Zangwill, Capítulo 10

Magneto­estática

O campo magnético produzido por correntes estacionárias: da lei de Biot-Savart ao potencial vetor e à topologia das linhas de campo.

"At every point in space at which there is a finite magnetic force there is … a magnetic field."
William Thomson (Lord Kelvin), 1851

Essa observação, aparentemente simples, é o ponto de partida: o campo existe onde quer que atue sobre correntes. A magnetostática pergunta: o que o determina?

Mapa do capítulo

Seis seções, uma teoria completa

Do experimento ao campo

Quem construiu essa história

Oersted
Oersted (1820): corrente elétrica deflete agulha magnética — primeiro elo entre eletricidade e magnetismo.
Biot
Biot & Savart (1820): medem força magnética sobre polo isolado e deduzem a lei integral para correntes.
Savart
Savart: coformula a lei integral para correntes lineares.
Ampere
Ampère (1820–1827): organiza a interação entre correntes e formula a lei do rotacional.
Maxwell
Maxwell (1864): unifica tudo no idioma dos campos — \(\nabla\times\mathbf{B}=\mu_0\mathbf{j}\).

10.1 Introdução

O problema da magnetostática

\( \nabla \cdot \mathbf{B} = 0 \)
\( \nabla \times \mathbf{B} = \mu_0\,\mathbf{j} \)

Toda distribuição de corrente \(\mathbf{j}(\mathbf{r})\) estacionária é fonte de um campo \(\mathbf{B}(\mathbf{r})\) que satisfaz essas duas equações diferenciais. O campo \(\mathbf{B}\) é completamente determinado por elas (via Teorema de Helmholtz, Seção 1.9).

Leitura física das duas equações

  • \(\nabla\cdot\mathbf{B}=0\): o campo magnético não tem fontes escalares — linhas de \(\mathbf{B}\) não começam nem terminam.
  • \(\nabla\times\mathbf{B}=\mu_0\mathbf{j}\): correntes estacionárias são as fontes do rotacional — elas "enrolam" o campo ao redor de si.
  • A força exercida por \(\mathbf{B}\) sobre outra corrente \(\mathbf{j}'\) é \(\mathbf{F}=\int d^3r\,\mathbf{j}'\times\mathbf{B}\).

10.1.1 Escopo

Por que magnetostática é mais sutil que eletrostática

Fonte vetorial

A densidade de carga \(\rho\) é um escalar. A densidade de corrente \(\mathbf{j}\) é um vetor. Isso torna a equação \(\nabla\times\mathbf{B}=\mu_0\mathbf{j}\) intrinsecamente mais rica em estrutura.

Dois tipos de corrente

Campos magnéticos são produzidos por: (1) corrente elétrica de cargas em movimento e (2) corrente de magnetização — spin quântico de partículas. Isso torna a matéria magnetizável muito mais variada que a polarizável.

E e B: distinção relativa

A relatividade especial (Cap. 22) mostrará que a distinção entre \(\mathbf{E}\) e \(\mathbf{B}\) é apenas uma questão de referencial. Campos estáticos em um referencial tornam-se misturados em outro.

Uma inversão fundamental

Magnetostática \(\neq\) eletrostática com nomes trocados

Eletrostática

\( \nabla \cdot \mathbf{E} = \rho/\epsilon_0 \)
\( \nabla \times \mathbf{E} = 0 \)

A carga cria divergência. O rotacional é nulo. Linhas de \(\mathbf{E}\) começam e terminam. Potencial escalar \(\varphi\) domina.

Magnetostática

\( \nabla \cdot \mathbf{B} = 0 \)
\( \nabla \times \mathbf{B} = \mu_0\mathbf{j} \)

A corrente cria rotacional. A divergência é nula. Linhas de \(\mathbf{B}\) circulam. O potencial vetor \(\mathbf{A}\) emerge naturalmente.

10.1.2 Magnetostática implica corrente estacionária

A consistência local de \(\nabla\cdot\mathbf{j}=0\)

\( \nabla \cdot \mathbf{j} = 0 \)

Aplicando \(\nabla\cdot\) em ambos os lados de \(\nabla\times\mathbf{B}=\mu_0\mathbf{j}\) e usando a identidade \(\nabla\cdot(\nabla\times\mathbf{F})=0\), obtemos imediatamente \(\nabla\cdot\mathbf{j}=0\).

Fisicamente: nenhuma carga se acumula em nenhum volume. O que entra também sai. As linhas de corrente são sempre fechadas.

Esse é o mesmo diagrama que descreve possíveis linhas de \(\mathbf{B}\): sem começo, sem fim, sem acúmulo.

linhas de j fechadas — sem acúmulo ∇·j = 0 em todo ponto do espaço

10.1.3 Monopolos magnéticos

Por que \(\nabla\cdot\mathbf{B}=0\) é tão profundo

O que seria um monopolo?

  • O análogo magnético de uma carga elétrica: uma fonte pontual de divergência para \(\mathbf{B}\).
  • Nenhum experimento reprodutível jamais detectou um monopolo magnético.
  • \(\nabla\cdot\mathbf{B}=0\) é o conteúdo matemático desta ausência.
\( \oint_S \mathbf{B}\cdot d\mathbf{S} = 0 \quad \text{para qualquer } S \)

Consequências

  • Assimetria de Maxwell: \(\nabla\cdot\mathbf{E}=\rho/\epsilon_0\) mas \(\nabla\cdot\mathbf{B}=0\). Polos não são fontes.
  • Linhas de \(\mathbf{B}\): fecham sobre si mesmas, vão ao infinito em ambas direções, ou têm topologia mais complexa (Seção 10.6).
  • Dirac (1931): se monopolos existissem, a carga elétrica seria naturalmente quantizada — uma das consequências mais elegantes da física teórica.

Sem monopolos

Fluxo magnético líquido é sempre zero

V entra = sai: \(\Phi_B = 0\) O teorema da divergência converte \(\nabla\cdot\mathbf{B}=0\) nesta lei de fluxo
\( \Phi_B = \oint_S \mathbf{B}\cdot d\mathbf{S} = 0 \)
\( \Phi_B = \int_V d^3r\,\nabla\cdot\mathbf{B} = 0 \quad \checkmark \)
  • Válido para qualquer superfície fechada \(S\), arbitrariamente pequena.
  • Como \(V\) pode ser infinitesimal: linhas de \(\mathbf{B}\) não podem começar nem terminar em nenhum ponto isolado.
  • Contraste: \(\oint_S \mathbf{E}\cdot d\mathbf{S} = Q_{\text{int}}/\epsilon_0\) — pode ser não-nulo se houver carga dentro.

10.1.4 Análogo ao teorema de Earnshaw

Teorema de Thomson da magnetostática

Teorema

\(|\mathbf{B}(\mathbf{r})|\) pode ter um mínimo local, mas nunca um máximo local em um volume \(V\) livre de correntes.

Prova: Supõe-se um máximo em \(P\), onde \(\nabla\cdot\mathbf{B}=0\) e \(\nabla\times\mathbf{B}=0\). Então sobre uma pequena esfera \(S\) centrada em \(P\): \[ \oint_S \nabla(\mathbf{B}\cdot\mathbf{B})\cdot d\mathbf{S} < 0 \] Pelo teorema da divergência e identidades vetoriais: \[ \oint_S \nabla(B^2)\cdot d\mathbf{S} = 2\int_V (\nabla_i B_j)^2\,d^3r \geq 0 \quad \text{(contradição!)} \]

Implicações práticas

  • Não é possível confinar partículas carregadas em um máximo de \(|\mathbf{B}|\) estático.
  • Confinamento em mínimo de \(|\mathbf{B}|\) é possível (armadilhas magnéticas).
  • Contrasta com o teorema de Earnshaw para \(\mathbf{E}\): nem máximo nem mínimo de \(\varphi\) existem em região sem cargas.
  • Aplicado em fusão nuclear (tokamaks) e armadilhas de átomos frios.

Por que \(\mathbf{B}\) importa na prática

Força e torque sobre distribuições de corrente

\( \displaystyle \mathbf{F} = \int d^3r\;\mathbf{j}'(\mathbf{r})\times\mathbf{B}(\mathbf{r}) \)
\( \displaystyle \mathbf{N} = \int d^3r\;\mathbf{r}\times[\mathbf{j}'(\mathbf{r})\times\mathbf{B}(\mathbf{r})] \)

Essas são as expressões gerais. Quando \(\mathbf{B}\) é uniforme e a distribuição \(\mathbf{j}'\) é localizada, a força total se anula e o torque reduz a \(\mathbf{N}=\mathbf{m}\times\mathbf{B}\) (Cap. 11).

A intuição operacional

  • Corrente paralela a \(\mathbf{B}\): força local nula (\(\mathbf{j}\times\mathbf{B}=0\)).
  • Corrente perpendicular: força máxima.
  • O produto vetorial faz a geometria mandar no resultado — a força é sempre transversal.
  • Aplicação imediata: motores elétricos, railguns, plasma confinado.

10.2 Lei de Biot-Savart

Por que ela existe: o teorema de Helmholtz

O teorema de Helmholtz (Seção 1.9) garante: dados \(\nabla\cdot\mathbf{B}\) e \(\nabla\times\mathbf{B}\), o campo \(\mathbf{B}\) é unicamente determinado. Com \(\nabla\cdot\mathbf{B}=0\) e \(\nabla\times\mathbf{B}=\mu_0\mathbf{j}\):

\( \displaystyle \mathbf{B}(\mathbf{r}) = \nabla\times\!\left[\frac{\mu_0}{4\pi}\int d^3r'\,\frac{\mathbf{j}(\mathbf{r}')}{|\mathbf{r}-\mathbf{r}'|}\right] \)

Trazer \(\nabla\) para dentro do integral (pois \(\mathbf{j}(\mathbf{r}')\) não depende de \(\mathbf{r}\)) e usar \(\nabla(1/|\mathbf{r}-\mathbf{r}'|)=-(\mathbf{r}-\mathbf{r}')/|\mathbf{r}-\mathbf{r}'|^3\):

\( \displaystyle \mathbf{B}(\mathbf{r})=\frac{\mu_0}{4\pi}\int d^3r'\,\frac{\mathbf{j}(\mathbf{r}')\times(\mathbf{r}-\mathbf{r}')}{|\mathbf{r}-\mathbf{r}'|^3} \)
j(r') d³r' r (obs.) r − r' dB ⊥ plano(j, r−r') dB

Mesma física, fontes diferentes

Lei de Biot-Savart para volume, superfície e filamento

Corrente de volume

\( \displaystyle \mathbf{B}=\frac{\mu_0}{4\pi}\int d^3r'\,\frac{\mathbf{j}\times\hat{\mathbf{R}}}{R^2} \)

Onde \(\mathbf{R}=\mathbf{r}-\mathbf{r}'\). Condutor espesso ou plasma.

Corrente superficial

\( \displaystyle \mathbf{B}=\frac{\mu_0}{4\pi}\int dS\,\frac{\mathbf{K}(\mathbf{r}_S)\times\hat{\mathbf{R}}}{R^2} \)

\(\mathbf{K}\) [A/m]: folha de corrente ou limite de camada fina.

Filamento \(I\,d\boldsymbol{\ell}\)

\( \displaystyle \mathbf{B}=\frac{\mu_0 I}{4\pi}\int\frac{d\boldsymbol{\ell}\times\hat{\mathbf{R}}}{R^2} \)

Substituição \(\mathbf{j}\,d^3r'\to I\,d\boldsymbol{\ell}\). Fio ideal (espessura irrelevante).

Denominador alternativo: usa-se tanto \(R^2\hat{\mathbf{R}}/R^2 = \hat{\mathbf{R}}/R^2\) quanto \((\mathbf{r}-\mathbf{r}')/|\mathbf{r}-\mathbf{r}'|^3\). Ambas as notações são equivalentes.

Exemplo 10.1 do Zangwill

Campo de um segmento de fio reto com corrente \(I\)

Fio finito com corrente \(I\), descrito pelos vetores \(\mathbf{b}\) e \(\mathbf{c}\) (do ponto de observação \(P\) às extremidades). Vetor unitário \(\mathbf{a}=\hat{\ell}\) ao longo do fio. Distância perpendicular: \(r = |\mathbf{c}\times\mathbf{a}|/a\).

\( \displaystyle \mathbf{B} = \frac{\mu_0 I}{4\pi}\,\frac{\mathbf{c}\times\mathbf{a}}{|\mathbf{c}\times\mathbf{a}|^2}\left(\frac{\mathbf{a}\cdot\mathbf{c}}{c} - \frac{\mathbf{a}\cdot\mathbf{b}}{b}\right) \)

Fio infinito: \(b\to+\infty\), \(c\to+\infty\) com extremos em sentidos opostos:

\( \displaystyle \mathbf{B} = \frac{\mu_0 I}{2\pi r}\,\hat{\boldsymbol{\phi}} \)

Passos do cálculo

  • Escolher origem na projeção de \(P\) sobre o fio.
  • \(|\mathbf{r}-\boldsymbol{\ell}| = \sqrt{r^2+\ell^2}\); \(\,d\boldsymbol{\ell}\times(\mathbf{r}-\boldsymbol{\ell})\) é perpendicular ao plano e constante em direção.
  • \(\int_{\ell_b}^{\ell_c}\frac{d\ell}{(r^2+\ell^2)^{3/2}} = \frac{1}{r^2}\left[\frac{\ell}{\sqrt{r^2+\ell^2}}\right]_{\ell_b}^{\ell_c}\)
  • Limite infinito: \(\ell/\sqrt{r^2+\ell^2}\to\pm 1\), soma \(= 2/r^2\).

10.2.1 Espira circular de corrente

Campo no eixo de simetria

R B(z) comp. ⊥ cancela Por simetria: somente a componente axial sobrevive

No eixo \(z\), cada elemento \(Id\boldsymbol{\ell}\) contribui com \(d\mathbf{B}\) inclinado. Pela simetria azimutal, as componentes transversais de lados opostos se cancelam. Só resta a componente \(\hat{\mathbf{z}}\).

\( \displaystyle B_z = \frac{\mu_0 I}{4\pi}\frac{\cos\theta}{R^2+z^2}\oint d\ell = \frac{\mu_0 I}{2}\frac{R^2}{(R^2+z^2)^{3/2}} \)

Onde \(\cos\theta = R/\sqrt{R^2+z^2}\) e \(\oint d\ell = 2\pi R\).

10.2.1 Resultado final

Campo no eixo de uma espira circular

\( \displaystyle \mathbf{B}(z)=\hat{\mathbf{z}}\;\frac{\mu_0 I R^2}{2(R^2+z^2)^{3/2}} \)
\( B(0) = \dfrac{\mu_0 I}{2R} \quad (\text{centro da espira}) \)
\( B(z)\xrightarrow{z\gg R} \frac{\mu_0 I R^2}{2z^3} \quad (\text{far field: dipolo}) \)

Pontos importantes

  • Resultado análogo ao campo elétrico no eixo de um anel carregado — mas diferente: aqui há um produto vetorial extra, por isso \(B\neq 0\) no centro enquanto \(E=0\) para o anel.
  • Limite \(z\gg R\): campo de dipolo \(\sim 1/z^3\). O momento de dipolo magnético é \(m=I\pi R^2\).
  • Esse resultado é a base para o cálculo do potencial escalar em 10.4.1.

10.2.2 Solenoide infinito

Integrando Biot-Savart sobre um solenoide

Solenoide de seção arbitrária com corrente superficial azimutal \(\mathbf{K}=K\,d\boldsymbol{\ell}'\). Usando Biot-Savart para superfície (10.16) e separando a integral em \(z\) e no contorno \(C\):

\( \displaystyle \mathbf{B}(P)=\frac{\mu_0 K}{2\pi}\oint_C\frac{\mathbf{R}'\times d\mathbf{R}'}{R'^2} \)

O ângulo sólido plano varrido pelo vetor \(\mathbf{R}'\) ao longo de \(C\) é:

  • \(P\) dentro: \(\mathbf{R}'\) percorre ângulo \(2\pi\) → \(\mathbf{B}=\mu_0 K\,\hat{\mathbf{z}}\)
  • \(P\) fora: ângulo líquido \(= 0\) → \(\mathbf{B}=0\)
fora: 0 dentro: B = μ₀K ẑ (uniforme)

10.2.2 Resultado e implicações

Campo do solenoide infinito: confinamento perfeito

\( \displaystyle \mathbf{B} = \begin{cases} \mu_0 K\,\hat{\mathbf{z}}, & P \text{ dentro}\\ 0, & P \text{ fora}\end{cases} \)
\( K = nI \quad \Rightarrow \quad \mathbf{B} = \mu_0 nI\,\hat{\mathbf{z}} \)

\(n\) = número de espiras por unidade de comprimento, \(I\) = corrente por espira.

O que é notável aqui

  • O campo externo é exatamente zero para solenoide infinito — não apenas pequeno.
  • O campo interno é exatamente uniforme, independente da seção transversal.
  • Isso segue do ângulo líquido: quando \(P\) está fora, as contribuições de todos os elementos de \(C\) se cancelam.
  • Importante para o efeito Aharonov-Bohm (Seção 10.5): mesmo sem campo, o potencial vetor \(\mathbf{A}\) fora é não-nulo!

Aplicação 10.1 — resultado surpreendente

Correntes irrotacionais não produzem campo magnético

Enunciado

Se \(\nabla\times\mathbf{j}(\mathbf{r}')=0\) em todo o espaço e \(\mathbf{j}\) é localizada, então \(\mathbf{B}(\mathbf{r})=0\) em todo o espaço.

Esboço da prova: Reescreve-se a lei de Biot-Savart como \(\mathbf{B}(\mathbf{r}) = \frac{\mu_0}{4\pi}\int d^3r'\,\mathbf{j}(\mathbf{r}')\cdot\nabla'\frac{1}{|\mathbf{r}-\mathbf{r}'|} \). Integração por partes produz dois termos: um proporcional a \(\nabla'\cdot\mathbf{j}=0\) e outro com integral de superfície que vai a zero (pois \(\mathbf{j}\) é localizada). Portanto \(\mathbf{B}=0\).

Moral física

  • A "rotacionalidade" de \(\mathbf{j}\) é o que cria o campo magnético.
  • Uma corrente que "circula" (rotacional não-nulo) produz \(\mathbf{B}\neq 0\).
  • Uma corrente que "flui para dentro ou para fora" sem circular não produz campo magnético externo.
  • Isso é o análogo magnético do teorema de Gauss: é o caráter do fluxo que importa.

10.3 Lei de Ampère

Do rotacional à circulação: teorema de Stokes

Integrar \(\nabla\times\mathbf{B}=\mu_0\mathbf{j}\) sobre uma superfície \(S\) com bordo \(C\):

\( \int_S (\nabla\times\mathbf{B})\cdot d\mathbf{S} = \mu_0\int_S \mathbf{j}\cdot d\mathbf{S} = \mu_0 I_C \)

Pelo teorema de Stokes (Seção 1.4.4):

\( \int_S (\nabla\times\mathbf{B})\cdot d\mathbf{S} = \oint_C \mathbf{B}\cdot d\boldsymbol{\ell} \)
\( \displaystyle \oint_C \mathbf{B}\cdot d\boldsymbol{\ell} = \mu_0\,I_C \)

\(I_C = \int_S \mathbf{j}\cdot d\mathbf{S}\): corrente atravessando qualquer superfície que tenha \(C\) como bordo. O sinal segue a regra da mão direita.

Liberdade de escolha da superfície

  • Qualquer superfície \(S\) com bordo \(C\) dará o mesmo \(I_C\) — desde que \(\nabla\cdot\mathbf{j}=0\).
  • Isso é garantido pela consistência da magnetostática (Seção 10.1.2).
  • Na eletrodinâmica, a corrente de deslocamento \(\epsilon_0\partial\mathbf{E}/\partial t\) deve ser adicionada (Cap. 14).

Como usar a lei de Ampère

A simetria é a chave: três passos obrigatórios

1. Identificar simetria

Antes de integrar qualquer coisa: use argumentos de simetria (translação, rotação, reflexão) para determinar quais componentes de \(\mathbf{B}\) são não-nulas e de quais variáveis elas dependem.

2. Escolher caminho ampèreano

Escolher curva \(C\) onde \(|\mathbf{B}|\) é constante e \(\mathbf{B}\parallel d\boldsymbol{\ell}\) — então \(\oint\mathbf{B}\cdot d\boldsymbol{\ell} = B \cdot L_C\). O cálculo vira álgebra.

3. Calcular \(I_C\)

Determinar a corrente total que atravessa a superfície delimitada por \(C\). Então isolar \(B\): \(B = \mu_0 I_C / L_C\).

Atenção: Pular o passo 1 é o erro mais comum. A forma de \(\mathbf{B}\) deve ser justificada por simetria antes de usar Ampère — caso contrário, a integral não simplifica e nenhuma informação útil é extraída.

10.3.1 Fio retilíneo infinito

Três simetrias determinam \(\mathbf{B}=B(\rho)\hat{\boldsymbol{\phi}}\)

Translação em \(z\) e rotação em \(\phi\)

Invariância translacional em \(z\) e rotacional em \(\phi\): \(\mathbf{B}=\mathbf{B}(\rho)\). O campo depende apenas da distância radial \(\rho\).

Reflexão \(z\to -z\) (B é pseudovetor)

Sob reflexão no plano \(z=0\): \(I\to -I\), portanto \(\mathbf{B}\to-\mathbf{B}\). A componente \(B_z\) deve satisfazer \(B_z=-B_z\), logo \(B_z=0\).

Radial: proibida por \(\nabla\cdot\mathbf{B}=0\)

Componente radial \(B_\rho\neq 0\) criaria divergência: \(\nabla\cdot\mathbf{B}=(1/\rho)\partial(\rho B_\rho)/\partial\rho\neq 0\). Logo \(B_\rho=0\).

\( \mathbf{B}(\mathbf{r}) = B(\rho)\,\hat{\boldsymbol{\phi}} \)

Conclusão: o campo só pode ter componente azimutal, que depende apenas de \(\rho\). Agora aplica-se Ampère com círculo de raio \(\rho\): \(B(2\pi\rho) = \mu_0 I\).

Propriedade fundamental de \(\mathbf{B}\)

\(\mathbf{B}\) é um pseudovetor: como a reflexão age

Vetores polares vs. axiais

  • Vetores polares (posição, velocidade, força): sob reflexão espacial \(\mathbf{r}\to-\mathbf{r}\), transformam como \(\mathbf{v}\to-\mathbf{v}\).
  • Pseudovetores (axiais): nascem de produto vetorial \(\mathbf{a}\times\mathbf{b}\). Sob reflexão, não mudam de sinal da mesma forma.
  • Reflexão em \(z=0\): \(\mathbf{r}'=x\hat{\mathbf{x}}+y\hat{\mathbf{y}}-z\hat{\mathbf{z}}\). A corrente \(\mathbf{j}=\rho\mathbf{v}\) é polar — suas componentes \(x,y\) ficam iguais, a \(z\) inverte.
  • Como \(\mathbf{B}\) satisfaz \(\nabla'\times\mathbf{B}'=\mu_0\mathbf{j}'\): as componentes \(B_x, B_y\) invertem; \(B_z\) permanece.
plano de reflexão \(z=0\) I B (acima) B (abaixo) simetria elimina componentes radial e axial

Aplicação de Ampère

Campo dentro e fora de um condutor sólido de raio \(a\)

Corrente total \(I\) distribuída uniformemente: \(j = I/(\pi a^2)\). Caminho ampèreano: círculo de raio \(\rho\).

\( \rho < a:\quad I_{\rm enc} = I\frac{\rho^2}{a^2} \Rightarrow \mathbf{B} = \frac{\mu_0 I\rho}{2\pi a^2}\,\hat{\boldsymbol{\phi}} \)
\( \rho > a:\quad I_{\rm enc} = I \Rightarrow \mathbf{B} = \frac{\mu_0 I}{2\pi\rho}\,\hat{\boldsymbol{\phi}} \)

O campo cresce linearmente dentro do fio e cai como \(1/\rho\) fora. Ambos são contínuos em \(\rho=a\) (não há corrente superficial).

ρ B a B ∝ ρ (dentro) B ∝ 1/ρ (fora) B(a) = μ₀I/2πa

Exemplo 10.2 — Ampère

Toroide: campo completamente confinado

ρ N espiras de corrente I campo B existe apenas dentro do volume toroidal

\(N\) espiras enroladas em forma de torus. Caminho circular de raio \(\rho\) concêntrico ao eixo:

\( \text{dentro: }B(2\pi\rho)=\mu_0 NI \Rightarrow \mathbf{B}=\frac{\mu_0 NI}{2\pi\rho}\,\hat{\boldsymbol{\phi}} \)
\( \text{fora: }I_{\rm enc}=0 \Rightarrow \mathbf{B}=0 \)

O campo está completamente confinado dentro do volume toroidal. Essa geometria é a base dos tokamaks para fusão nuclear — o campo toroidal confina o plasma.

Note que \(B\propto 1/\rho\): o campo não é uniforme dentro do toroide (contraste com solenoide linear).

10.3.2 Folha uniforme

Campo de uma folha infinita de corrente \(\mathbf{K}=K\hat{\mathbf{y}}\)

Duas simetrias: (1) invariância translacional em \(x\) e \(y\) → \(\mathbf{B}=\mathbf{B}(z)\); (2) rotação de \(180°\) em torno do eixo \(y\) e reflexão em \(z=0\) eliminam \(B_y\) e \(B_z\).

\( \mathbf{B}(x,y,z) = \begin{cases} +\tfrac{1}{2}\mu_0 K\,\hat{\mathbf{x}}, & z>0\\ -\tfrac{1}{2}\mu_0 K\,\hat{\mathbf{x}}, & z<0 \end{cases} \)
\( \mathbf{B} = \tfrac{1}{2}\mu_0\,\mathbf{K}\times\hat{\mathbf{s}} \)

Onde \(\hat{\mathbf{s}}\) aponta da folha para o ponto de observação. Derivado via caminho retangular ampèreano.

B acima B abaixo K

10.3.3 Condições de contorno para \(\mathbf{B}\)

Saltos na superfície com corrente

B₂ B₁ K superfície S com corrente K(rS)
\( \hat{\mathbf{n}}\cdot(\mathbf{B}_2-\mathbf{B}_1)=0 \)
\( \hat{\mathbf{n}}\times(\mathbf{B}_2-\mathbf{B}_1)=\mu_0\,\mathbf{K} \)
  • Normal: componente \(B_n\) é contínua — segue de \(\nabla\cdot\mathbf{B}=0\) por caixa de Gauss infinitesimal.
  • Tangencial: componente \(B_t\) sofre salto \(\mu_0 K\) — segue de Ampère com retângulo infinitesimal.
  • Derivação: \(\mathbf{B}_1 = \mathbf{B}_S + \tfrac{1}{2}\mu_0\mathbf{K}\times\hat{\mathbf{n}}_2\) e \(\mathbf{B}_2 = \mathbf{B}_S - \tfrac{1}{2}\mu_0\mathbf{K}\times\hat{\mathbf{n}}_2\).

Caso especial importante

Campo externo de um condutor perfeito

Dentro de um condutor perfeito em equilíbrio estático, \(\mathbf{B}_{\rm in}=0\) (Seção 13.x). A condição de contorno tangencial (10.38) com \(\mathbf{B}_1=\mathbf{B}_{\rm in}=0\) dá:

\( \mu_0\,\mathbf{K} = \hat{\mathbf{n}}\times\mathbf{B}_{\rm out} \)

O campo externo imediatamente fora do condutor está relacionado à corrente superficial que flui na superfície. Essa corrente é exatamente a que "blinda" o interior.

Analogia com eletrostática

  • Em eletrostática: \(\sigma = \epsilon_0\hat{\mathbf{n}}\cdot\mathbf{E}_{\rm out}\) (carga superficial relacionada ao campo externo normal).
  • Em magnetostática: \(\mu_0\mathbf{K} = \hat{\mathbf{n}}\times\mathbf{B}_{\rm out}\) (corrente superficial relacionada ao campo externo tangencial).
  • Profunda simetria: ambas as condições expressam que o campo fora é sustentado pela distribuição de fonte na superfície.

10.3.4 Auto-força

Uma folha de corrente não empurra a si mesma

\( \mathbf{f}(\mathbf{r}_S)=\tfrac{1}{2}\,\mathbf{K}(\mathbf{r}_S)\times[\mathbf{B}_1(\mathbf{r}_S)+\mathbf{B}_2(\mathbf{r}_S)] \)

A força por área usa o campo médio dos dois lados — não o campo da própria folha. Isso remove a contribuição singular do elemento que exerce a força sobre si mesmo.

\( \mathbf{B}_S = \tfrac{1}{2}(\mathbf{B}_1 + \mathbf{B}_2) \quad \Rightarrow \quad \mathbf{f} = \mathbf{K}\times\mathbf{B}_S \)

Por que o campo médio?

  • O elemento de corrente em \(\mathbf{r}_S\) é produzido pelo campo de todos os outros elementos.
  • O campo da própria folha local é \(\pm\tfrac{1}{2}\mu_0\mathbf{K}\times\hat{\mathbf{n}}\) (diverge se tomado no limite de folha infinitesimal).
  • O campo externo \(\mathbf{B}_S\) (de tudo exceto o disco local) é contínuo através da superfície.
  • Esse resultado reaparece em energia magnética e tensões (Cap. 12).

10.4 Potencial escalar magnético \(\psi(\mathbf{r})\)

Onde a corrente é nula, vale \(\mathbf{B}=-\nabla\psi\)

Em qualquer volume \(V\) onde \(\mathbf{j}(\mathbf{r})=0\), a lei de Ampère diz \(\nabla\times\mathbf{B}=0\). Logo \(\mathbf{B}\) é derivável de um potencial escalar:

\( \mathbf{B}(\mathbf{r}) = -\nabla\psi(\mathbf{r}) \quad \mathbf{r}\in V \)

Combinando com \(\nabla\cdot\mathbf{B}=0\):

\( \nabla^2\psi(\mathbf{r}) = 0 \quad \mathbf{r}\in V \)

Resultado poderoso: todos os métodos do Capítulo 7 (Laplace) se aplicam! Separação de variáveis, expansão em polinômios de Legendre, funções de Bessel, funções de Green.

Estratégia com \(\psi\)

  • Funciona quando as correntes estão confinadas a superfícies separando sub-volumes sem corrente.
  • Resolver \(\nabla^2\psi=0\) em cada sub-volume.
  • Usar as condições de contorno (10.37) e (10.38) para "costurar" as soluções.
  • Limitação: \(\psi\) pode ser multi-valorado — ver Seção 10.4.3!

Conexão com Cap. 7

Laplace para \(\psi\): toda a maquinaria do Cap. 7 se aplica

Condições de contorno em termos de \(\psi\)

  • Normal contínua: \(\hat{\mathbf{n}}\cdot(\mathbf{B}_2-\mathbf{B}_1)=0\) torna-se \(\hat{\mathbf{n}}\cdot(\nabla\psi_2-\nabla\psi_1)=0\) → continuidade de \(\partial\psi/\partial n\).
  • Tangencial com salto: \(\hat{\mathbf{n}}\times(\mathbf{B}_2-\mathbf{B}_1)=\mu_0\mathbf{K}\) torna-se condição no gradiente tangencial de \(\psi\).
  • Análogo exato do problema eletrostático com distribuição de carga superficial \(\sigma\).

Diferença fundamental com eletrostática

  • O potencial elétrico \(\varphi\) é sempre contínuo (de \(\hat{\mathbf{n}}\times[\mathbf{E}_2-\mathbf{E}_1]=0\)).
  • O potencial magnético \(\psi\) não precisa ser contínuo: a condição tangencial de \(\mathbf{B}\) envolve \(\mathbf{K}\neq 0\).
  • Exemplo: espira circular — \(\psi\) é descontínuo em \(r=R\) mesmo que \(\mathbf{B}\) seja bem-definido.

10.4.1 Espira circular de raio \(R\)

Potencial escalar via expansão em \(P_\ell(\cos\theta)\)

Espira no plano \(z=0\). A superfície esférica \(r=R\) divide o espaço em duas regiões sem corrente. A simetria azimutal e regularidade fixam:

\( \psi(r,\theta)=\begin{cases}\displaystyle\sum_{\ell=1}^{\infty}A_\ell\!\left(\tfrac{r}{R}\right)^{\!\ell}\!P_\ell(\cos\theta),&r<R\\[8pt]\displaystyle\sum_{\ell=1}^{\infty}B_\ell\!\left(\tfrac{R}{r}\right)^{\!\ell+1}\!P_\ell(\cos\theta),&r>R\end{cases} \)

Note: somas começam em \(\ell=1\) (não \(\ell=0\)), pois a continuidade de \(\hat{\mathbf{r}}\cdot\nabla\psi\) em \(r=R\) dá \(B_0=0\).

Como determinar os coeficientes

  • A relação \(B_\ell = -\frac{\ell}{\ell+1}A_\ell\) vem da condição normal.
  • Os \(A_\ell\) vêm da condição tangencial, que envolve funções de Legendre associadas — complicado!
  • Truque de Zangwill: calcular \(B_z(z)\) no eixo (mais fácil) e expandir em série de Legendre:
\( \psi(z) = -\frac{\mu_0 I}{2}\frac{z}{\sqrt{R^2+z^2}} \xrightarrow{\text{expand}} -\frac{\mu_0 I}{2}\sum_{\ell=1}^{\infty}\left(\frac{z}{R}\right)^\ell P_{\ell-1}(0) \)

10.4.1 Campo completo da espira

Linhas de \(\mathbf{B}\) e o campo de dipolo no limite distante

\( \mathbf{B}(r,\theta)=-\frac{\partial\psi}{\partial r}\hat{\mathbf{r}}-\frac{1}{r}\frac{\partial\psi}{\partial\theta}\hat{\boldsymbol{\theta}} \)
\( \psi(r,\theta)\xrightarrow{r\gg R}\frac{\mu_0 I\pi R^2}{4\pi}\frac{\cos\theta}{r^2} \)

Para \(r\gg R\), o termo \(\ell=1\) domina, e o potencial escalar assume a forma idêntica ao de um dipolo elétrico. O momento de dipolo magnético é:

\( m = I\pi R^2 \quad \Rightarrow \quad \psi\simeq\frac{\mu_0}{4\pi}\frac{m\cos\theta}{r^2} \)

Estrutura das linhas de campo

  • Perto da espira: linhas circulam em torno do fio (campo quase de "fio reto").
  • Na região intermediária: expansão assimétrica em elipses.
  • Longe da espira (\(r\gg R\)): linhas idênticas às de um dipolo elétrico puntual — essa é a razão profunda pela qual a estrutura dipolar é universal em campos estáticos.
  • \(\psi\) é descontínuo em \(r=R\) — mas \(\mathbf{B}=-\nabla\psi\) é contínuo exceto na componente tangencial (que tem o salto \(\mu_0 K\)).

10.4.2 Aplicação: campo uniforme

Bobina de Helmholtz: máxima uniformidade num ponto

Duas espiras de raio \(R\), coaxiais, separadas por distância \(R\) (uma em \(z=0\), outra em \(z=R\)). Ponto médio em \(z=R/2\).

\( B_z(z=R/2): \quad B_z''(R/2)=0 \)

Em \(z=R/2\): ponto de inflexão de cada espira separadamente (pois \(B_z''(R/2)=0\) para espira em \(z=0\)).

Pela simetria de reflexão em \(z=R/2\): todas as derivadas ímpares se anulam no ponto médio. A primeira derivada não-nula é \(B_z^{(4)}\).

\( \mathbf{B}(R/2) = \frac{8\mu_0 NI}{5\sqrt{5}\,R}\,\hat{\mathbf{z}} \)

Por que é tão uniforme?

  • Cada espira já tem \(B''(R/2)=0\) sozinha (ponto de inflexão de \(B_z(z)\)).
  • A simetria da configuração elimina todas as derivadas ímpares.
  • A primeira correção ao campo uniforme é de ordem \((z-R/2)^4\).
  • Gaugain descobriu o princípio em 1853; Helmholtz soube e publicou. A prioridade foi disputada — Zangwill conta a história!
  • Aplicações: IRM histórico, espectroscopia RMN, calibração de gaussmetros.

10.4.3 Topologia de \(\psi(\mathbf{r})\)

O potencial escalar magnético pode ser multi-valorado

Se o caminho de integração de \(A\) a \(B\) encircla uma corrente \(I\), a lei de Ampère impõe:

\( \psi(A)-\psi(B) = \oint_C \mathbf{B}\cdot d\boldsymbol{\ell} = \pm\mu_0 I \)

O sinal depende se a corrente flui paralela ou anti-paralela ao polegar quando a regra da mão direita é aplicada a \(C\).

Para \(A\) e \(B\) infinitesimalmente próximos (mas em lados opostos do circuito): \(\psi(A)-\psi(B)=\pm\mu_0 I\). Portanto \(\psi\) não é função bem-definida da posição — depende do caminho!

Quando \(\psi\) é aceitável

  • \(\psi\) é univaluado quando o espaço \(V\) é simplesmente conexo — nenhum caminho pode encirclar uma corrente.
  • Mas o espaço ao redor de uma espira de corrente é duplamente conexo: caminhos existem que enlaçam a corrente.
  • Solução: inserir "superfícies barreira" que tornam \(V\) simplesmente conexo, impedindo caminhos de enlace.

10.4.3 Continuado

Superfícies barreira: tornando \(V\) simplesmente conexo

A ideia geométrica

Insere-se uma superfície aberta \(S\) (a "barreira") que é delimitada pela espira de corrente \(C\). A barreira impede que caminhos de integração em \(V\) encirclem \(C\).

Exemplos de superfície barreira:

  • Disco plano finito dentro da espira.
  • Plano que se estende ao infinito através da espira.
  • Superfície "de windsock" (comprida e curvada).

Com a barreira, \(\nabla^2\psi=0\) em \(V\setminus S\) e a condição de salto (10.59) funciona como condição de contorno em \(S\).

A condição de salto na barreira

\( \psi(A)-\psi(B) = \pm\mu_0 I \)

Os dois lados \(A\) e \(B\) infinitesimalmente acima e abaixo da barreira têm potenciais que diferem de \(\mu_0 I\). Essa descontinuidade é uma condição de contorno — análoga à carga dupla em dielétricos.

Para o caso da espira circular com a superfície barreira plana, isso reproduz a descontinuidade já vista em \(\psi(r=R)\) na Seção 10.4.1.

10.4.4 Resultado elegante

O potencial escalar via ângulo sólido

Usando a identidade vetorial (1.85) e identificando com a lei de Biot-Savart:

\( \mathbf{B}(\mathbf{r}) = \frac{\mu_0 I}{4\pi}\nabla\Omega_S(\mathbf{r}) \)

Onde \(\Omega_S(\mathbf{r})\) é o ângulo sólido subtendido pela superfície \(S\) (qualquer superfície que tenha \(C\) como bordo) no ponto de observação \(\mathbf{r}\).

\( \psi(\mathbf{r}) = -\frac{\mu_0 I}{4\pi}\,\Omega_S(\mathbf{r}) \)

O ângulo sólido \(\Omega_S\) é multi-valorado: ao atravessar \(S\), ele muda de \(4\pi\) (ciclo completo), reproduzindo o salto \(\psi\to\psi\pm\mu_0 I\).

C (espira) r (obs.) S (superfície barreira) Ω_S(r) ψ = −μ₀I/(4π) × (ângulo sólido subtendido por S)

Aplicação 10.2 — Relevância tecnológica

Blindagem ativa em tomógrafos de ressonância magnética

O problema

Tomógrafos de IRM usam ímãs supercondutores que geram campos \(\mathbf{B}\) fortes. A ressonância magnética nuclear excita prótons no corpo humano. O contraste de imagem vem de diferenças na densidade e relaxação dos prótons em tecidos diferentes.

Problema: o campo de gradiente, produzido por bobinas auxiliares, deve ser zero fora do aparelho (não interferir com outros equipamentos).

Solução: blindagem ativa — um segundo cilindro externo com corrente \(\mathbf{K}_2\) escolhida para cancelar o campo fora.

\( \hat{\boldsymbol{\rho}}\cdot(\mathbf{B}^{\rm out}-\mathbf{B}^{\rm in})=0 \)
\( \hat{\boldsymbol{\rho}}\times(\mathbf{B}^{\rm out}-\mathbf{B}^{\rm in})=\mu_0\mathcal{K} \)

A condição de campo zero para \(\rho>R_2\) fixa a relação entre as componentes de Fourier das duas correntes:

\( \mathcal{K}_{2\phi}^m = -\frac{R_1 I_m'(|\kappa|R_1)}{R_2 I_m'(|\kappa|R_2)}\,\mathcal{K}_{1\phi}^m \)

\(I_m\) = funções de Bessel modificadas. Essa relação é usada em todos os scanners de IRM comerciais modernos.

10.5 Potencial vetor \(\mathbf{A}(\mathbf{r})\)

Existência garantida por \(\nabla\cdot\mathbf{B}=0\)

Como \(\nabla\cdot\mathbf{B}=0\) em todo o espaço, o teorema de Helmholtz garante que existe \(\mathbf{A}(\mathbf{r})\) tal que:

\( \mathbf{B}(\mathbf{r}) = \nabla\times\mathbf{A}(\mathbf{r}) \)

Prova direta (Zangwill): Defina

\( A_x = \int dz\,B_y, \quad A_y = -\int dz\,B_x \)

Então \(\nabla\times\mathbf{A} = (B_x, B_y, \partial A_y/\partial x - \partial A_x/\partial y)\). O terceiro componente:

\( \hat{\mathbf{z}}\cdot\nabla\times\mathbf{A} = -\int dz\,\frac{\partial B_x}{\partial x}-\int dz\,\frac{\partial B_y}{\partial y} = \int dz\,\frac{\partial B_z}{\partial z} = B_z\;\checkmark \)

Por que \(\mathbf{A}\) é importante

  • \(\mathbf{A}\) é mais geral que \(\psi\): funciona onde quer que haja corrente (não requer \(\mathbf{j}=0\)).
  • Papel quântico: o efeito Aharonov-Bohm (1959) mostra que \(\mathbf{A}\) tem realidade física — partículas quantum detectam \(\mathbf{A}\) mesmo onde \(\mathbf{B}=0\).
  • O fluxo magnético se escreve elegantemente via \(\mathbf{A}\) (próximo slide).

Consequência imediata

Fluxo magnético como circulação de \(\mathbf{A}\)

\( \displaystyle \Phi_B = \int_S \mathbf{B}\cdot d\mathbf{S} = \int_S (\nabla\times\mathbf{A})\cdot d\mathbf{S} \)
\( \displaystyle \Phi_B = \oint_C \mathbf{A}\cdot d\boldsymbol{\ell} \)

Pelo teorema de Stokes. \(C\) é qualquer curva fechada com bordo \(S\).

Efeito Aharonov-Bohm (1959)

  • No solenoide infinito: \(\mathbf{B}=0\) fora, mas \(\mathbf{A}\neq 0\) fora.
  • Um elétron que orbita o solenoide (sem entrar no campo \(\mathbf{B}\)) detecta o fluxo \(\Phi_B = \oint\mathbf{A}\cdot d\boldsymbol{\ell}\) por interferência quântica.
  • Demonstrado experimentalmente por Chambers (1960) e confirmado definitivamente por Tonomura et al. (1986).
  • Mostra que \(\mathbf{A}\) — não \(\mathbf{B}\) — é o objeto fundamental da eletrodinâmica quântica.

10.5.1 Não-unicidade de \(\mathbf{A}\)

Transformação de calibre: \(\mathbf{A}\) não é único

Se \(\mathbf{B}=\nabla\times\mathbf{A}\) e \(\chi(\mathbf{r})\) é qualquer função escalar diferenciável, então:

\( \mathbf{A}'(\mathbf{r}) = \mathbf{A}(\mathbf{r}) + \nabla\chi(\mathbf{r}) \)

produz o mesmo campo:

\( \nabla\times\mathbf{A}' = \nabla\times\mathbf{A} + \underbrace{\nabla\times\nabla\chi}_{=0} = \mathbf{B} \quad\checkmark \)

\(\chi\) é a "função de calibre". A liberdade de escolher \(\chi\) é a invariância de calibre — uma das simetrias mais profundas da física.

Implicações práticas

  • Diferentes calibres podem facilitar diferentes cálculos.
  • Qualquer resultado físico (força, energia, \(\mathbf{B}\)) é independente de calibre.
  • Em eletrodinâmica quântica: a invariância de calibre impõe a estrutura das interações eletromagnéticas.

Escolha conveniente

Calibre de Coulomb: \(\nabla\cdot\mathbf{A}=0\)

\( \nabla\cdot\mathbf{A} = 0 \)

Se temos \(\mathbf{A}\) com \(\nabla\cdot\mathbf{A}=f\neq 0\), escolhe-se \(\chi\) tal que:

\( \nabla^2\chi = -\nabla\cdot\mathbf{A} = -f \)

Isso é equação de Poisson para \(\chi\) — sempre tem solução! Então \(\mathbf{A}'=\mathbf{A}+\nabla\chi\) satisfaz \(\nabla\cdot\mathbf{A}'=0\).

A solução da equação de Helmholtz (10.14) já é implicitamente no calibre de Coulomb, pois:

\( \nabla\cdot\left[\int d^3r'\,\frac{\mathbf{j}(\mathbf{r}')}{|\mathbf{r}-\mathbf{r}'|}\right] = \int d^3r'\,\mathbf{j}\cdot\nabla\frac{1}{|\mathbf{r}-\mathbf{r}'|} = 0 \)

Outros calibres úteis

  • Calibre de Lorenz: \(\nabla\cdot\mathbf{A}+\mu_0\epsilon_0\partial_t\varphi=0\). Relativisticamente covariante, fundamental em eletrodinâmica dinâmica (Cap. 20).
  • Calibre temporal: \(\varphi=0\). Usado em eletrodinâmica quântica.
  • Calibre radial: \(\mathbf{r}\cdot\mathbf{A}=0\). Útil em certos problemas de simetria esférica.
  • Em magnetostática estática: Coulomb é a escolha padrão.

10.5.2 Equação de Poisson vetorial

No calibre de Coulomb: \(\nabla^2\mathbf{A}=-\mu_0\mathbf{j}\)

Substituindo \(\mathbf{B}=\nabla\times\mathbf{A}\) em \(\nabla\times\mathbf{B}=\mu_0\mathbf{j}\):

\( \nabla\times(\nabla\times\mathbf{A}) = \mu_0\mathbf{j} \)

Usando \(\nabla\times(\nabla\times\mathbf{F})=\nabla(\nabla\cdot\mathbf{F})-\nabla^2\mathbf{F}\) e \(\nabla\cdot\mathbf{A}=0\):

\( \nabla^2\mathbf{A} = -\mu_0\,\mathbf{j} \)

Três equações de Poisson independentes (uma por componente cartesiana). A experiência com eletrostática se aplica diretamente!

\( \mathbf{A}(\mathbf{r}) = \frac{\mu_0}{4\pi}\int d^3r'\,\frac{\mathbf{j}(\mathbf{r}')}{|\mathbf{r}-\mathbf{r}'|} \)

Analogia com eletrostática

  • \(\nabla^2\varphi = -\rho/\epsilon_0\) \(\leftrightarrow\) \(\nabla^2\mathbf{A} = -\mu_0\mathbf{j}\)
  • Cada componente cartesiana \(A_k\) satisfaz Poisson com fonte \(\mu_0 j_k\).
  • Solução: integral de convolução com função de Green \(1/(4\pi|\mathbf{r}-\mathbf{r}'|)\).
  • Para corrente superficial: \(\mathbf{A}(\mathbf{r}) = \frac{\mu_0}{4\pi}\int dS\,\frac{\mathbf{K}(\mathbf{r}_S)}{|\mathbf{r}-\mathbf{r}_S|}\)

10.5.3 Exemplo instrutivo

Calculando \(\mathbf{A}\) e \(\mathbf{B}\) do fio infinito via potencial vetor

Fio ao longo de \(z\): por simetria, \(\mathbf{A}=A_z(\rho)\,\hat{\mathbf{z}}\).

\( A_z(\rho) = \frac{\mu_0 I}{4\pi}\int_{-\infty}^{+\infty}\frac{dz'}{\sqrt{z'^2+\rho^2}} \)

A integral diverge logaritmicamente. Limitamos a fio de comprimento \(2L\) e tomamos \(L\to\infty\):

\( A_z(\rho) \approx -\frac{\mu_0 I}{2\pi}\ln\rho + \text{const} \)

A constante diverge com \(L\), mas desaparece ao calcular \(\mathbf{B}\):

\( \mathbf{B} = \nabla\times\mathbf{A} = -\frac{\partial A_z}{\partial\rho}\,\hat{\boldsymbol{\phi}} = \frac{\mu_0 I}{2\pi\rho}\,\hat{\boldsymbol{\phi}} \quad\checkmark \)

O que aprendemos

  • O potencial vetor diverge logaritmicamente para fontes de extensão infinita — mas o campo físico \(\mathbf{B}\) converge.
  • Quando \(\mathbf{j}\) aponta na direção \(\hat{\mathbf{z}}\) (Cartesiana), então \(\mathbf{A}\) aponta em \(\hat{\mathbf{z}}\) — relação direta entre as direções de \(\mathbf{j}\) e \(\mathbf{A}\).
  • Para correntes em \(\hat{\boldsymbol{\phi}}\) (azimutais): \(\mathbf{A}\) também aponta em \(\hat{\boldsymbol{\phi}}\) (Ex. 10.6).

10.5.4 Método alternativo

Equação de duplo rotacional: \(\nabla\times(\nabla\times\mathbf{A})=\mu_0\mathbf{j}\)

\( \nabla\times(\nabla\times\mathbf{A}) = \mu_0\,\mathbf{j} \)

Antes de escolher calibre, esta é a equação fundamental. Com alta simetria, \(\mathbf{A}\) tem um único componente e ela reduz a uma EDP escalar.

Exemplo: fio cilíndrico com \(\mathbf{j}=j\hat{\mathbf{z}}\) → \(\mathbf{A}=A_z(\rho)\hat{\mathbf{z}}\):

\( \frac{1}{\rho}\frac{d}{d\rho}\!\left(\rho\frac{dA_z}{d\rho}\right)=-\mu_0 j \)

Espira de corrente: \(\mathbf{j}=I\delta(\rho-R)\delta(z)\hat{\boldsymbol{\phi}}\) → \(\mathbf{A}=A_\phi(\rho,z)\hat{\boldsymbol{\phi}}\) satisfaz equação de Bessel em \(\rho\) com solução em \(J_1(k\rho)\).

Vantagem do duplo rotacional

  • Quando a simetria fixa que \(\mathbf{A}\) tem um único componente, a equação do duplo rotacional pode ser mais fácil que a integral de Poisson.
  • Evita calcular a integral divergente \(\int dz'/\sqrt{z'^2+\rho^2}\).
  • Condições de contorno na superfície de corrente \(z=0\): salto de \(\partial A/\partial z\) determina os coeficientes da expansão em Bessel.
  • Resultado para espira (Ex. 10.6): \(\mathbf{A}(\rho,z)=\hat{\boldsymbol{\phi}}\frac{1}{2}\mu_0 IR\int_0^\infty dk\,J_1(k\rho)J_1(kR)e^{-k|z|}\)

10.6 Topologia

Linhas de \(\mathbf{B}\): geralmente não fecham em si mesmas

A condição \(\nabla\cdot\mathbf{B}=0\) implica que linhas de campo não começam nem terminam — mas não implica que fecham!

Exemplo: Espira circular de corrente + fio retilíneo perpendicular (Fig. 10.19).

  • A espira produz campo \(\mathbf{B}_1\): linhas circulam em torno da espira — fechadas em círculos no plano da espira.
  • O fio produz \(\mathbf{B}_2\): linhas azimutais em torno do fio.
  • Linhas de \(\mathbf{B}_1+\mathbf{B}_2\): tangentes ao torus formado pela espira, mas com componente axial → espirais helicoidais.
  • Essas linhas fecham somente para razões racionais \(I_{\rm fio}/I_{\rm espira}\). Genericamente, nunca fecham!
espiral helicoidal no torus fecha ⟺ I_fio/I_espira racional I_fio Adaptado de Fig. 10.19 (McDonald 1954)

10.6.1 Mudança de topologia

Reconexão magnética: topologia muda no ponto nulo

O que é reconexão?

A topologia de linhas de \(\mathbf{B}\) estáticas é fixada para sempre — em um campo estático, as linhas não podem se romper e reconectar.

Em situações quase-estáticas (as fontes mudam lentamente): a topologia muda quando as fontes se movem para uma configuração onde \(\mathbf{B}=0\) em algum ponto — o ponto nulo.

Nesse ponto, a conectividade das linhas de campo pode mudar abruptamente — duas linhas previamente desconectadas podem se juntar, e duas conectadas podem se separar.

Onde reconexão ocorre na natureza

  • Ímãs em ferradura: a separação crítica entre dois ímãs cria um ponto nulo onde \(\mathbf{B}=0\) — a topologia muda de duas regiões independentes para uma conectada.
  • Campo magnético interplanetário (IMF): reconexão ocorre quando o vento solar interage com o campo da Terra — causa tempestades geomagnéticas e auroras.
  • Tokamaks e fusão nuclear: instabilidades de reconexão (modos de tearing) são uma causa de perda de confinamento do plasma.
  • Prominências e flares solares: liberação catastrófica de energia quando linhas de campo reconectam.

Aplicação 10.3 — Caos magnético

Linhas de campo como trajetórias hamiltonianas

Considere o campo (Zangwill eq. 10.86):

\( \mathbf{B}(\mathbf{r}) = B_0\hat{\mathbf{z}} + \hat{\mathbf{z}}\times\nabla f(\mathbf{r}) \)

Satisfaz \(\nabla\cdot\mathbf{B}=0\) por construção. As equações das linhas de campo \(ds\,\lambda = d\mathbf{s}\) se escrevem:

\( \frac{dx}{dz} = \frac{1}{B_0}\frac{\partial f}{\partial y}, \quad \frac{dy}{dz} = -\frac{1}{B_0}\frac{\partial f}{\partial x} \)

Identificando \(x=q\), \(y=p\), \(z=t\) e \(H=-f/B_0\):

\( \dot{q}=\partial H/\partial p, \quad \dot{p}=-\partial H/\partial q \)

Equações de Hamilton! As linhas de campo são as trajetórias de um sistema dinâmico.

Consequência: caos magnético

  • A maioria dos Hamiltonianos é não-integrável (teorema KAM).
  • Para \(f(\mathbf{r})\) genérico: as linhas de campo preenchem ergodicamente regiões do espaço — são caóticas.
  • O espaço de fase \((x,y)\) da trajetória é o espaço real da linha de campo.
  • Seções de Poincaré: ferramenta para visualizar o caos das linhas de campo.
  • Relevante para: confinamento em tokamaks, campos magnéticos no núcleo da Terra, campo solar.

Exemplo 10.7 — Medida topológica

Helicidade magnética: \(h=\int d^3r\,\mathbf{A}\cdot\mathbf{B}\)

\( h = \int_V d^3r\;\mathbf{A}(\mathbf{r})\cdot\mathbf{B}(\mathbf{r}) \)

A helicidade é uma medida topológica do entrelaçamento entre tubos de fluxo magnético.

Tubo de fluxo: conjunto de linhas de campo com o mesmo fluxo \(\Phi = \int\mathbf{B}\cdot d\mathbf{S}\) passando por qualquer seção transversal.

Dois tubos não entrelaçados: \(h = 0\)
Dois tubos entrelaçados \(n\) vezes: \(h = \pm 2n\Phi_1\Phi_2\)

Por que helicidade importa

  • Conservação: em MHD ideal (condutividade perfeita), \(h\) é rigorosamente conservada — as linhas de campo não podem se reconectar.
  • Física solar: helicidade é injetada no campo solar pela rotação diferencial. Quando suficiente helicidade se acumula, ejeções de massa coronal (CMEs) expulsam o campo para conservar \(h\).
  • Dínamos: o mecanismo de dínamo que sustenta o campo da Terra envolve geração de helicidade.
  • Análogo em hidrodinâmica: helicidade de vórtice \(\int\mathbf{v}\cdot(\nabla\times\mathbf{v})\,d^3r\).

Síntese operacional

Quatro ferramentas para encontrar \(\mathbf{B}\)

1. Biot-Savart

Geometria arbitrária, sem simetria especial. Cálculo direto por integral. Use quando: geometria finita, ponto específico, superposição explícita.

2. Lei de Ampère

Alta simetria (cilíndrica, planar, toroidal). Escolhe curva onde \(B\) é constante → vira álgebra. Use quando: muito mais eficiente que Biot-Savart.

3. Potencial vetor \(\mathbf{A}\)

Mais geral. Resolve \(\nabla^2\mathbf{A}=-\mu_0\mathbf{j}\) (Poisson vetorial) no calibre de Coulomb. Use quando: correntes em volume, resultado preciso.

4. Potencial escalar \(\psi\)

Onde \(\mathbf{j}=0\): resolve \(\nabla^2\psi=0\) (Laplace). Toda a maquinaria do Cap. 7 disponível. Use quando: correntes confinadas a superfícies.

Verificação sempre: direção pela regra da mão direita · unidade: tesla · limites: \(\rho\to 0\), \(\rho\to\infty\), dentro, fora.

Fechamento

O coração do Capítulo 10 em seis equações

\( \nabla\cdot\mathbf{B}=0 \;\Rightarrow\; \text{sem monopolos, linhas fechadas} \)
\( \nabla\times\mathbf{B}=\mu_0\mathbf{j} \;\Rightarrow\; \text{correntes enrolam o campo} \)
\( \oint\mathbf{B}\cdot d\boldsymbol{\ell}=\mu_0 I_C \;\Rightarrow\; \text{simetria resolve} \)
\( \mathbf{B}=-\nabla\psi\;(\mathbf{j}=0) \;\Rightarrow\; \nabla^2\psi=0\;\text{(Laplace)} \)
\( \mathbf{B}=\nabla\times\mathbf{A} \;\Rightarrow\; \nabla^2\mathbf{A}=-\mu_0\mathbf{j}\;\text{(Poisson)} \)
\( \Phi_B=\oint\mathbf{A}\cdot d\boldsymbol{\ell} \;\Rightarrow\; \text{efeito Aharonov-Bohm} \)

Mensagem para levar

Magnetostática é uma teoria de circulação: sem fontes escalares de \(\mathbf{B}\), mas com correntes que enrolam o campo ao redor de si. As linhas de campo podem ser complexas topologicamente — não fecham em geral, podem ser caóticas, e podem reconectar quando a topologia muda.

O potencial vetor \(\mathbf{A}\) tem realidade física própria (Aharonov-Bohm) e é o objeto fundamental de toda a eletrodinâmica — clássica e quântica.

Fontes e créditos

Referências

Base conceitual

  • Zangwill, A. Modern Electrodynamics. Cambridge University Press, 2012. Cap. 10 (pp. 301–335): Seções 10.1–10.6.
  • Peshkin, M. & Tonomura, A. The Aharonov-Bohm Effect. Lecture Notes in Physics 340. Springer, 1989.
  • McDonald, K. T. (1954). Figura 10.19: linha de corrente threading um anel.
  • Texto dos slides: elaboração autoral para aula de pós-graduação, UDESC.

Retratos históricos

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