Astronomia (AST0001) · Curso de Física · UDESC

O céu como laboratório físico

Aula 1 · Fundamentos observacionais e escalas de medida
Prof. Dr. Rafael Camargo Rodrigues de Lima · 2026/2

O que esta aula responde

Esta aula cobre o Capítulo 1 da apostila, inteiro: como se mede uma direção, com que precisão, e em que sistema; de onde saem a altura, o nascer e o poente; por que existem estações; por que o dia solar e o sideral diferem de 3 min 56 s; como sair de uma data de calendário e chegar à altura de uma estrela; e por que todo catálogo declara uma época.

Ela responde a uma pergunta só — onde. As outras duas, a que distância e como se move, são dos Capítulos 2 e 3.

Ao final, o roteiro do laboratório da abóbada celeste, que é o laboratório deste capítulo.

A limitação que virou método

Quase tudo que sabemos do universo vem de observação à distância.

  • Não se coloca uma estrela em uma bancada
  • Não se repete a formação de uma galáxia
  • Não se acelera a história cósmica
O que chega até nós: luz, posição, tempo, movimento — e, em casos especiais, partículas e ondas gravitacionais.

Tudo isto chegou como luz

O primeiro campo profundo do James Webb. Os arcos alaranjados são galáxias distantes, cuja luz o aglomerado à frente entorta. Nada aqui foi visitado nem repetido em bancada: tudo chegou como luz. — NASA, ESA, CSA e STScI, domínio público

A cadeia que atravessa o curso inteiro

observável → calibração → modelo → grandeza física

  • Fluxo, posição e tempo de chegada são o que se mede
  • Massa, distância, temperatura e idade são o que se infere
  • Toda inferência carrega hipóteses — e elas precisam ser ditas

Capítulo 1 · Ângulos, coordenadas e sistemas de referência

Toda medida de posição no céu é a medida de um ângulo.

  • Ângulos, ângulo sólido e resolução
  • Os quatro sistemas de coordenadas, e a convenção do azimute
  • Trigonometria esférica e a equação da altura
  • Da data civil ao tempo sideral e à altura no céu
  • Eclíptica, estações, equação do tempo
  • Precessão, época e a cadeia de reduções
Responde a pergunta onde.

Medir uma direção é medir um ângulo

  • A esfera celeste tem duas dimensões: só direção, nunca distância
  • Unidade prática: o segundo de arco
1° = 60′ = 3600″

Aplicação: a maior paralaxe do céu

Proxima Centauri desloca-se 0,77″ ao longo do ano. Em radianos:

É o maior efeito de paralaxe que existe — e são milionésimos de radiano. Toda a astrometria vive nessa escala, e é por isso que a unidade de trabalho é o segundo de arco, não o radiano.

A constante mais usada da astronomia prática

Converter radianos em segundos de arco:

Não é constante física: é só 180 × 3600 / π.

Aplicação: o tamanho angular do Sol

O diâmetro solar sobre a distância, convertido por 206265:

Meio grau — e a Lua subtende quase o mesmo. É essa coincidência que torna possíveis os eclipses totais.

O disco que subtende meio grau

O Sol pelo SDO em ultravioleta extremo (17,1 nm), não em luz visível. A borda nítida é o limbo — o disco que subtende os 32′ da conta anterior. O brilho que passa dela é a coroa. — NASA/GSFC/SDO, domínio público

Aproximação de pequenos ângulos

Um objeto de tamanho ℓ a distância d subtende:

Erro menor que 1% para θ < 10°. Em segundos de arco, é exata para qualquer propósito.

Aplicação: o diâmetro de Júpiter

Na oposição o disco mede 47″, e o planeta está a 4,2 UA:

Valor tabelado: 142 984 km — três algarismos batem, e a conta foi uma multiplicação. A mesma relação ao contrário: uma moeda de 1 real subtende 1″ a 5,6 km.

O disco de 47 segundos de arco

Júpiter em disco cheio, pelo Hubble, em 21 de abril de 2014. A olho nu ele é um ponto; é este disco de 47″ que sustenta a conta anterior. A oval alaranjada é a Grande Mancha Vermelha. — NASA, ESA e A. Simon (GSFC), domínio público

Calibrando a intuição

Do olho nu ao VLBI vão seis ordens e meia de grandeza: 60″ / 20 μas = 3 × 10⁶.

Ângulo sólido

Direções ocupam área na esfera; um cone de meia-abertura α subtende:

Para α pequeno, é a área do disco de raio angular α — e é essa integral que reaparece no Capítulo 6, ao converter intensidade específica em fluxo.

O céu em graus quadrados

Guarde esse número: ele converte a área de um levantamento em fração do céu, e portanto contagens em densidade.

A esfera celeste

  • Não é uma casca real: é uma construção geométrica
  • Duas estrelas próximas no céu podem estar a kiloparsecs uma da outra
  • Coordenadas celestes fixam direção, não posição

O Cruzeiro do Sul, em profundidade

Seis graus no céu, 112 parsecs no espaço. A cruz é perspectiva, não estrutura: Ginan, que aparece dentro dela, está 69 pc à frente de Imai. — Paralaxes Hipparcos e Gaia EDR3, via SIMBAD

Órion, como se vê da Terra

A alaranjada é Betelgeuse; a azul, Rigel; no meio, o cinturão que aqui se chama Três Marias. É a figura que praticamente toda cultura desenhou no céu. — NASA / STScI, visualização de Frank Summers

A mesma Órion, de outro ponto de vista

As mesmas estrelas, com as mesmas ligações, vistas de um ponto deslocado da Terra: a figura se desfaz. Ela nunca foi um objeto — era o ângulo de onde olhávamos. — NASA / STScI, visualização de Frank Summers

Sistema horizontal

  • Plano fundamental: o horizonte do observador
  • Coordenadas: azimute Az e altura h
  • Responde à pergunta operacional: dá para observar agora?
  • Problema: muda a cada minuto, e depende do lugar

Sistema horizontal, na figura

Zênite, horizonte local, nadir; a altura h sobe do horizonte e o azimute Az corre ao longo dele. Tudo aqui depende de onde você está e de que horas são. — Francisco Javier Blanco González, CC BY 2.5, via Wikimedia Commons

Sistema equatorial

  • Plano fundamental: o equador celeste
  • Coordenadas: ascensão reta α e declinação δ
  • É o sistema de catálogo — acompanha a rotação do céu
  • Depende da época, por causa da precessão

Sistema equatorial, na figura

Ascensão reta contada a partir do equinócio vernal, declinação medida a partir do equador celeste. A eclíptica aparece inclinada de 23°26′ — e é o cruzamento dela com o equador que define a origem. — Tfr000, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

Eclíptico e galáctico

  • Eclíptico: plano da órbita da Terra — natural para o Sistema Solar
  • Galáctico: plano da Via Láctea — separa disco de halo imediatamente
  • A escolha do sistema é operacional, não estética

O céu inteiro, em coordenadas galácticas

Densidade de estrelas medida pelo Gaia, em coordenadas galácticas: o plano da Via Láctea, que no equatorial é uma senoide, aqui vira uma reta. As duas manchas abaixo à direita são as Nuvens de Magalhães. — ESA/Gaia/DPAC, CC BY-SA 3.0 IGO

Os quatro sistemas

SistemaPlanoCoordenadasDepende de
HorizontalhorizonteAz, hlocal e instante
Equatorialequador celesteα, δépoca
Eclípticoeclípticaλ, βépoca
Galácticoplano da Galáxiaℓ, bnada

A convenção do azimute

  • Neste curso, o azimute é contado a partir do Norte, no sentido N → L → S → O, de 0° a 360°
  • A altura é medida sobre o círculo vertical do astro, positiva acima do horizonte
  • É a convenção do IAU SOFA, do Stellarium e do astropy
Textos clássicos de astronomia de posição contam o azimute a partir do Sul. Trocar de convenção sem perceber inverte o sinal do azimute calculado — e é um erro que não deixa sintoma.

Por que ascensão reta em horas

  • A Terra gira 360° em 24 horas siderais
  • 1h de ascensão reta = 15°
  • A diferença de α entre dois objetos é o intervalo entre suas culminações
A unidade codifica um relógio.

Trigonometria esférica

Todo problema de posição vira um triângulo sobre a esfera.

Dedução: lei dos cossenos esférica

Vetores unitários do centro a cada vértice, com A na origem:

O produto escalar û_B · û_C dá o resultado direto.

Lei dos cossenos esférica

Para triângulos pequenos, cos x ≈ 1 − x²/2 e sen x ≈ x: recupera-se a lei plana.

Lei dos senos esférica

Sai do produto vetorial, calculando a mesma área de dois modos.

O triângulo polo–zênite–objeto

Os três lados do triângulo PZX:

O ângulo no polo é o ângulo horário H = Θ − α, com Θ o tempo sideral local.

A equação da altura

Aplicando a lei dos cossenos ao lado ZX — e a dos senos, para o azimute:

A primeira responde a quase toda pergunta prática de observação. A segunda deixa ambiguidade de quadrante — adiante, a forma com atan2 resolve isso.

Consequência 1: culminação

Em H = 0 o objeto cruza o meridiano:

Em Joinville (φ ≈ −26°), objetos com δ = −26° passam pelo zênite.

Consequência 2: nascer e poente

Impondo h = 0:

Daí sai a duração do arco diurno: 2H₀, convertido para horas.

Consequência 3: circumpolaridade

  • Se |tan φ tan δ| > 1, não há solução
  • O objeto nunca se põe, ou nunca nasce
  • Em Joinville: δ < −64° é circumpolar

Circumpolaridade, fotografada

Longa exposição no observatório Gemini Norte: as estrelas descrevem círculos em torno do polo celeste. As de raio pequeno nunca se põem — são as circumpolares. — International Gemini Observatory/NOIRLab/NSF/AURA, CC BY 4.0

A eclíptica e a obliquidade

  • O Sol descreve um grande círculo ao longo do ano: a eclíptica
  • Inclinação em relação ao equador: ε = 23°26′
  • Essa é a inclinação do eixo de rotação da Terra

Onde a eclíptica passa, fotografado

A luz zodiacal, fotografada no La Silla olhando para oeste depois do pôr do sol: luz solar espalhada pela poeira interplanetária, que se concentra no plano do Sistema Solar. O brilho difuso sobe do horizonte ao longo desse plano — o mesmo em que o Sol se move durante o ano. Não é a eclíptica desenhada no céu: é a poeira que mostra onde ela passa. — ESO/Y. Beletsky, CC BY 4.0

Por que existem estações

O fluxo por unidade de área horizontal:

No verão local, δ tem o mesmo sinal de φ, o Sol sobe mais e sen h é maior.

Os dois efeitos somam

Mais fluxo por unidade de área e mais horas de insolação — os dois na mesma direção.

A geometria das estações

A inclinação do eixo se mantém fixa no espaço enquanto a Terra orbita: em cada solstício um hemisfério recebe luz mais direta e por mais tempo. — NOAA Office of Education, domínio público

A excentricidade não explica

Variação de fluxo ao longo da órbita:

7%, e o periélio é em janeiro — verão do hemisfério sul. O efeito existe, é secundário, e tem sinal oposto entre hemisférios.

A equação do tempo

  • O Sol verdadeiro não é bom relógio: adianta e atrasa
  • A diferença em relação a um Sol médio tem duas causas independentes

Componente da excentricidade

Segunda lei de Kepler: a Terra corre mais no periélio.

Período de um ano.

Componente da obliquidade

A projeção da eclíptica sobre o equador não é uniforme:

Período de meio ano, porque depende de sen 2λ.

A curva resultante

Duas propriedades geométricas independentes deixam assinatura em um único gráfico observável.

O analema

Posição do Sol no céu sempre no mesmo horário do relógio, ao longo de um ano: o oito deitado é a equação do tempo desenhada no céu. À esquerda às 8h, à direita às 16h. — Daniel Rüdisser, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons

Tempo sideral e tempo solar

Dedução dos 3 min 56 s

Em um dia a Terra avança na órbita:

O dia sideral vale 23ʰ56ᵐ04ˢ. Em seis meses a defasagem chega a 12 h — e o céu da meia-noite é o oposto.

Da data civil à altura no céu

A equação da altura só se torna útil quando se sabe obter Θ, o tempo sideral local, a partir de uma data e de uma hora de relógio.

data e hora → JD → GMST → Θ → H → h, Az

  • A data vira um contador contínuo de dias
  • O contador vira o ângulo de rotação da Terra
  • Longitude e ascensão reta dão o ângulo horário
  • O triângulo PZX devolve altura e azimute
Quatro elos — e vale percorrê-los uma vez inteira com números.

Elo 1: a data juliana

A JD conta dias corridos desde −4712, e existe para eliminar meses desiguais e anos bissextos das contas:

Data do calendário gregoriano, UT em horas. Se M ≤ 2, faça antes Y → Y − 1 e M → M + 12.

Elo 2: tempo sideral de Greenwich

O tempo sideral médio em Greenwich cresce linearmente com a data juliana:

O primeiro número é o GMST em J2000,0. O segundo excede 360° porque é o ângulo que a Terra gira em um dia solar — é a diferença de 3ᵐ56ˢ deduzida acima, escrita como taxa.

Elos 3 e 4: tempo sideral local

Soma-se a longitude do observador (positiva a leste) e subtrai-se a ascensão reta:

O elo 4 são as duas expressões já deduzidas: a equação da altura e a do azimute.

Exemplo: Antares vista de Joinville

20 de agosto de 2026, 21h00 do horário local (UTC−3). A que altura e em que direção?

Antares (J2000)Joinville
α = 16ʰ29ᵐ24,5ˢ = 247,352°φ = −26,30°
δ = −26°25′55″ = −26,432°λ = −48,85°
21h00 local são 00h00 UT do dia 21 — a data que entra na conta é a seguinte.

Passos 1 e 2: JD e GMST

Com Y = 2026, M = 8, D = 21 e UT = 0, vem A = 20 e B = −13:

Passos 3 e 4: do ângulo horário à altura

O sinal positivo de H diz que Antares já passou pelo meridiano há pouco mais de duas horas: está a oeste. A altura sai da equação já deduzida, com φ = −26,30° e δ = −26,432°.

O azimute, sem ambiguidade

A lei dos senos deixa dois quadrantes possíveis. Use o arco-tangente de dois argumentos:

Resposta: Antares está a 60° de altura, a oeste-sudoeste.

Duas verificações que não custam nada

Como δ ≈ φ, Antares passa praticamente pelo zênite daqui — o que explica os 60° mesmo duas horas depois da culminação. Se um desses números destoasse do resultado, o erro estaria na cadeia, não no céu.

Precessão dos equinócios

  • A Terra é achatada: tem bojo equatorial
  • Sol e Lua exercem torque sobre esse bojo
  • Um giroscópio não se alinha — ele precessa

A taxa e o período

Sol contribui ~16″/ano, Lua ~34″/ano — a Lua domina, porque o torque escala com M/r³. Sobreposta, a nutação oscila com período de 18,6 anos e amplitude de 9,2″ em obliquidade.

O cone de precessão

O eixo da Terra descreve um cone em 25 800 anos, mantendo a obliquidade de 23,4°. A estrela polar de hoje não é a de daqui a mil anos. — NASA / Mysid, domínio público

Época, equinócio e o ICRS

  • Época: instante a que se referem posição e movimento próprio (J2000,0)
  • Equinócio: instante que define a orientação dos eixos
  • ICRS: adotado em 1998, ancorado em quasares — eixos fixos em 0,03 mas, sem correção de precessão
  • Gaia-CRF: a realização óptica, base de toda a astrometria moderna
Sem indicação de época, um catálogo é inutilizável: 50,3″ por ano já são quase um minuto de arco em um único ano — e 2515″, ou 42′, em cinquenta.

Da posição de catálogo ao telescópio

  1. movimento próprio
  2. paralaxe anual
  3. aberração (20,5″)
  4. deflexão gravitacional pelo Sol (1,75″ no limbo, 4 mas a 90°)
  5. precessão e nutação
  6. orientação instantânea da Terra
  7. refração atmosférica
A soma pode passar de um minuto de arco. Nenhuma etapa é opcional em trabalho de precisão.

O laboratório do Capítulo 1: o que ele mede

Dois números por objeto — azimute e altura. O resto é consequência:

o que você medeo que sai dissoreferência
a faixa da Via Lácteaa inclinação do plano galáctico, e o polo62,87°
o Sol em 12 datasa obliquidade da eclíptica ε23,44°
os cinco planetasa latitude eclíptica β: o Sistema Solar é plano?β ≈ 0
uma estrela, 3 horáriosA e h mudam; α e δ não
Você nunca digita α e δ. Eles saem de A, h, da latitude do sítio e do relógio sideral — e é essa conta que o artigo tem de mostrar.

Onde fica

O céu de Joinvilleroda no navegadornada para instalarcatálogo sorteado a cada acesso
O catálogo muda a cada vez que você abre a página: as suas medidas são suas. Duas pessoas não entregam a mesma tabela, e os resultados finais têm de bater assim mesmo.

A abóbada: o que você está vendo

Você está no centroolhando para cima; a borda do círculo é o horizonte, e o meio é o zênite
Norte em cima, Leste à esquerdaé a convenção de quem olha para o alto, não para um mapa de papel
Os anéismarcam altura de 30° e 60°; um objeto no centro exato está a h = 90°
Só o que está no céuo que está abaixo do horizonte não aparece — os objetos nascem e se põem
Em ciano, a faixa da Via Láctea. Em cinza, estrelas de fundo. Coloridos e com nome, os cinco planetas visíveis a olho nu. E o Sol, com halo dourado.

Os controles, e o relógio que importa

Dia do ano1 a 365. Move o Sol pela eclíptica e troca o céu que você vê à noite
Hora local0 a 24 h, em UTC−3. Gira o céu: é o que faz A e h mudarem
Precisão de leitura0,05° a 1,5°. É o erro do seu instrumento, e ele entra em toda medida
Tempo sideral Θnão é controle: o laboratório calcula de dia e hora, e mostra no painel
Θ é o relógio que o céu usa. Ele diz qual ascensão reta está passando pelo meridiano agora — sem ele, A e h não viram α e δ. Sítio fixo: Joinville, φ = −26,30°, λ = −48,85°.

Medir: do clique ao registro

  • Clique perto de um objeto: ele fica circulado em dourado
  • O painel mostra A, h, a população a que ele pertence e o Θ do instante
  • A faixa acima da abóbada mostra também o α e o δ já convertidos
  • Clique em Registrar medida — a linha entra na tabela e passa a contar
Cada leitura já vem com o erro do instrumento aplicado: medir o mesmo objeto duas vezes não dá o mesmo número, como em qualquer bancada. Dois botões medem em lote: o Sol ao meio-dia em 12 datas e a selecionada em 3 horários.

A conversão que você vai refazer na mão

O CSV traz A, h e Θ. As coordenadas de catálogo saem daí, com a latitude do sítio:

Repare no que entra: φ diz onde você está, Θ diz quando. Um sistema que precisa dos dois é local e instantâneo; o que sai não precisa de nenhum. Refaça a conta em pelo menos três linhas — é ela que prova que você entendeu a diferença.

Experimento 1 · o mesmo objeto, três horários

Uma estrela em δ ≈ −45°, medida às 21 h, 22 h e 23 h do mesmo dia:

horaAhαδ
21 h146,93°66,22°247,39°−45,10°
22 h173,13°71,28°247,37°−44,86°
23 h204,19°69,08°247,39°−44,90°
variação57,3°5,1°0,02°0,24°
Em duas horas o azimute andou 57 graus. A ascensão reta não saiu do erro de leitura (0,15°). Mesma estrela, mesmo céu: o que mudou foi o sistema de coordenadas. Este é o argumento central do artigo, e ele cabe numa tabela de quatro linhas.

A ideia geométrica que sustenta o resto

Um círculo máximo inclinado de i em relação ao equador celeste desenha, em α e δ, uma senoide:

E o polo desse círculo sai dos dois mesmos parâmetros:

Daí vem tudo. Medir a inclinação é medir a amplitude da senoide. A faixa da Via Láctea e a eclíptica são círculos máximos diferentes — a mesma conta serve para os dois, mudando só quais pontos entram.

Experimento 2 · a faixa da Via Láctea

Registre 15 objetos da faixaos pontos em ciano, aqueles que formam a banda contínua no céu
Em datas e horários diferenteseste é o ponto delicado — veja a nota abaixo
Sai a inclinação icom incerteza, contra a referência de 62,87°
E sai o polo galácticoαp = 192,86°, δp = +27,13° — um lugar no céu que você localizou medindo outro
Se você medir tudo na mesma noite, os pontos se concentram numa faixa estreita de α e você estará ajustando uma senoide a um pedaço curto dela: a amplitude fica mal determinada e a incerteza explode. Espalhe as datas.

A faixa que você vai medir

Panorama de 360° do céu inteiro — GigaGalaxy Zoom do ESO, de La Silla e do Paranal. É esta banda que os pontos em ciano do laboratório reproduzem, e cuja inclinação em relação ao equador celeste você vai ajustar. — ESO/S. Brunier, CC BY 4.0

Experimento 3 · o Sol e a obliquidade

Use o botão de loteMedir o Sol ao meio-dia, em 12 datas — uma por mês, ao longo do ano
Por que o Solele está exatamente sobre a eclíptica, por definição: é o traçador ideal
Sai εa amplitude da senoide do Sol é a obliquidade; referência 23,44°
Guarde esse εé ele, o seu, que o próximo experimento vai usar
A declinação do Sol ao longo do ano é a curva que produz as estações. O que você mede aqui em cinco minutos é a mesma constante que define os trópicos — e a inclinação do eixo da Terra.

Experimento 4 · os planetas estão na eclíptica?

Meça os cinco planetas e converta cada um com o ε que você mediu:

  • A longitude λ se espalha por todo o círculo — eles estão em pontos quaisquer da órbita
  • A latitude β fica presa a poucos graus de zero, para todos
Se o Sistema Solar não fosse plano, β se espalharia por ±90° como λ. É essa a razão de existir um sistema de coordenadas eclípticas — e você acabou de medi-la, sem sair da abóbada.

Ajuste contra máximo: por que o ajuste ganha

A tabela de resultados traz duas colunas. O método do máximo toma a maior declinação medida; o ajuste usa todos os pontos. O máximo erra dos dois lados:

Superestima na faixa galácticaa banda tem espessura própria, e ruído e espessura só empurram o maior valor para cima — nunca para baixo
Subestima no Sol12 datas dificilmente caem no solstício; o máximo amostrado fica aquém do máximo verdadeiro
Um estimador que usa um ponto só herda todo o erro desse ponto. Comparar as duas colunas e explicar o sinal de cada viés vale um parágrafo inteiro da discussão do artigo — e é o tipo de coisa que distingue um relatório de um artigo.

Exportar o artigo com as suas tabelas

Na aba Template de Relatório, escreva os nomes do grupo (até três) e clique em Gerar template:

main.texno modelo da disciplina, com o seu nome e o seu resultado já no resumo
tabelas/as suas medidas, os planetas, a invariância e os resultados — em LaTeX
figuras/a abóbada e os dois ajustes, como você os deixou na tela
dados/os CSVs das medidas e do catálogo
Envie tudo ao Overleaf e compile duas vezes. As tabelas e figuras já estão citadas no texto: o que falta é escrever. O botão Exportar CSV baixa só as medidas, se você quiser trabalhar antes na planilha.

Na próxima aula

Encerramos o Capítulo 1: ângulos, sistemas de referência e a conversão entre eles. Você já sabe dizer onde um objeto está.

  • O Capítulo 2 responde a outra pergunta: a que distância, e quão luminoso
  • Paralaxe, parsec e a régua que se mede em vez de inferir
  • Fluxo, magnitudes e a escala de Pogson
  • Extinção e cor — por que ignorar poeira anula o resultado
Uma direção não distingue uma anã fraca e próxima de uma supergigante distante. É o Capítulo 2 que fecha essa lacuna — e é ela que o artigo do Capítulo 2 cobra.
Aula 1 · Astronomia (AST0001)