelo desvio da respectiva medida direta.

Exemplo 13 — volume de uma calota esférica

Dados

\(h = (155{,}3 \pm 0{,}7)\ \mathrm{mm}\)  ·  \(r = (389{,}0 \pm 1{,}9)\ \mathrm{mm}\)

$$ V = \frac{1}{3}\pi h^{2}(3r - h) = \frac{1}{3}\pi\left(3rh^{2} - h^{3}\right) $$

Aqui \(Y = V\), \(x_1 = r\) e \(x_2 = h\). As derivadas parciais:

$$ \frac{\partial V}{\partial h} = \frac{1}{3}\pi\left(6rh - 3h^{2}\right), \qquad \frac{\partial V}{\partial r} = \pi h^{2} $$

Exemplo 13 — o desvio propagado

$$ \Delta V = \left|\frac{\partial V}{\partial h}\right|\Delta h + \left|\frac{\partial V}{\partial r}\right|\Delta r = \frac{1}{3}\pi\left(6rh - 3h^{2}\right)\Delta h + \pi h^{2}\,\Delta r $$
ΔV = (1/3)π[6(389,0)(155,3) - 3(155,3)²](0,7) + π(155,3)²(1,9) = 212666,084… mm³ + 143961,507… mm³ = 356627,591 mm³

Falta ainda o próprio volume, para saber em que casa arredondar o desvio.

Exemplo 13 — o resultado

V = (1/3)π[3(389,0)(155,3)² - (155,3)³] = 25551904,7 mm³ Pela regra da multiplicação, 4 algarismos significativos: V = 2,555×10⁷ mm³ ΔV = 3,56627591×10⁵ mm³ = 0,0356627591×10⁷ mm³ = 0,036×10⁷ mm³
Arredonde o desvio na casa do duvidoso

O desvio foi arredondado na mesma casa decimal do algarismo duvidoso do valor médio.

$$ V = \bar{V} \pm \Delta V = (2{,}555 \pm 0{,}036)\times 10^{7}\ \mathrm{mm^3} $$

Exemplo 14 — a área do retângulo, geometricamente

Com \(a = \bar{a} \pm \Delta a\) e \(b = \bar{b} \pm \Delta b\):

$$ A = (\bar{a} \pm \Delta a)(\bar{b} \pm \Delta b) = \underbrace{\bar{a}\bar{b}}_{(1)} + \underbrace{\bar{a}\,\Delta b}_{(2)} + \underbrace{\bar{b}\,\Delta a}_{(3)} + \underbrace{\Delta a\,\Delta b}_{(4)} $$
(1) (2) (3) (4) Δa Δb
A área (4) é desprezível

O produto \(\Delta a\,\Delta b\) é um número muito pequeno — produto de dois erros — e não contribui significativamente.

$$ \Delta A = \pm\left(\bar{a}\,\Delta b + \bar{b}\,\Delta a\right) $$

Confira: a equação do erro indeterminado dá exatamente esta expressão, já que \(\partial A/\partial a = b\) e \(\partial A/\partial b = a\).

Quando usar cada caminho

Expressões simples

O raciocínio geométrico/algébrico direto funciona e é esclarecedor — como no Exemplo 14.

Expressões complexas

A equação do erro indeterminado é o caminho confiável. Vale sempre, e não depende de intuição geométrica.

Formato final, sempre

\(Y = \bar{Y} \pm \Delta Y\), com o desvio arredondado na casa do algarismo duvidoso do valor médio, em notação científica e com unidade.

Parte 9

Exercícios

Leituras, operações e tratamento estatístico. Enunciados completos na apostila.

Exercícios I · 1 — faça a leitura e escreva em notação científica

Quatro medidores analógicos de ponteiro, itens (a) a (d): voltímetro de 0 a 60 volts, microamperímetro DC de 0 a 50, milivoltímetro de 0 a 50 e microamperímetro DC de 0 a 10.

Exercícios I · 1 — itens (e) e (f)

Dois termômetros mergulhados em líquido, itens (e) e (f): o primeiro com escala de 0 a 100 graus Celsius e o segundo de 0 a 50 graus Celsius.

Exercícios I · 1 — itens (g), (h) e (i)

Três réguas medindo tiras de papel de comprimentos diferentes, itens (g), (h) e (i): régua em decímetros, em centímetros e em milímetros.

Exercícios I · 2 a 6 — questões conceituais

  1. O que são os algarismos significativos de uma medida?
  2. O algarismo duvidoso é significativo?
  3. Qual é a diferença entre medida direta e indireta?
  4. Os zeros à direita em uma medida são significativos? E à esquerda? Justifique e exemplifique.
  5. O que significa dizer que um instrumento de medida é mais preciso do que outro?

Exercícios I · 7 a 10 — leituras, unidades e escalas

  1. Dentre os conjuntos de medidas feitas com cada régua (decimetrada, centimetrada e milimetrada), indique quais estão erradas.
  2. Para uma lista de medidas: identifique a unidade do intervalo entre as escalas do instrumento, converta para km, dam, hm, m, dm, cm, mm, μm e nm, transforme para angstroms em notação científica, aponte o algarismo duvidoso, conte os algarismos significativos e diga qual medida foi a mais precisa.
  3. Repita a conversão para medidas de área.
  4. Repita a conversão para medidas de volume.

As listas completas estão nas páginas 10 a 12 da Apostila 1.

Exercícios II — operações e arredondamento

Aplique as regras de operação e os critérios de arredondamento. Apresente o resultado em notação científica, com a unidade adequada.

  1. Altura do álcool em um capilar: \(h = 2\delta/(\mu g r)\).
  2. Frequência e período de um sistema massa-mola: \(f = \tfrac{1}{2\pi}\sqrt{K/m}\).
  3. Momento de inércia de um cilindro que rola em plano inclinado: \(C = (ght^{2}/2L^{2})^{-1}\).
  4. Calor de fusão do gelo em um calorímetro.
  5. Coeficiente de dilatação linear: \(\alpha = \pi d\theta/(L_0\,\Delta T\,360^\circ)\).
  6. Velocidade de um projétil pelo pêndulo balístico.
  7. Nível de intensidade sonora: \(\mathrm{NIS} = 10\log(I/I_0)\).
  8. Distribuição de velocidades de Maxwell-Boltzmann para um gás.

Exercícios III — estatística e propagação

  1. Comprimentos de tiras de papel: média, desvio médio e erro percentual (tabelado 13,70 cm).
  2. Período de um pêndulo simples: valor mais provável e desvio médio.
  3. Temperatura de equilíbrio: média, desvio médio e erro percentual.
  4. Comprimento de canetas: média, desvio padrão, erro aleatório provável e resultado no formato adequado.
  5. Temperatura de equilíbrio de uma solução: idem.
  6. Tempo de volta de um carro de corrida: idem.
  1. Erro propagado para adição, subtração, multiplicação, divisão, potenciação, \(\log\), \(\ln\), \(e^x\), \(\cos\), \(\mathrm{sen}\) e \(\tan\).
  2. Expressão do erro indeterminado para áreas e volumes, e para \(V = NRT/P\).
  3. Cálculo numérico dessas áreas e volumes com os respectivos desvios.
  4. Da 10 à 18: velocidade média, aceleração, capilaridade, massa-mola, momento de inércia, NIS, descarga de capacitor, pressão atmosférica e processo adiabático — todos com propagação de erros.

Resumo

Escrevendo uma medida

  • Número + unidade + incerteza.
  • Algarismos significativos = certos + um duvidoso.
  • Zeros à esquerda não contam; à direita, podem contar.
  • Mudar de unidade não altera a quantidade de algarismos.

Operando

  • Adição e subtração: manda a casa decimal mais pobre.
  • Multiplicação e divisão: manda a quantidade de algarismos mais pobre.
  • Arredonde no final.

Erros

  • Escala, sistemático, aleatório.
  • Erro percentual para comparar com referências.

Séries de medidas

  • \(\bar{x}\), \(\overline{\Delta x}\), \(\sigma_x\).
  • Medidas indiretas: equação do erro indeterminado.

Para levar da aula

Uma medida sem incerteza
não é uma medida.

Apostila 1 e material completo da disciplina em github.com/RafaelCRdeLima/FEX1001

FEX1001 · Física Experimental I · Prof. Rafael de Lima · CCT/UDESC