Zangwill, Capítulo 6

Matéria Dielétrica

Polarização, campo auxiliar, energia e forças: a eletrostática dentro da matéria.

Prof. Dr. Rafael Camargo Rodrigues de Lima

"If we develop only a macroscopic description of matter in an electric field, we shall find it hard to answer some rather obvious sounding questions."
E. M. Purcell, Electricity and Magnetism (1965)

A razão: a matéria é feita de cargas. A descrição macroscópica esconde toda a física microscópica que determina como ela responde a um campo elétrico externo. O Capítulo 6 constrói essa ponte.

Mapa do capítulo

Oito seções

Construindo a teoria

Quatro séculos de eletrostática em matéria

F 1791 – 1867
Faraday (1837): insere diferentes materiais entre as placas de um capacitor e mede a variação da capacitância — define a constante dielétrica \(\kappa\). A unidade SI de capacitância leva seu nome.
M C 1850 / 1879
Mossotti (1850) e Clausius (1879): relacionam \(\kappa\) macroscópico à polarizabilidade molecular \(\alpha\) microscópica — a fórmula de Clausius-Mossotti, redescoberta independentemente pelos dois.
M 1831 – 1879
Maxwell (1864): incorpora a matéria polarizada nas equações de campo com o campo auxiliar \(\mathbf{D}=\epsilon_0\mathbf{E}+\mathbf{P}\). Unifica eletricidade, magnetismo e ótica.
L 1853 – 1928
Lorentz (1902): desenvolve o modelo do campo local que corrige a fórmula ingênua \(\kappa=1+n\alpha\), levando à relação de Clausius-Mossotti \((\kappa-1)/(\kappa+2)=n\alpha/3\).

6.1 Introdução

O que é um dielétrico?

Definição operacional

Um dielétrico é um meio que não consegue excluir completamente um campo elétrico estático macroscópico de seu interior.

\( \mathbf{E}_{\rm tot}(\mathbf{r}) = \mathbf{E}_{\rm ext}(\mathbf{r}) + \mathbf{E}_{\rm self}(\mathbf{r}) \neq 0 \quad (6.1)\)

A blindagem incompleta origina-se em ligações químicas e efeitos quânticos que restringem o rearranjo das cargas internas. A matéria mantém sua neutralidade local mas adquire uma estrutura de dipolo induzido.

Origem física

  • Em um condutor perfeito: cargas livres se rearanjam livremente e o campo interno se anula.
  • Em um dielétrico: cargas estão ligadas a átomos e moléculas; podem deslocar-se apenas uma fração de ângstrom.
  • Resultado: o campo interno é reduzido, mas não eliminado.
  • Surgem cargas de polarização — redistribuição interna de carga que age sobre o campo externo.

Comparação fundamental

Condutor versus dielétrico

Condutor perfeito

  • Cargas livres se rearanjam sem barreira macroscópica.
  • O campo interno estático é nulo: \(E_{\rm in}=0\).
  • A carga excedente fica na superfície.
\( \mathbf{E}_{\rm in} = 0 \)

Dielétrico

  • Cargas deslocam-se apenas um pouco.
  • O campo interno é reduzido, mas não eliminado.
  • Surgem cargas de polarização.
\( \mathbf{E}_{\rm in} \neq 0 \)

Ideia de continuidade: a constante dielétrica \(\kappa\equiv\epsilon/\epsilon_0\) interpola entre os dois casos. O limite \(\kappa\to\infty\) reproduz um condutor perfeito — um condutor é um caso especial extremo de dielétrico.

6.1 Continuidade

O limite \(\kappa\to\infty\): condutor como caso especial

\( \kappa\to\infty \;\Rightarrow\; \mathbf{E}_{\rm in}\to 0\)
\( \mathbf{D}_{\rm in} = \kappa\epsilon_0\mathbf{E}_{\rm in} = \text{finito}\)

Quando \(\kappa\) cresce muito, o campo macroscópico no interior se anula — exatamente o comportamento de um condutor perfeito.

Uso prático: qualquer fórmula derivada para um dielétrico simples deve, no limite \(\kappa\to\infty\), reproduzir o resultado correspondente para um condutor perfeito. Esse é um teste de consistência poderoso.

Cuidado: o limite pode ser singular quando há carga livre em contato direto com o dielétrico. Nesse caso, \(\kappa\to\infty\) não equivale simplesmente a um condutor.

κ E_in E_vac / κ = E_in E = 0 (condutor) campo interno cai como 1/κ e vai a zero

6.2 Polarização

Carga livre e carga de polarização

O campo externo é produzido por cargas que não pertencem ao dielétrico — as cargas livres. A carga que entra nas equações de Maxwell é a soma:

\( \rho(\mathbf{r}) = \rho_f(\mathbf{r}) + \rho_P(\mathbf{r}) \quad (6.2)\)
  • \(\rho_f\): carga livre, colocada ou controlada externamente.
  • \(\rho_P\): carga de polarização, induzida dentro do material.

\(\rho_P\) é a carga macroscópica que aparece porque cargas positivas e negativas se deslocam levemente em sentidos opostos.

dielétrico E_ext (carga livre) −−− +++ ρ_P surge nas bordas: campo interno deslocou as cargas

6.2.1 Definição de P

A função polarização \(\mathbf{P}(\mathbf{r})\)

Para uma amostra neutra de volume \(V\) e superfície \(S\), a carga de polarização total deve ser zero:

\( \int_V d^3r\,\rho_P + \int_S dS\,\sigma_P = 0 \quad (6.3)\)

Zangwill define \(\mathbf{P}(\mathbf{r})\) por:

\( \rho_P(\mathbf{r}) = -\nabla\cdot\mathbf{P}(\mathbf{r}), \quad \mathbf{r}\in V \quad (6.4)\)
\( \sigma_P(\mathbf{r}_S) = \mathbf{P}(\mathbf{r}_S)\cdot\hat{\mathbf{n}}(\mathbf{r}_S), \quad \mathbf{r}_S\in S \quad (6.5)\)
\( \mathbf{P}(\mathbf{r}) = 0, \quad \mathbf{r}\notin V \quad (6.6)\)

O que \(\mathbf{P}\) não é

  • As equações (6.4)–(6.6) não determinam \(\mathbf{P}\) univocamente — o teorema de Helmholtz exige também especificar \(\nabla\times\mathbf{P}\) dentro de \(V\).
  • \(\mathbf{P}\) não é simplesmente o "momento de dipolo por volume" de moléculas individuais — essa identificação falha em sólidos covalentes e iônicos.
  • O que é invariante: o potencial eletrostático produzido pelo dielétrico. Esse é determinado apenas por \(\rho_P\) e \(\sigma_P\), independente da ambiguidade em \(\mathbf{P}\).

6.2 Verificação

Por que essas definições garantem neutralidade?

Substituindo \(\rho_P=-\nabla\cdot\mathbf{P}\) e \(\sigma_P=\mathbf{P}\cdot\hat{\mathbf{n}}\):

\( Q_P = \int_V d^3r\,\rho_P + \int_S dS\,\sigma_P\)
\( = -\int_V d^3r\,\nabla\cdot\mathbf{P} + \int_S dS\,\mathbf{P}\cdot\hat{\mathbf{n}}\)

Pelo teorema da divergência:

\( \int_V d^3r\,\nabla\cdot\mathbf{P} = \int_S dS\,\mathbf{P}\cdot\hat{\mathbf{n}}\)
\( Q_P = 0 \quad \checkmark\)

Interpretação

A polarização transforma uma redistribuição interna de carga em uma combinação consistente de carga de volume e carga de superfície.

Intuitivamente: se \(\mathbf{P}\) é uniforme, cargas internas vizinhas se compensam; carga líquida só aparece onde a polarização termina, i.e., na superfície.

Se \(\mathbf{P}\) varia no interior: divergência não-nula cria \(\rho_P=-\nabla\cdot\mathbf{P}\neq 0\) dentro do volume também.

Visualização

Origem física de \(\rho_P\) e \(\sigma_P\)

P → + + + σ_P < 0 σ_P > 0 dielétrico polarizado uniformemente ρ_P = −∇·P = 0 (P uniforme); σ_P ≠ 0 nas bordas

P uniforme: só superfície

Se \(\mathbf{P}\) é uniforme, \(\rho_P=-\nabla\cdot\mathbf{P}=0\) em todo o volume. Cargas internas de cada dipolo cancelam as do dipolo vizinho. Só resta \(\sigma_P=\mathbf{P}\cdot\hat{\mathbf{n}}\) na superfície.

P não-uniforme: volume também

Se \(\mathbf{P}\) varia, os dipolos vizinhos não se cancelam completamente. A divergência negativa de \(\mathbf{P}\) deixa um excesso de carga positiva, e vice-versa.

\( \rho_P = -\nabla\cdot\mathbf{P} \quad \sigma_P = \mathbf{P}\cdot\hat{\mathbf{n}} \)

6.2.1 Resultado elegante

A integral de volume de \(\mathbf{P}\) é o momento de dipolo total

Usando a identidade \(\nabla\cdot(r_k\mathbf{P})=P_k+r_k\nabla\cdot\mathbf{P}\), para cada componente cartesiana \(k\):

\( P_k = \nabla\cdot(r_k\mathbf{P}) - r_k\nabla\cdot\mathbf{P} \quad (6.7)\)

Integrando sobre \(V\) e usando o teorema da divergência + \(\rho_P = -\nabla\cdot\mathbf{P}\):

\( \int_V d^3r\,P_k = \int_S dS\,r_k\sigma_P + \int_V d^3r\,r_k\rho_P \quad (6.8)\)
\( \int_V d^3r\,\mathbf{P}(\mathbf{r}) = \mathbf{p} \quad (6.9)\)

O lado direito é exatamente o momento de dipolo total da amostra.

Interpretação cuidadosa

  • É tentador dizer que \(\mathbf{P}\) é o "momento de dipolo por unidade de volume". Isso é útil, mas não é uma definição microscópica universal.
  • Em sólidos reais, \(\mathbf{P}\) não é simplesmente a soma de dipolos moleculares localizados — ela depende de correntes de polarização e da estrutura quântica do estado eletrônico.
  • O que (6.9) garante: a integral macroscópica de \(\mathbf{P}\) sempre coincide com o momento de dipolo total (que é mensurável).

6.2.2 Modelo microscópico

O modelo de Lorentz (1902) — e suas limitações

Lorentz escolhe uma pequena célula microscópica \(\Omega\) centrada no ponto macroscópico \(\mathbf{r}\):

\( \mathbf{P}(\mathbf{r}) = \frac{1}{\Omega}\int_\Omega d^3s\,\mathbf{s}\,\rho_{\rm micro}(\mathbf{s}) = \frac{\mathbf{p}(\mathbf{r})}{\Omega} \quad (6.10)\)

A teoria moderna corrige isso usando a corrente de polarização integrada no tempo:

\( \mathbf{P}(\mathbf{R}) = \frac{1}{\Omega}\int_\Omega d^3s\int_{-\infty}^t dt'\,\mathbf{j}_{P,{\rm micro}}(\mathbf{s},t') \quad (6.11)\)

Quando funciona bem?

Gases, líquidos não polares e sólidos moleculares fracamente ligados. A célula \(\Omega\) é bem definida porque os átomos estão bem separados.

Quando falha?

Em dielétricos covalentes (Si, Ge) ou iônicos (NaCl, NaBr): a escolha da célula \(\Omega\) pode mudar o resultado — até mudar de sinal! Correntes entre células dominam a polarização real.

6.2.3 Anos 1990

A teoria moderna da polarização

Ideia essencial

A polarização macroscópica pode ser calculada por uma média temporal de correntes de polarização:

\( \mathbf{P}(\mathbf{R}) = \frac{1}{\Omega}\int_{-\infty}^{t}dt'\int_\Omega d^3s\,\mathbf{j}_{P,{\rm micro}}(\mathbf{s},t') \)

\(\mathbf{P}\) mede "quanto carregamento atravessou" uma célula ao ligar adiabaticamente o campo, não apenas onde a carga ficou no final.

O que isso muda?

  • \(\mathbf{P}\) contém informação de fase: a estrutura quântica da função de onda determina \(\mathbf{P}\), não apenas a densidade de carga.
  • A polarização macroscópica \(\mathbf{P}\) é bem definida e não ambígua — mesmo que o modelo de Lorentz falhe.
  • O potencial eletrostático produzido pelo dielétrico é rigorosamente idêntico ao de uma distribuição contínua de dipolos com densidade \(\mathbf{P}(\mathbf{r})\) — independente da ambiguidade microscópica.
  • Essa teoria (Berry, King-Smith, Vanderbilt, 1990s) é a base do cálculo moderno de propriedades dielétricas por primeiros princípios.

6.3 Campo de matéria polarizada

O potencial e o campo produzidos por \(\mathbf{P}(\mathbf{r})\) dada

Dada \(\mathbf{P}(\mathbf{r})\), as fontes do campo são \(\rho_P=-\nabla\cdot\mathbf{P}\) e \(\sigma_P=\mathbf{P}\cdot\hat{\mathbf{n}}\). O potencial é:

\( \varphi_P(\mathbf{r}) = \frac{1}{4\pi\epsilon_0}\int_V d^3r'\frac{-\nabla'\cdot\mathbf{P}}{|\mathbf{r}-\mathbf{r}'|} + \frac{1}{4\pi\epsilon_0}\int_S dS'\frac{\mathbf{P}\cdot\hat{\mathbf{n}}'}{|\mathbf{r}-\mathbf{r}'|} \quad (6.12)\)

O campo é \(\mathbf{E}_P=-\nabla\varphi_P\):

\( \mathbf{E}_P(\mathbf{r}) = \frac{1}{4\pi\epsilon_0}\int_V d^3r'\frac{[-\nabla'\cdot\mathbf{P}(\mathbf{r}')](\mathbf{r}-\mathbf{r}')}{|\mathbf{r}-\mathbf{r}'|^3} + \frac{1}{4\pi\epsilon_0}\int_S dS'\frac{[\mathbf{P}\cdot\hat{\mathbf{n}}'](\mathbf{r}-\mathbf{r}')}{|\mathbf{r}-\mathbf{r}'|^3}\quad(6.13)\)

Ponto técnico importante

A forma (6.13) é bem comportada mesmo para pontos de observação dentro do material — ao contrário da representação de dipolos pontuais, que diverge no interior. Use sempre (6.13) para campos interiores.

Para matéria uniformemente polarizada (\(\nabla\cdot\mathbf{P}=0\)), só a integral de superfície sobrevive, e a fórmula de Poisson simplifica o cálculo.

6.3 P uniforme

Fórmula de Poisson: \(\mathbf{E}_P = -(\mathbf{P}\cdot\nabla)\mathbf{E}_1\)

Se \(\mathbf{P}\) é uniforme: \(\nabla\cdot\mathbf{P}=0\). Só resta a integral de superfície. Usando o teorema da divergência com \(F(\mathbf{r}')=|\mathbf{r}-\mathbf{r}'|^{-1}\):

\( \mathbf{E}_P(\mathbf{r}) = \mathbf{P}\cdot\nabla'\left[\frac{1}{4\pi\epsilon_0}\int_V d^3r'\frac{\mathbf{r}-\mathbf{r}'}{|\mathbf{r}-\mathbf{r}'|^3}\right] \)

Definindo \(\mathbf{E}_1(\mathbf{r})\) como o campo do mesmo corpo preenchido com densidade \(\rho=1\):

\( \mathbf{E}_P(\mathbf{r}) = -(\mathbf{P}\cdot\nabla)\mathbf{E}_1(\mathbf{r}) \quad (6.15)\)

Poderoso: \(\mathbf{E}_1\) pode ser calculado uma vez e reutilizado para qualquer direção de \(\mathbf{P}\).

Como usar a fórmula

  • Calcular \(\mathbf{E}_1\) = campo elétrico do mesmo objeto com \(\rho=1\) uniforme (problema de Gauss).
  • Aplicar \(\mathbf{E}_P = -(\mathbf{P}\cdot\nabla)\mathbf{E}_1\).
  • Para uma esfera de raio \(R\): \(\mathbf{E}_1(r) = \begin{cases}\mathbf{r}/3\epsilon_0 & r < R \\ V\mathbf{r}/4\pi\epsilon_0 r^3 & r > R\end{cases}\)

Aplicação 6.1 — Dois métodos

Esfera uniformemente polarizada: campo completo

Método I (fórmula de Poisson): Com \(\nabla_i r_j = \delta_{ij}\):

\( \mathbf{E}_P(r<R) = -(\mathbf{P}\cdot\nabla)\frac{\mathbf{r}}{3\epsilon_0} = -\frac{\mathbf{P}}{3\epsilon_0}\)
\( \mathbf{E}_P(r>R) = -(\mathbf{P}\cdot\nabla)\frac{V\mathbf{r}}{4\pi\epsilon_0 r^3} = \frac{V}{4\pi\epsilon_0}\frac{3(\mathbf{P}\cdot\hat{\mathbf{r}})\hat{\mathbf{r}}-\mathbf{P}}{r^3}\)

Método II (carga superficial): \(\mathbf{P}=P\hat{\mathbf{z}}\) → \(\sigma_P=\mathbf{P}\cdot\hat{\mathbf{r}}=P\cos\theta\). Isso é exatamente a distribuição do Cap. 4 → mesmo resultado.

uniforme E = −P/3ε₀ fora: dipolo p = VP dentro: campo uniforme antiparalelo a P P

Aplicação 6.1 — Resultado

Campo da esfera: resultado completo (6.17)

\( \mathbf{E}_P(\mathbf{r}) = \begin{cases} -\dfrac{\mathbf{P}}{3\epsilon_0}, & r < R\\[10pt] \dfrac{V}{4\pi\epsilon_0}\dfrac{3(\mathbf{P}\cdot\hat{\mathbf{r}})\hat{\mathbf{r}}-\mathbf{P}}{r^3}, & r > R \end{cases} \quad (6.17)\)

Leitura física

  • Dentro: campo uniforme, antiparalelo a \(\mathbf{P}\). O campo de polarização se opõe ao campo aplicado (comportamento dielétrico).
  • Fora: campo de dipolo puro com \(\mathbf{p}=V\mathbf{P}\).
  • O campo é descontínuo em \(r=R\), como esperado de uma camada de carga superficial \(\sigma_P=P\cos\theta\).

Exemplo 6.1: dipolo em esfera dielétrica

Um dipolo \(\mathbf{p}_0\) no centro de uma esfera com constante dielétrica \(\kappa\) (raio \(R\)) e meio externo vácuo. O dielétrico blindam o dipolo:

\( \mathbf{p}_{\rm tot} = \frac{3}{2+\kappa}\,\mathbf{p}_0 \)

Como \(\kappa\geq 1\), o momento efetivo é reduzido: \(\mathbf{p}_{\rm tot}\leq\mathbf{p}_0\). O dielétrico envolve o dipolo com carga de polarização de sinal oposto.

6.3.1 Resultado fundamental

Matéria polarizada é eletrostaticamente equivalente a dipolos

Convertendo a integral de superfície em (6.12) via teorema da divergência:

\( \varphi_P(\mathbf{r}) = \frac{1}{4\pi\epsilon_0}\int_V d^3r'\,\mathbf{P}(\mathbf{r}')\cdot\nabla'\frac{1}{|\mathbf{r}-\mathbf{r}'|} \quad (6.22)\)

Compare com o potencial de um dipolo pontual \(\mathbf{p}\) em \(\mathbf{r}'\):

\( \varphi_{\rm dip}(\mathbf{r}) = \frac{1}{4\pi\epsilon_0}\,\mathbf{p}\cdot\nabla'\frac{1}{|\mathbf{r}-\mathbf{r}'|}\)

Conclusão

Matéria polarizada é eletrostaticamente equivalente a uma distribuição contínua de dipolos pontuais com densidade \(d\mathbf{p}=\mathbf{P}\,d^3r\).

Por que isso é válido mesmo que Lorentz seja errado?

  • A equivalência (6.22) é matemática, não física: qualquer par (\(\rho_P,\sigma_P\)) que obedece (6.4)–(6.5) produz o mesmo \(\varphi_P\) independente do modelo microscópico.
  • O potencial \(\varphi_P\) é a quantidade mensurável.
  • A representação de dipolos contínuos é uma construção auxiliar conveniente, não uma afirmação sobre moléculas individuais.
  • Cuidado com o campo interior: a soma de dipolo \(\mathbf{E}^L_P\) diverge em pontos interiores — use sempre (6.13).

Appl. 6.1 — Método alternativo

Esfera polarizada: segundo método via carga superficial \(\sigma_P\)

Com \(\mathbf{P}=P\hat{\mathbf{z}}\): a carga superficial de polarização é:

\( \sigma_P = \mathbf{P}\cdot\hat{\mathbf{r}} = P\cos\theta \quad (6.18)\)

Essa é exatamente a distribuição \(\sigma(\theta)=\sigma_0\cos\theta\) do Cap. 4. O potencial:

\( \varphi_P(r,\theta)=\frac{P}{3\epsilon_0}\begin{cases}z, & r<R\\ R^3\cos\theta/r^2, & r>R\end{cases}\quad(6.19)\)

O campo elétrico \(\mathbf{E}_P=-\nabla\varphi_P\) reproduz exatamente (6.17). Os dois métodos são equivalentes.

Conexão com multipolos

  • \(\sigma_P=P\cos\theta\) é proporcional a \(Y_1^0(\theta)\), o harmônico esférico de dipolo.
  • Por ortogonalidade: só o termo \(\ell=1\) sobrevive na expansão multipolar.
  • Isso garante que o campo externo é puramente dipolâr — sem contribuições de ordem superior.
  • Para uma polarização não-uniforme, ordens superiores aparecem naturalmente.

6.4 Campo total e campo auxiliar D

Lei de Gauss em matéria

A carga total é a soma de livre e de polarização: \(\rho=\rho_f+\rho_P\). Usando \(\rho_P=-\nabla\cdot\mathbf{P}\):

\( \epsilon_0\nabla\cdot\mathbf{E} = \rho_f - \nabla\cdot\mathbf{P} \quad (6.24)\)

Reorganizando:

\( \nabla\cdot(\epsilon_0\mathbf{E}+\mathbf{P}) = \rho_f \)

Define-se o campo de deslocamento:

\( \mathbf{D}(\mathbf{r}) \equiv \epsilon_0\mathbf{E}(\mathbf{r}) + \mathbf{P}(\mathbf{r}) \quad (6.25)\)

Intuição para D

  • \(\mathbf{D}\) foi introduzido para que sua divergência seja determinada apenas pela carga livre (controlável externamente).
  • Não confundir: \(\mathbf{D}\) não é "o campo em matéria". Ele é uma combinação de \(\epsilon_0\mathbf{E}\) e \(\mathbf{P}\), conveniente mas não fundamental.
  • O campo físico é sempre \(\mathbf{E}\) — é ele que exerce força sobre cargas de teste.

Exercício

Exercício 6.8 — E e D em dielétricos anulares

(a) Considere a região entre duas cascas esféricas concêntricas de raios \(a\) e \(b\), preenchida por matéria com polarização uniforme \(\mathbf{P}=P\hat{\mathbf{r}}\). Encontre \(\mathbf{E}(\mathbf{r})\) em todo o espaço.

(b) Agora considere todo o interior de uma esfera de raio \(R\) preenchido por matéria polarizada com

\(\displaystyle \mathbf{P}(\mathbf{r}) = \frac{P}{r^2}\,\hat{\mathbf{r}}.\)

Encontre \(\mathbf{D}(\mathbf{r})\) em todo o espaço.

Este exercício força a separar o campo produzido por cargas de polarização do campo auxiliar \(\mathbf{D}=\epsilon_0\mathbf{E}+\mathbf{P}\).

6.4.1 O sistema completo

Equações de Maxwell em matéria dielétrica

\( \nabla\times\mathbf{E} = 0 \quad (6.26)\)
\( \nabla\cdot\mathbf{D} = \rho_f \quad (6.27)\)
\( \nabla\times\mathbf{D} = \nabla\times\mathbf{P} \quad (6.28)\)
\( \oint_S d\mathbf{S}\cdot\mathbf{D} = Q_f \quad (6.29)\)

A equação (6.28) mostra que variações espaciais de \(\mathbf{P}\) contribuem para o rotacional de \(\mathbf{D}\). Esta equação é frequentemente esquecida!

Cuidado com ∇×D

Em geral, \(\nabla\times\mathbf{D}=\nabla\times\mathbf{P}\neq 0\)! Apenas para dielétrico simples homogêneo (constante em regiões), \(\nabla\times\mathbf{P}=\epsilon_0(\kappa-1)\nabla\times\mathbf{E}=0\).

O campo \(\mathbf{D}\) tem tanto fontes (\(\rho_f\)) quanto rotacional (\(\nabla\times\mathbf{P}\)) — não é irrotacional em geral.

Utilidade de (6.29)

Quando a simetria é boa, (6.29) calcula \(\mathbf{D}\) diretamente da carga livre, sem conhecer \(\mathbf{P}\) ou \(\mathbf{E}\) a priori. Análogo à lei de Gauss para \(\mathbf{E}\) no vácuo.

6.4.2 Na interface

Condições de contorno para \(\mathbf{D}\) e \(\mathbf{E}\)

Na interface entre dois meios com densidade superficial de carga livre \(\sigma_f\):

\( \hat{\mathbf{n}}_2\cdot(\mathbf{D}_1-\mathbf{D}_2)=\sigma_f \quad (6.31)\)
\( \hat{\mathbf{n}}_2\times(\mathbf{D}_1-\mathbf{D}_2)=\hat{\mathbf{n}}_2\times(\mathbf{P}_1-\mathbf{P}_2) \quad (6.32)\)
\( \hat{\mathbf{n}}_2\times(\mathbf{E}_1-\mathbf{E}_2)=0 \quad (6.33)\)

(6.33): componente tangencial de \(\mathbf{E}\) é sempre contínua — segue de \(\nabla\times\mathbf{E}=0\).

Resumo das condições

  • Normal de D: salta por \(\sigma_f\) (análogo a \(\mathbf{E}\) no vácuo).
  • Tangencial de E: sempre contínua.
  • Tangencial de D: salta por \(\hat{\mathbf{n}}\times(\mathbf{P}_1-\mathbf{P}_2)\) — uma condição muitas vezes ignorada.
  • Sem carga livre (\(\sigma_f=0\)): normal de \(\mathbf{D}\) é contínua; tangencial de \(\mathbf{E}\) é contínua — mas tangencial de \(\mathbf{D}\) pode ser descontínua.

6.4.3 Fechando o sistema

Relações constitutivas: relacionando P a E

O sistema (6.26)–(6.28) tem mais incógnitas que equações. Precisamos de uma relação entre \(\mathbf{P}\) e \(\mathbf{E}\). A expansão fenomenológica mais geral:

\( P_i = \epsilon_0\chi_{ij}E_j + \epsilon_0\chi^{(2)}_{ijk}E_jE_k + \cdots \quad (6.34)\)
  • Tensor \(\chi_{ij}\): resposta linear; permite anisotropia (cristais).
  • Termos quadráticos: óptica não-linear, campos intensos.
  • Ferroelétricos: \(\mathbf{P}\neq 0\) mesmo com \(\mathbf{E}=0\) (não coberto aqui).

Neste capítulo, o caso mais importante: dielétrico simples — linear, isotrópico e homogêneo por regiões.

Exemplos de anisotropia

  • Cristal uniaxial (quartzo, calcita): \(\kappa\) diferente ao longo do eixo óptico.
  • Cristal biaxial: três valores principais de \(\kappa\).
  • Anisotropia → birrefringência, que é a base de óculos polarizados e displays LCD.
  • Para fluidos e gases (desordem orientacional): mesmo um material anisotropicamente polarizável aparece como isotrópico macroscópico.

6.4.3 Continuado

Tabela de constantes dielétricas experimentais

Valores experimentais de \(\kappa\) a 20°C, 10⁵ Pa

Material\(\kappa\)Tipo
Hélio (He)1.000065gás nobre, não polar
Nitrogênio (N₂)1.00055gás molecular, não polar
Metano (CH₄)1.7molecular, não polar
Sílica (SiO₂)4.5iônico covalente
Silício (Si)11.8covalente
Água (H₂O)80polar, ligações H

Por que H₂O tem κ = 80?

  • A molécula de água tem um momento de dipolo permanente \(p_0\approx 1.85\) D.
  • Sem campo: dipolos apontam aleatoriamente (campo térmico desorienta).
  • Com campo: dipolos se alinham parcialmente — contribuição gigantesca à polarização.
  • O modelo de Clausius-Mossotti falha para H₂O. O modelo de Onsager (1936) — com campo de cavidade — funciona melhor.

6.5 Matéria dielétrica simples

Dielétrico simples: linear, isotrópico, homogêneo por regiões

\( \mathbf{P} = \epsilon_0\chi\mathbf{E} \quad (6.35)\)
\( \mathbf{P} = (\epsilon-\epsilon_0)\mathbf{E} = \epsilon_0(\kappa-1)\mathbf{E} \quad (6.36)\)
\( \mathbf{D} = \epsilon\mathbf{E} = \kappa\epsilon_0\mathbf{E} \quad (6.37)\)

Relações entre os parâmetros: \(\epsilon=\kappa\epsilon_0\) (permissividade); \(\chi=\kappa-1\geq 0\) (susceptibilidade). A constante dielétrica \(\kappa\geq 1\) sempre para materiais passivos.

Em cada região homogênea

  • \(\nabla\cdot(\epsilon\mathbf{E})=\rho_f\) → no vácuo de carga: \(\nabla^2\varphi=0\).
  • \(\nabla\times\mathbf{P}=\epsilon_0(\kappa-1)\nabla\times\mathbf{E}=0\) — logo \(\nabla\times\mathbf{D}=0\) também!
  • Toda a maquinaria do Cap. 3 (Laplace, separação de variáveis, funções de Green) se aplica dentro de cada região com a permissividade \(\epsilon\) daquela região.
  • As interfaces são tratadas pelas condições de contorno (6.31)–(6.33).

6.5.1 Fontes de campo

Carga de polarização em dielétrico simples

De \(\mathbf{P}=\epsilon_0(\kappa-1)\mathbf{E}\) e \(\rho_P=-\nabla\cdot\mathbf{P}\):

\( \rho_P = -\nabla\cdot[\epsilon_0(\kappa-1)\mathbf{E}] = -\epsilon_0(\kappa-1)\nabla\cdot\mathbf{E} \)

Em região homogênea, \(\nabla\cdot\mathbf{E}=\rho_f/\epsilon=\rho_f/(\kappa\epsilon_0)\):

\( \rho_P = \left(\frac{1}{\kappa}-1\right)\rho_f \quad (6.43)\)

Na superfície:

\( \sigma_P = \mathbf{P}\cdot\hat{\mathbf{n}}\big|_S = \epsilon_0(\kappa-1)\mathbf{E}\cdot\hat{\mathbf{n}}\big|_S \quad (6.44)\)

O que (6.43) diz

  • A carga de polarização é proporcional à carga livre no mesmo ponto.
  • O sinal é oposto: \(\rho_P\) se opõe a \(\rho_f\).
  • A carga efetiva total é \(\rho_f+\rho_P=\rho_f/\kappa\) — reduzida por fator \(\kappa\).
  • Em um dielétrico puro sem carga livre: \(\rho_f=0\Rightarrow\rho_P=0\). A carga de polarização só aparece no volume quando há carga livre também ali.

Laboratório visual

Esfera dielétrica em campo externo

\(\sigma_P>0\) ou \(\rho_P>0\)

\(\sigma_P<0\) ou \(\rho_P<0\)

linhas de \(\mathbf{E}\)

6.5.2 Screening

Carga pontual em meio dielétrico simples infinito

Carga \(q_0\) em meio com \(\kappa\). Pela lei de Gauss para \(\mathbf{D}\):

\( \oint\mathbf{D}\cdot d\mathbf{S} = q_0 \;\Rightarrow\; \mathbf{D}=\frac{q_0}{4\pi r^2}\hat{\mathbf{r}} \)
\( \mathbf{E}(\mathbf{r}) = \frac{q_0}{4\pi\kappa\epsilon_0 r^2}\hat{\mathbf{r}} \quad (6.46)\)
\( \varphi(\mathbf{r}) = \frac{q_0}{4\pi\kappa\epsilon_0 r} = \frac{\varphi_{\rm vac}}{κ} \quad (6.47)\)

Campo e potencial reduzidos por \(\kappa\) em todos os pontos do espaço. Resultado exato: a carga de polarização \(\rho_P=-(1-1/\kappa)\,q_0\delta(\mathbf{r})\) se acumula exatamente sobre a carga livre, blindando-a.

Screening e suas consequências

  • A interação entre duas cargas \(q_1\) e \(q_2\) a distância \(r\) em um dielétrico é \(F=q_1q_2/(4\pi\kappa\epsilon_0r^2)\) — reduzida por \(\kappa\).
  • Em água (\(\kappa=80\)): a interação coulombiana entre íons é 80 vezes mais fraca que no vácuo. Por isso o sal dissolve-se tão facilmente em água!
  • Em semicondutores (\(\kappa\approx 12\)): a energia de ligação do éxciton é reduzida por \(\kappa^2\approx 144\).

6.5.2 Capacitor

Capacitor de placas paralelas: carga fixa vs. potencial fixo

Carga fixa (\(\pm Q_f\) nas placas)

\( D = \sigma_f = Q_f/A \)
\( E = D/\epsilon = \sigma_f/(\kappa\epsilon_0) = E_0/\kappa \quad (6.48)\)
\( \Delta\varphi = Ed = \Delta\varphi_0/\kappa \)
\( C = Q_f/\Delta\varphi = \kappa C_0 \quad (6.52)\)

O dielétrico reduz o campo (e o potencial) por \(\kappa\). A capacitância aumenta \(\kappa\) vezes.

Potencial fixo (\(V\) mantido pela bateria)

\( V = \int_0^d d\ell\,E \;\Rightarrow\; E = V/d = E_0 \quad (6.63)\)
\( \sigma_f = D = \epsilon E = \kappa\epsilon_0 V/d \quad (6.65)\)
\( C = \sigma_f A/V = \kappa C_0 \quad (6.66)\)

Diferença crucial: com \(V\) fixo, o campo \(E\) não é reduzido — a bateria fornece mais carga livre para manter o potencial. O resultado final \(C=\kappa C_0\) é o mesmo!

6.5.3 Interface dielétrica

Carga \(q\) no centro de esfera dielétrica (\(\kappa_1\)) em meio \(\kappa_2\)

Por simetria esférica, \(\mathbf{D}\) é radial. Lei de Gauss integral para \(\mathbf{D}\):

\( \mathbf{D}(\mathbf{r}) = \frac{q}{4\pi r^2}\hat{\mathbf{r}}, \quad r>0 \quad (6.53)\)
\( \mathbf{E}_i = \frac{\mathbf{D}}{\epsilon_i} = \frac{q}{4\pi\kappa_i\epsilon_0 r^2}\hat{\mathbf{r}}\)

A carga superficial de polarização na interface \(r=R\):

\( \sigma_P(R) = \hat{\mathbf{r}}\cdot(\mathbf{P}_1-\mathbf{P}_2)\big|_{r=R} = \frac{q}{4\pi R^2}\!\left(\frac{1}{\kappa_2}-\frac{1}{\kappa_1}\right)\quad(6.58)\)
q κ₁ (dentro) κ₂ (fora) D/ε₁ D radial e contínuo; E é descontinuo na interface

Exemplo 6.2

Carga perto de uma interface plana entre dois dielétricos

Geometria

Carga \(q\) em \(z=-d\). Meio à esquerda (\(z<0\)): \(\kappa_L\). Meio à direita (\(z>0\)): \(\kappa_R\). Interface: plano \(z=0\).

Perto de \(\mathbf{r}_0=(x,y,0)\) na interface:

\( \sigma_P = \hat{\mathbf{z}}\cdot(\mathbf{P}_L-\mathbf{P}_R) = \epsilon_0(\chi_L E_{Lz}-\chi_R E_{Rz})\)

Usando continuidade de \(D_z=\kappa_L\epsilon_0 E_{Lz}=\kappa_R\epsilon_0 E_{Rz}\) e resolvendo para \(\sigma_P\):

\( \sigma_P(x,y) = \frac{1}{2\pi}\frac{\kappa_L-\kappa_R}{\kappa_L(\kappa_L+\kappa_R)}\frac{qd}{(x^2+y^2+d^2)^{3/2}}\)

Interpretações

  • Se \(\kappa_L>\kappa_R\): \(\sigma_P>0\) — a carga de polarização tem o mesmo sinal que \(q\). Parece contra-intuitivo?
  • Lembrando: o meio à esquerda é mais polarizável. Ele atrai cargas negativas para perto de \(q\), deixando cargas positivas do lado de \(z=0\).
  • Este resultado é usado no Exemplo 6.7 para calcular a força sobre \(q\) (seção 6.8).
  • Limite \(\kappa_R\to\infty\): reproduz o resultado do método das imagens para uma carga perto de um condutor!

6.5.5 Teoria de potencial

Condições de contorno em potencial

Em termos do potencial \(\varphi\): de \(\mathbf{E}=-\nabla\varphi\), a continuidade de \(E_t\) implica:

\( \varphi_1(\mathbf{r}_S) = \varphi_2(\mathbf{r}_S) \quad (6.70)\)

Com carga livre \(\sigma_f\):

\( \epsilon_1\frac{\partial\varphi_1}{\partial n} - \epsilon_2\frac{\partial\varphi_2}{\partial n} = -\sigma_f \quad (6.71)\)

Sem carga livre na interface:

\( \epsilon_1\frac{\partial\varphi_1}{\partial n}\bigg|_S = \epsilon_2\frac{\partial\varphi_2}{\partial n}\bigg|_S \quad (6.73)\)

Receita para problemas dielétricos simples

Resolver \(\nabla^2\varphi=0\) em cada região; aplicar \(\varphi_1=\varphi_2\) e \(\epsilon_1\partial_n\varphi_1=\epsilon_2\partial_n\varphi_2\) nas interfaces.

Analogia com condutores

  • Condutor: \(\varphi=\text{const}\) na superfície, \(\epsilon_0\partial_n\varphi=-\sigma_f/\epsilon_0\).
  • Dielétrico simples: \(\varphi\) contínuo, \(\kappa_1\partial_n\varphi_1=\kappa_2\partial_n\varphi_2\).
  • A segunda condição é a analogia exata da lei de Gauss na interface.
  • Diferença: potencial é sempre contínuo para dielétrico (tangencial de E é zero), mas pode ser descontínuo para distribuição de dipolos (seção 10.4.3 do Zangwill!).

Exemplo 6.3

Cavidade esférica de raio \(R\) em meio dielétrico com campo \(E_0\hat{\mathbf{z}}\)

Pela simetria axial e \(\nabla^2\varphi=0\):

\( \varphi_{\rm in} = Ar\cos\theta, \quad \varphi_{\rm out}=\left(-E_0r+\frac{B}{r^2}\right)\cos\theta\)

Condições em \(r=R\): continuidade de \(\varphi\) e de \(\epsilon\partial_r\varphi\):

\( A = -\frac{3\kappa}{2\kappa+1}E_0, \quad B=-\frac{\kappa-1}{2\kappa+1}E_0R^3\)
\( \mathbf{E}_{\rm in} = -A\hat{\mathbf{z}} = \frac{3\kappa}{2\kappa+1}E_0\hat{\mathbf{z}} > E_0\hat{\mathbf{z}}\)

Campo dentro da cavidade é maior que \(E_0\) para \(\kappa>1\).

Interpretação

  • A carga de polarização na parede da cavidade tem sinal que reforça o campo no interior vazio.
  • \(\kappa=1\) (vácuo): \(E_{\rm in}=E_0\) ✓.
  • \(\kappa\to\infty\): \(E_{\rm in}\to\frac{3}{2}E_0\). Isso é o "campo de cavidade de Lorentz" que aparece na derivação de Clausius-Mossotti (Seção 6.6).
  • Contraste: para uma esfera dielétrica em vácuo com campo \(E_0\), o campo dentro é reduzido: \(E_{\rm in}=3E_0/(κ+2)<E_0\).

Aplicação 6.2

Refração de linhas de campo na interface dielétrica

Das condições de contorno (6.33) e (6.31) sem \(\sigma_f\):

\( E_{1\parallel}=E_{2\parallel}, \quad \epsilon_1 E_{1\perp}=\epsilon_2 E_{2\perp}\)

Se \(\theta_i\) é o ângulo entre \(\mathbf{E}_i\) e a normal:

\( \tan\theta_i = E_{i\parallel}/E_{i\perp}\)
\( \frac{\tan\theta_1}{\tan\theta_2} = \frac{\epsilon_1}{\epsilon_2} = \frac{\kappa_1}{\kappa_2} \quad (6.68)\)

Limite condutor \(\kappa_2\to\infty\): \(\tan\theta_2\to 0\) → \(\mathbf{E}_2\perp\) à superfície, como esperado.

ε₁ (κ₁) ε₂ = 4ε₁ (κ₂ = 4κ₁) θ₁ θ₂ linhas dobram ao cruzar: tan θ₁ / tan θ₂ = κ₁/κ₂

6.5.4 Potencial fixo

Resposta dielétrica a campo fixo: o campo não é blindado

Capacitor com bateria mantendo \(V\) fixo

Com potencial fixo, inserir o dielétrico não altera \(\mathbf{E}\)! A bateria fornece carga extra para manter \(V=Ed\).

  • Campo: \(\mathbf{E}=V/d\,\hat{\mathbf{z}}\) (inalterado).
  • Carga de superfície dielétrica: \(\sigma_P=-\epsilon_0(\kappa-1)V/d<0\).
  • Carga livre extra das placas: \(\sigma_f=\kappa\epsilon_0 V/d\).

Por que não há blindagem?

A carga de polarização \(\sigma_P<0\) tende a reduzir o campo. Mas a bateria fornece mais carga livre \(\sigma_f\) para compensar exatamente, mantendo \(E=V/d\).

Moral: a blindagem é uma propriedade das fontes serem fixas. Com potencial fixo, as fontes se ajustam e o campo permanece.

\( C = \frac{\sigma_f A}{V} = \kappa C_0 \quad (6.66) \)

Faraday mediu exatamente esse aumento de capacitância para diferentes materiais — definindo \(\kappa\) experimentalmente.

6.6 Microscópico

Física da constante dielétrica: o que determina \(\kappa\)?

A questão central: como a susceptibilidade macroscópica \(\kappa\) se relaciona com a polarizabilidade microscópica \(\alpha\) de moléculas individuais?

\( \mathbf{p} = \alpha\epsilon_0\mathbf{E}_0 \quad (6.75)\)

\(\alpha\) mede quão facilmente a nuvem eletrônica e os núcleos se deformam sob ação do campo. Para uma esfera condutora de raio \(R\): \(\alpha=4\pi R^3\).

Estimativa ingênua: com \(n\) moléculas por volume, cada com \(\mathbf{p}=\alpha\epsilon_0\mathbf{E}\):

\( \mathbf{P} = n\mathbf{p} = n\alpha\epsilon_0\mathbf{E} \;\Rightarrow\; \kappa\simeq 1+n\alpha \quad (6.79)\)

Limitação: ignora que cada molécula responde ao campo local, não ao campo macroscópico médio.

Por que o campo local importa?

  • O campo que polariza uma molécula individual é o campo de todos os outros — não inclui o campo da própria molécula.
  • Lorentz calculou esse campo local para uma esfera de cavidade dentro de um meio uniformemente polarizado:
\( \mathbf{E}_{\rm self} = -\frac{\mathbf{P}}{3\epsilon_0}\)
\( \mathbf{E}_{\rm local} = \mathbf{E} + \frac{\mathbf{P}}{3\epsilon_0} \quad (6.80\text{--}6.81)\)

6.6.2 Derivação

Cláusius-Mossotti: derivação completa

Cada molécula responde ao campo local: \(\mathbf{p}=\alpha\epsilon_0\mathbf{E}_{\rm local}\). Como \(\mathbf{P}=n\mathbf{p}\):

\( \mathbf{P} = n\alpha\epsilon_0\left(\mathbf{E}+\frac{\mathbf{P}}{3\epsilon_0}\right)\)

Agrupando os termos em \(\mathbf{P}\):

\( \left(1-\frac{n\alpha}{3}\right)\mathbf{P} = n\alpha\epsilon_0\mathbf{E} \;\Rightarrow\; \mathbf{P} = \frac{n\alpha\epsilon_0}{1-n\alpha/3}\mathbf{E} \quad (6.82)\)

Comparando com \(\mathbf{P}=\epsilon_0(\kappa-1)\mathbf{E}\):

\( \kappa-1 = \frac{n\alpha}{1-n\alpha/3}\)
\( \frac{\kappa-1}{\kappa+2} = \frac{n\alpha}{3} \quad (6.84)\)

Validade e limitações

  • Boa para: gases não-polares (N₂, O₂, CH₄), líquidos simples (benzeno), vidros.
  • Ruim para: líquidos polares (H₂O) e sólidos iônicos — moléculas com momento de dipolo permanente precisam do modelo de Onsager (1936).
  • Coincidência histórica: Mossotti derivou em 1850 e Clausius em 1879, sem conhecimento mútuo.
  • Limite de gás diluído (\(n\alpha\ll 1\)): \(\kappa\simeq 1+n\alpha\) — recupera a estimativa ingênua.

6.6.2 Resultado

Fórmula de Clausius-Mossotti

\( \frac{\kappa-1}{\kappa+2} = \frac{n\alpha}{3} \quad (6.84)\)

O campo local:

\( \mathbf{E}_{\rm local} = \frac{\kappa+2}{3}\,\mathbf{E} \quad (6.85)\)

A correção de Lorentz amplifica o campo local por fator \((\kappa+2)/3\). Para \(\kappa=80\) (água): fator de amplificação ≈ 27!

Exemplos de uso

  • Verificação: para He, \(\kappa-1=6.5\times10^{-5}\), \(n=2.7\times10^{19}\) cm⁻³ → \(\alpha=7.2\times10^{-25}\) cm³ (boa concordância com cálculo quântico).
  • Índice de refração: \(\kappa=n_{\rm ind}^2\) para luz visível → Clausius-Mossotti = Lorentz-Lorenz para óptica.
  • Colapso ferroelétrico: quando \(n\alpha\to 3\), o denominador \(1-n\alpha/3\to 0\): polarização diverge — transição ferroelétrica!

6.6.4 Conexão

O limite \(\kappa\to\infty\) reproduz um condutor perfeito

Ideia

Quando \(\kappa\) cresce muito, o campo macroscópico no interior tende a zero:

\( \kappa\to\infty \;\Rightarrow\; E_{\rm in}\to 0 \)

Esse é exatamente o comportamento de um condutor perfeito.

Uso prático

Qualquer resultado derivado para dielétrico simples deve reproduzir o resultado de condutor quando \(\kappa\to\infty\). Poderoso teste de consistência.

Exemplos:
• Esfera dielétrica: \(E_{\rm in}=3E_0/(\kappa+2)\xrightarrow{\kappa\to\infty}0\) ✓
• Capacitância: \(C=\kappa C_0\to\infty\) (condutor ideal não tem capacitância finita) ✓

Cuidado

O limite pode ser singular quando há carga livre em contato direto com o dielétrico. Nesse caso, \(\kappa\to\infty\) não equivale simplesmente a um condutor perfeito.

Exemplo: Exemplo 6.7 (força sobre carga perto da interface) tem comportamento singular no limite condutor.

Exemplo 6.1 — Screening do dipolo

Dipolo embutido em esfera dielétrica: blindagem

Dipolo \(\mathbf{p}_0\) no centro de esfera de raio \(R\) e constante \(\kappa\), em vácuo. Qual o momento de dipolo total?

\( \mathbf{p}_{\rm tot} = \frac{3}{2+\kappa}\,\mathbf{p}_0 \)

Derivação: a polarização induzida cria carga superficial \(\sigma_P\), que por sua vez produz um campo dipolar. O campo total dentro da esfera é:

\( \mathbf{E}_{\rm in} = \frac{1}{(2+\kappa)}\frac{1}{4\pi\epsilon_0\kappa}\frac{3(\mathbf{p}_0\cdot\hat{\mathbf{r}})\hat{\mathbf{r}}-\mathbf{p}_0}{r^3}\)

Fora: campo de dipolo com momento efetivo \(\mathbf{p}_{\rm tot}=3\mathbf{p}_0/(2+\kappa)\).

Interpreação e limite

  • \(\kappa=1\): \(\mathbf{p}_{\rm tot}=\mathbf{p}_0\) (vácuo) ✓
  • \(\kappa>1\): \(\mathbf{p}_{\rm tot}<\mathbf{p}_0\) — o dielétrico blinda o dipolo.
  • \(\kappa\to\infty\): \(\mathbf{p}_{\rm tot}\to 0\) — dentro de um condutor, nenhum campo externo penetra.
  • Relevante para espectroscopia de moléculas em solvente: o campo efetivo da molécula é reduzido pela constante dielétrica do meio.

6.7 Energia

Trabalho para estabelecer o campo: \(\delta U_E = \mathbf{E}\cdot\delta\mathbf{D}\)

Considere um condutor com carga \(Q\) dentro de um dielétrico. Ao trazer carga \(\delta Q\) do infinito ao condutor:

\( \delta U_E = \varphi\,\delta Q = \int_S d\mathbf{S}\cdot\delta\mathbf{D}\,\varphi \)

Pelo teorema da divergência e \(\mathbf{E}=-\nabla\varphi\):

\( \delta U_E = \int_V d^3r\;\mathbf{E}\cdot\delta\mathbf{D} \quad (6.87)\)

A energia total (construindo o campo do zero):

\( U_E = \int d^3r\int_0^{\mathbf{D}} \mathbf{E}\cdot\delta\mathbf{D}' \quad (6.91)\)

Resultado chave

  • A energia \(U_E\) é uma função natural de \(\mathbf{D}\) (ou das cargas livres \(Q_k\)).
  • Para calcular, precisamos de uma relação constitutiva que diga como \(\mathbf{E}\) depende de \(\mathbf{D}\).
  • Analogia com condutores: \(U_E\) natural nas cargas \(Q_k\). Aqui: natural em \(\mathbf{D}\).
  • A força sobre o dielétrico: \(\mathbf{F}=-(\partial U_E/\partial\mathbf{R})_{\mathbf{D}}\) (cargas fixas).

6.7.2 Resultado

Energia em dielétrico simples: \(U_E=\frac{1}{2}\int\mathbf{E}\cdot\mathbf{D}\,d^3r\)

Para dielétrico simples \(\mathbf{D}=\epsilon\mathbf{E}\), a integral sobre \(\delta\mathbf{D}\) fecha:

\( \int_0^{\mathbf{D}}\mathbf{E}\cdot\delta\mathbf{D}'=\int_0^D \frac{D'}{ε}\,dD'=\frac{D^2}{2\epsilon}\)
\( U_E[\mathbf{D}] = \frac{1}{2}\int d^3r\,\frac{|\mathbf{D}|^2}{\epsilon} = \frac{1}{2}\int d^3r\,\mathbf{E}\cdot\mathbf{D} \quad (6.94)\)

Analogia com vácuo: \(U_E=\frac{1}{2}\int\epsilon_0 E^2\,d^3r\). Aqui \(\epsilon\) substitui \(\epsilon_0\).

Leitura física da energia

  • \(\frac{|\mathbf{D}|^2}{2\epsilon}\) é minimizado onde \(\epsilon\) é maior.
  • Logo, a energia é minimizada quando matéria de alta \(\epsilon\) ocupa regiões de campo intenso.
  • Isso explica por que dielétricos são atraídos para regiões de campo forte — o sistema busca minimizar \(U_E\).
  • Comparação: energia no vácuo \(\frac{\epsilon_0 E^2}{2}\). Em dielétrico: \(\frac{\epsilon_0\kappa E^2}{2}=\frac{\epsilon_0 E^2}{2}+\frac{\epsilon_0(\kappa-1)E^2}{2}\). O segundo termo é a energia armazenada na polarização.

6.7.3 ΔU

Inserir dielétrico sempre reduz a energia (cargas fixas)

Ao inserir um dielétrico mantendo as cargas livres fixas (\(\mathbf{E}_0,\mathbf{D}_0\to\mathbf{E},\mathbf{D}\)):

\( \Delta U_E = \frac{1}{2}\int d^3r\,(\mathbf{E}\cdot\mathbf{D}-\mathbf{E}_0\cdot\mathbf{D}_0)\)

Usando que a carga livre não mudou (\(\int\mathbf{E}\cdot(\mathbf{D}-\mathbf{D}_0)d^3r=0\)):

\( \Delta U_E = -\frac{1}{2}\int d^3r\,\mathbf{P}\cdot\mathbf{E}_0 \quad (6.101)\)

Negativo: o dielétrico abaixa a energia total.

De onde vem o fator 1/2?

  • Para um pequeno objeto linear: \(\mathbf{p}=\alpha\epsilon_0\mathbf{E}_0\).
  • Energia de interação: \(U_{\rm ext}=-\mathbf{p}\cdot\mathbf{E}_0=-pE_0\).
  • Custo interno para criar o dipolo: \(U_{\rm int}=\zeta p^2\) (restoring force).
  • Minimizando: \(p=E_0/(2\zeta)\) → \(\Delta U_E=-\frac{1}{2}\mathbf{p}\cdot\mathbf{E}_0\).
  • O fator 1/2 vem do custo de polarizar o dielétrico.

6.7.5 Potenciais fixos

Transformada de Legendre: \(\hat{U}_E\) para condutores a potencial fixo

Quando condutores estão ligados a baterias, os potenciais \(\varphi_k\) são mantidos fixos. Define-se:

\( \hat{U}_E = U_E - \int d^3r\,\mathbf{D}\cdot\mathbf{E} = -\frac{1}{2}\int d^3r\,\mathbf{D}\cdot\mathbf{E} \quad (6.109)\)

Ideia

\(U_E\) é natural em cargas livres. \(\hat{U}_E\) é natural em potenciais fixos. Para dielétrico simples: \(\hat{U}_E=-U_E\).

\( \mathbf{F} = -\frac{\partial\hat{U}_E}{\partial\mathbf{R}}\bigg|_\varphi = +\frac{\partial U_E}{\partial\mathbf{R}}\bigg|_Q \quad (6.114)\)

Sutileza da força

  • Com carga fixa: \(\mathbf{F}=-\partial U_E/\partial\mathbf{R}\) (reduz energia).
  • Com potencial fixo: \(\mathbf{F}=-\partial\hat{U}_E/\partial\mathbf{R}=+\partial U_E/\partial\mathbf{R}\) — a força ainda puxa o dielétrico para dentro (aumenta \(U_E\)).
  • Isso não contradiz a conservação de energia: a bateria fornece energia extra \(+\Delta U_E\) que compensa o trabalho e o aumento de \(U_E\).
  • O resultado final para a força é o mesmo nos dois casos para um dado campo \(\mathbf{E}\).

Aplicação 6.3 — Conexão com QCD

Modelo clássico de confinamento de quarks

O modelo

O vácuo de QCD (cromodinâmica quântica) age como um dielétrico com \(\kappa<1\) — anti-screening. Um quark isolado cria uma cavidade esférica de raio \(R\) no vácuo.

\( U_{\rm tot}(R) = \frac{q^2}{8\pi\epsilon_0}\!\left(\frac{1}{a}+\frac{1}{\kappa R}\right) + \gamma 4\pi R^2 \)

O segundo termo: campo elétrico dentro da casca de raio \(R\) (reduzido por \(\kappa\to 0\) fora). O terceiro: energia de superfície da casca.

Por que quarks não escapam?

  • Minimizando sobre \(R\): a cavidade tem raio ótimo \(R^*\propto\kappa^{-1/3}\).
  • \(U_{\rm tot}(R^*)\propto\kappa^{-2/3}\to\infty\) quando \(\kappa\to 0\).
  • Energia de um quark livre é infinita quando \(\kappa\to 0\): confinamento!
  • Um méson (quark-antiquark) pode ter uma única cavidade — energia finita — e não} está} confinado\).
  • Resultado análogo ao confinamento real da QCD, mas obtido por eletrostática clássica em dielétrico com \(\kappa<1\).

6.8 Forças

Força sobre um corpo dielétrico isolado

Para dielétrico polarizado \(\mathbf{P}(\mathbf{r})\) em campo externo \(\mathbf{E}_0(\mathbf{r})\), a força de Coulomb sobre as cargas de polarização:

\( \mathbf{F} = \int_V d^3r\,\rho_P\mathbf{E}_0 + \int_S dS\,\sigma_P\mathbf{E}_0 \quad (6.115)\)

Usando a representação de dipolos (6.22):

\( \mathbf{F} = \int_V d^3r\,(\mathbf{P}\cdot\nabla)\mathbf{E}_0 \quad (6.116)\)

Importante: (6.115) e (6.116) valem para a força total sobre um corpo isolado em campo externo. Não valem para subvolumes dentro de dielétrico contínuo!

Dieletroforese

Para campo quase-uniforme sobre corpo pequeno: \(\mathbf{p}\approx\alpha\epsilon_0\mathbf{E}_0\). A força:

\( \mathbf{F}\approx(\mathbf{p}\cdot\nabla)\mathbf{E}_0 = \frac{\alpha\epsilon_0}{2}\nabla|\mathbf{E}_0|^2\)

Dielétrico neutro é atraído para regiões de campo mais intenso, independente do sinal da carga!

Aplicação: dieletroforese é usada para separar e transportar células biológicas, nanopartículas, DNA. Um dielétrico neutro pode ser "levitado" ou "guiado" por campo não-uniforme.

6.8.3 Forças em subvolumes

Por que a fórmula de Coulomb falha para subvolumes

O problema

Se cortamos mentalmente um subvolume de um dielétrico contínuo, aparecem forças microscópicas de curto alcance nas fronteiras artificiais — ligações químicas cortadas.

A fórmula de Coulomb com \(\rho_P\) e \(\sigma_P\) não conta corretamente todas as forças internas quando a fronteira não é uma superfície física real.

Consequência: uma tentativa ingênua de calcular a força na interface entre dois dielétricos pode errar por um fator 2 no limite condutor!

A solução correta

  • Para força total em corpo isolado: use (6.116) ✓
  • Para força em subvolume ou interface: use a fórmula de Helmholtz (6.130) ou o tensor de tensões (6.133).
  • Essas fórmulas incorporam corretamente as forças de curto alcance através da relação constitutiva.
  • Brown (1951) foi o primeiro a derivar o resultado correto sistematicamente.

Comparação errada vs. correta

Interface dielétrica: tentativa ingênua vs. fórmula de Helmholtz

Tentativa ingênua (incorreta)

Força de Coulomb sobre carga de polarização na interface \(\kappa_1|\kappa_2\) em capacitor de carga \(\sigma_f\):

\( f_{\rm ing} = \frac{\sigma_f^2}{\epsilon_0}\!\left(\frac{1}{\kappa_2}-\frac{1}{\kappa_1}\right)\hat{\mathbf{z}} \quad (6.121)\)

Diagnóstico: no limite \(\kappa_1\to\infty\), isso dá \(f\to\sigma_f^2/(\kappa_2\epsilon_0)\). Mas o resultado correto para pressão entre placas condutoras é \(\sigma_f^2/(2\kappa_2\epsilon_0)\) — fator 2 errado!

Fórmula de Helmholtz (correta)

\( \mathbf{F} = \int d^3r\!\left[\rho_f\mathbf{E} - \frac{1}{2}E^2\nabla\epsilon\right] \quad (6.130)\)

O segundo termo age apenas onde \(\epsilon\) varia — na interface. Usando \(D_z=\sigma_f=\text{const}\) e \(E=D/\epsilon\):

\( f = \frac{\sigma_f^2}{2\epsilon_0}\!\left(\frac{1}{\kappa_2}-\frac{1}{\kappa_1}\right)\hat{\mathbf{z}} \quad (\text{Ex. 6.6})\)

Limite \(\kappa_1\to\infty\): \(f\to\sigma_f^2/(2\kappa_2\epsilon_0)\) ✓ — reproduz a pressão eletrostática correta.

6.8.5 Tensores

Tensor de tensões elétrico em dielétrico simples

A força de Helmholtz pode ser reescrita como integral de superfície:

\( \mathbf{F} = \oint_S d\mathbf{S}\!\left[(\hat{\mathbf{n}}\cdot\mathbf{D})\mathbf{E} - \frac{1}{2}\hat{\mathbf{n}}(\mathbf{D}\cdot\mathbf{E})\right] \quad (6.132)\)

Isso motiva o tensor de tensões elétrico para dielétrico simples:

\( T_{ij}(\mathbf{D}) \equiv D_i E_j - \frac{1}{2}\delta_{ij}\mathbf{D}\cdot\mathbf{E} \quad (6.133)\)
\( F_i = \oint_S T_{ij}\hat{n}_j\,dS \quad (6.134)\)

Propriedades do tensor

  • \(T_{ij}\) é simétrico: \(D_i E_j=\epsilon E_i E_j=\epsilon E_j E_i=D_j E_i\).
  • No vácuo (\(\mathbf{D}=\epsilon_0\mathbf{E}\)): reduz ao tensor de Maxwell \(T_{ij}^{\rm Max}=\epsilon_0(E_iE_j-\frac{1}{2}\delta_{ij}E^2)\).
  • Vantagem: permite calcular a força sobre qualquer corpo por integrar \(T_{ij}\) em uma superfície que envolve o corpo — a superfície pode estar em qualquer região, inclusive no dielétrico.
  • Appl. 6.4 (Zangwill): força sobre corpo embutido em dielétrico hospedeiro → \(\mathbf{F}=\kappa\int\rho\mathbf{E}\,d^3r\). O fator \(\kappa\) vem das forças de curto alcance do hospedeiro.

Exemplo 6.8

Slab dielétrico parcialmente inserido em capacitor a potencial fixo

Slab de constante \(\kappa\), espessura \(d\) (igual ao gap do capacitor), largura \(L\) por \(L\). Inserido uma distância \(s\) entre as placas. Potencial \(V\) fixo.

\( \Delta\hat{U}_E = -\frac{1}{2}\epsilon_0(\kappa-1)\left(\frac{V}{d}\right)^2(Lds)\)
\( \mathbf{F} = -\frac{\partial\hat{U}_E}{\partial s}\hat{\mathbf{x}} = \frac{\epsilon_0(\kappa-1)LV^2}{2d}\hat{\mathbf{x}}\)

Força positiva: o slab é puxado para dentro do capacitor.

κ F s = inserção +V 0

Exemplo 6.8 — Leitura física

Por que o slab é puxado para dentro?

Mensagem prática

Dielétricos são atraídos para regiões onde o campo elétrico é mais intenso.

\( F \propto (\kappa-1),\quad F\propto V^2,\quad F\propto \frac{L}{d}\)

A força cresce com a polarizabilidade do material, com o quadrado do campo aplicado e com a área de borda que entra no capacitor.

A origem real da força

A fórmula mostra que a força é proporcional a \((V/d)^2\propto E^2\). Mas onde exatamente ela age?

Aplicando (6.116) ao volume inteiro do slab: a força de Coulomb sobre \(\rho_P\) e \(\sigma_P\) no interior é zero (se campo for uniforme). A força vem do campo de franja nas bordas laterais do capacitor — onde o campo não é uniforme!

O cálculo de energia evita ter que encontrar o campo de franja explicitamente. Elegante!

Exemplo 6.7

Força sobre carga \(q\) perto de interface plana entre \(\kappa_L\) e \(\kappa_R\)

Usando o tensor de tensões sobre uma superfície que envolve \(q\), ou via Appl. 6.4:

\( \mathbf{F}_{q} = -\hat{\mathbf{z}}\,\frac{1}{\kappa_L}\frac{\kappa_L-\kappa_R}{\kappa_L+\kappa_R}\frac{1}{4\pi\epsilon_0}\frac{q^2}{(2d)^2}\)

Observações:

  • \(\kappa_R>\kappa_L\): força atrativa (em direção à interface — ao meio de maior \(\kappa\)).
  • \(\kappa_R<\kappa_L\): força repulsiva (em direção oposta à interface).
  • \(\kappa_R=\kappa_L\): força nula ✓.
  • \(\kappa_R\to\infty\): \(F\to -q^2/(4\pi\kappa_L\epsilon_0 (2d)^2)\) — resultado do método das imagens para condutor!

Conexão com Exemplo 6.2

  • O resultado usa diretamente \(\sigma_P\) do Exemplo 6.2.
  • A força também pode ser calculada via energia: inserir \(q\) a distância \(d\) da interface abaixa \(U_E\) — a força aponta para onde a energia é menor.
  • Aplicação: adsorção de íons em interfaces biológicas (\(\kappa_L\approx 80\) água, \(\kappa_R\approx 2-4\) membrana lipídica).

Fechamento

O coração do Capítulo 6 em oito equações

\( \rho_P=-\nabla\cdot\mathbf{P},\quad\sigma_P=\mathbf{P}\cdot\hat{\mathbf{n}} \)
\( \int_V\mathbf{P}\,d^3r = \mathbf{p} \quad \text{(dipolo total)}\)
\( \mathbf{D}=\epsilon_0\mathbf{E}+\mathbf{P},\quad\nabla\cdot\mathbf{D}=\rho_f\)
\( \text{Simples: }\mathbf{D}=\epsilon\mathbf{E}=\kappa\epsilon_0\mathbf{E},\quad C=\kappa C_0 \)
\( U_E = \tfrac{1}{2}\int\mathbf{E}\cdot\mathbf{D}\,d^3r,\quad\Delta U_E=-\tfrac{1}{2}\int\mathbf{P}\cdot\mathbf{E}_0\,d^3r\)
\( \mathbf{F}=\int(\mathbf{P}\cdot\nabla)\mathbf{E}_0\,d^3r\quad\text{(corpo isolado)}\)
\( \mathbf{F}_{\rm Helmholtz}=\int\!\!\left[\rho_f\mathbf{E}-\tfrac{1}{2}E^2\nabla\epsilon\right]\!d^3r\quad\text{(subvolumes)}\)
\( \frac{\kappa-1}{\kappa+2}=\frac{n\alpha}{3}\quad\text{(Clausius-Mossotti)}\)

Ideia unificadora

A resposta dielétrica é uma competição entre energia eletrostática (que quer alinhar os dipolos com o campo), polarização induzida (que custa energia interna) e forças microscópicas de curto alcance (que mantêm a matéria coesa).

O dielétrico sempre abaixa a energia do sistema ao ser inserido num campo (cargas fixas) e sempre é atraído para regiões de campo mais intenso — resultado universal, independente do sinal da carga.

Fontes e créditos

Referências

Base conceitual

  • Zangwill, A. Modern Electrodynamics. Cambridge University Press, 2012. Cap. 6 (pp. 158–191).
  • Purcell, E. M. Electricity and Magnetism. McGraw-Hill, 1965 (epígrafe).
  • Onsager, L. "Electric Moments of Molecules in Liquids". J. Am. Chem. Soc. 58 (1936).
  • Brown, W. F. "Electric and Magnetic Forces: A Direct Calculation". Am. J. Phys. 19 (1951).
  • Texto dos slides: elaboração autoral para aula de pós-graduação, UDESC.

Retratos históricos

  • Ilustrações monogramáticas SVG inline — sem dependência externa.
  • Faraday (1791–1867), Mossotti (1791–1863), Clausius (1822–1888), Maxwell (1831–1879), Lorentz (1853–1928).

Prof. Dr. Rafael Camargo Rodrigues de Lima

  • Eletromagnetismo Clássico — Pós-Graduação UDESC/CCT