Universidade do Estado de Santa Catarina · CCT

Introdução

aula 1 · Astronomia Antiga
Prof. Dr. Rafael Camargo Rodrigues de Lima · Astronomia (AST0001) · 2026/2

Vamos começar
do começo…

65.000 anos atrás

o Homo sapiens deixa a África

A grande dispersão

Há cerca de 65.000 anos, populações de Homo sapiens deixam a África e se espalham por toda a Terra.

As rotas e as datas do mapa vêm da genética de populações: cada ramo marca uma separação que ainda aparece no DNA das populações atuais.

Para todas essas populações, o céu era o mesmo — e era o único calendário disponível.
Shi Yan , Chuan-Chao Wang, Hong-Xiang Zheng, Wei Wang, Zhen- · CC BY 2.5 · Wikimedia Commons

17.000 anos atrás

as paredes de Lascaux

Caverna Lascaux

Sobre o dorso do primeiro auroque há um conjunto de pontos que alguns autores leem como as Plêiades — o aglomerado que fica justamente no ombro do Touro. É hipótese, não consenso.
Foto: Elke Wetzig · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons · mapa gerado para o curso

Caverna Lascaux

Descoberta

Data: 12 de setembro de 1940.
Descobridores: quatro adolescentes franceses (Marcel Ravidat, Jacques Marsal, Georges Agnel e Simon Coencas) acompanhados de um cachorro chamado Robot.
Circunstância: o cão caiu em um buraco, levando os garotos a explorar a caverna e encontrar as pinturas.
Pouco tempo depois, o arqueólogo Henri Breuil estudou as pinturas e as identificou como pertencentes ao Paleolítico Superior.

Idade

A caverna data de aproximadamente 17.000 anos, pertencendo ao período Magdaleniano da cultura Cro-Magnon, ancestrais diretos dos europeus modernos. A datação foi confirmada por análises de carbono-14 em fragmentos de carvão e ossos usados na pigmentação.

Possíveis indícios de astronomia em Lascaux

  • Alinhamento com constelações — algumas das pinturas de touros na Grande Sala dos Touros podem estar alinhadas com o Cinturão de Órion.
  • Um conjunto de pontos sobre um touro pode representar as Plêiades, similar ao que foi observado em culturas posteriores.
  • Ciclo lunar — algumas sequências de pontos podem representar fases da Lua ou um método de contagem de tempo baseado em ciclos lunares.
  • O “Homem Morto” e a Supernova de Vela — uma cena enigmática de um homem caído ao lado de um bisonte perfurado pode ter relação com eventos celestes, como uma possível supernova.

Lembre-se

Todas as pessoas nessa época estavam acostumadas a observar o céu de uma forma que nós não estamos mais. Algumas coisas que hoje devem ser ensinadas nas escolas eram óbvias para eles, por exemplo…

Por exemplo…

1) Os babilônios chamavam a Estrela Polar de “A Estrela que não Anda”

Três instantes da mesma noite, no mesmo horizonte.

Todas as estrelas mudam de lugar; uma delas, não. Esse ponto fixo é o eixo de rotação da Terra apontando para o céu.

Quem observa o céu todas as noites percebe isso em poucas semanas — sem instrumento nenhum.
Stellarium · captura do professor

2) Os planetas não “caminham” como as estrelas

As estrelas mantêm as figuras; os planetas mudam de lugar entre elas noite após noite — daí o nome grego, “errantes”.
Stellarium · captura do professor

3) Além do movimento diário do Sol, ele também possui um movimento anual

solstício de junho: dia mais curto · início do invernoequinócios: dia e noite iguaissolstício de dezembro: dia mais longo · início do verão
O ponto do horizonte onde o Sol nasce varia ao longo do ano — aqui calculado para a latitude de Joinville. Foi isso que os monumentos antigos marcaram na pedra.
Figura gerada para o curso

4) Nos equinócios, o Sol nasce exatamente no leste e noite e dia têm mesma duração

Nos dois equinócios a declinação do Sol é zero: ele nasce no ponto cardeal leste para qualquer lugar da Terra.
Stellarium · captura do professor

5) Ciclo de 29,5 dias da Lua

O ciclo das fases é o mês sinódico: 29,53 dias. É o relógio mais antigo da humanidade — e a origem da palavra “mês”.
Figura gerada para o curso

Conforme os Homo sapiens abandonavam o nomadismo,
mais complexa se tornava sua astronomia

O osso de Ishango

O Ishango Bone é um osso antigo, possivelmente de um babuíno, datado de cerca de 20.000 a 22.000 anos atrás, encontrado na região do Rio Nilo, na atual República Democrática do Congo. Ele é um dos mais antigos artefatos matemáticos conhecidos.
  • Gravações numéricas — três colunas de marcas entalhadas, sugerindo padrões matemáticos não aleatórios. Alguns números parecem seguir sequências de dobro e metade, sugerindo uma compreensão rudimentar de multiplicação e divisão.
  • Possível uso como calendário lunar — algumas hipóteses sugerem que ele representa um calendário lunar.
  • Indícios de matemática primitiva — as colunas indicam números primos e relações aritméticas, sugerindo um sistema numérico organizado.
JhowieNitnek · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons · Figura gerada para o curso

Mesopotâmia

Primeiro sistema de escrita: cuneiforme (3200 a.C.)

O Homo sapiens começou a colonizar essa região entre 70.000 e 40.000 anos atrás, durante sua migração para fora da África.
  • Uruk (uma das primeiras grandes cidades da história)
  • Ur (importante centro religioso e econômico)
  • Eridu (considerada a cidade mais antiga da Suméria)
  • Lagash, Nippur e Kish (outras cidades influentes)
Observação: os neandertais (Homo neanderthalensis) já habitavam a região da Mesopotâmia antes da chegada dos Homo sapiens. Evidências fósseis mostram que eles viveram no Oriente Médio e sudoeste da Ásia entre 250.000 e 40.000 anos atrás.
Zunkir · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

Mesopotâmicos (sumérios, babilônios e assírios)

Desenvolveram os primeiros registros astronômicos sistemáticos, criaram catálogos estelares, previram eclipses e formularam o sistema sexagesimal ainda usado em coordenadas e tempo.
  • Sumérios: c. 3100 a.C. – 2000 a.C.
  • Babilônios: c. 2000 a.C. – 539 a.C.
  • Assírios: c. 2500 a.C. – 612 a.C.
Zunkir · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

Como usavam os conhecimentos astronômicos

exemplo: sumérios (3.100 – 2.000 a.C.)
  • Calendário agrícola — observavam o nascer e o pôr de estrelas e planetas para prever estações e determinar períodos de plantio e colheita.
  • Religião e astrologia — associavam corpos celestes a deuses (por exemplo, Vênus era ligada à deusa Inanna/Ishtar) e interpretavam eventos celestes como presságios para reis e impérios.
  • Medidas do tempo — criaram um calendário lunissolar de 12 meses baseado nas fases da Lua, ajustado periodicamente com meses intercalados.
  • Registro e catalogação de astros — desenvolveram tabelas de observação de estrelas e planetas, registrando eventos astronômicos como eclipses e conjunções.
  • Base do sistema sexagesimal — inventaram o sistema de base 60, usado até hoje em horas, minutos e graus de coordenadas astronômicas.

12, 60 e 360?

Os sumérios adotaram a base 60 devido a três principais fatores: contagem manual, astronomia e herança cultural. No método manual, utilizavam o polegar para contar 12 falanges nos dedos de uma mão, e com os 5 dedos da outra mão, agrupavam em conjuntos de 12 × 5 = 60. Astronomicamente, a divisão do ano em aproximadamente 360 dias levou à criação do círculo com 360 graus e à divisão do dia em 12 horas diurnas e 12 noturnas. Essa base foi posteriormente adotada pelos babilônios, influenciando a matemática e a medição do tempo usada até hoje.

Figura gerada para o curso

A tábua de MUL.APIN

1000 a.C.
  • Listam constelações e suas posições ao longo do ano.
  • Tábuas com previsões de eclipses.
  • Os sumérios observaram padrões astronômicos e notaram que os eclipses seguiam ciclos.
  • Posteriormente, os babilônios desenvolveram o ciclo de Saros, mas a base desse conhecimento já estava presente nos sumérios.

MUL.APIN significa “Plêiades” ou “Estrela do Arado” em sumério.
British Museum · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

Ciclo de Saros

O ciclo de Saros é um período de aproximadamente 18 anos, 11 dias e 8 horas, após o qual eclipses solares e lunares se repetem quase da mesma forma.

Quando dois eclipses são separados por um Saros, eles compartilham uma geometria muito semelhante: mesmo nó orbital da Lua, distância quase igual da Terra e mesma época do ano. Isso permite organizar os eclipses em famílias ou séries, cada uma durando 12 a 13 séculos e contendo cerca de 70 eclipses.
Figura gerada para o curso

Egípcios

Criaram um calendário solar preciso baseado no ciclo da estrela Sírius e usaram a astronomia para alinhar monumentos como as pirâmides.
  • Período dinástico: c. 3100 a.C. – 332 a.C.
  • Seu auge astronômico ocorreu entre 2000 a.C. – 500 a.C., com o desenvolvimento de calendários solares.
Charles Wilkinson · CC0 · Wikimedia Commons

Karnak

O Templo de Karnak, no Egito, é alinhado com o nascer do sol durante o solstício de inverno, que ocorre em 21 de dezembro. Nesse dia, os raios solares penetram pelo eixo principal do templo, iluminando o santuário de Amon-Rá.
A foto é do amanhecer do solstício: o disco solar aparece exatamente no vão entre os pilones, e a luz percorre o eixo até o santuário.
J. C. Casado / starryearth.com · CC BY-NC 2.0

21 de dezembro, ao amanhecer

O Sol nasce no eixo do templo de Karnak, em Luxor. A arquitetura inteira é um instrumento de observação: o alinhamento só funciona em uma data do ano.
J. C. Casado / starryearth.com · CC BY-NC 2.0

China

Criaram extensos catálogos estelares, registraram supernovas e cometas, além de desenvolverem um calendário lunissolar refinado.
  • Civilização chinesa antiga: c. 1600 a.C. – 220 d.C.
  • O auge da astronomia chinesa antiga foi entre 500 a.C. – 1000 d.C., com registros astronômicos contínuos por séculos.
Ao lado: o atlas estelar de Dunhuang (c. 700 d.C.), o mapa celeste mais antigo que se conhece — 1339 estrelas desenhadas em rolo de papel.
unknown · CC0 · Wikimedia Commons

Catálogo de cometas

Detalhe de um manuscrito de astrologia, tinta sobre seda, século II a.C., dinastia Han, desenterrado da tumba de Mawangdui. A página contém descrições e ilustrações de 27 cometas.
Os registros chineses são hoje fonte científica: é neles que estão as datas de supernovas e de passagens do cometa Halley usadas por astrônomos modernos.
Unknown authorUnknown author · Public domain · Wikimedia Commons

Hindus

  • Civilização do Vale do Indo: c. 2600 a.C. – 1900 a.C.
  • Textos astronômicos hindus, como o Surya Siddhanta, surgiram entre 500 a.C. – 500 d.C.
  • O auge da astronomia indiana ocorreu entre 400 d.C. – 1200 d.C., com estudiosos como Aryabhata.
Ao lado: o Jantar Mantar de Jaipur (século XVIII) — instrumentos de alvenaria construídos para medir posições a olho nu, herdeiros dessa tradição.
Jakub Hałun · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

Nas Américas

Desenvolveram calendários astronômicos complexos, alinharam templos com eventos celestes e previram eclipses com notável precisão.
  • Maias: c. 2000 a.C. – 1500 d.C. (auge astronômico entre 300 d.C. – 900 d.C.)
  • Astecas: c. 1300 d.C. – 1521 d.C. (auge astronômico no século XV)
O Códice de Dresden traz tabelas de Vênus e de eclipses com séculos de alcance — astronomia preditiva escrita em papel de casca de árvore.
circa 1200date QS:P,+1200-00-00T00:00:00Z/9,P1480,Q5727902 · Public domain · Wikimedia Commons

Templo de Kukulkán

Chichén Itzá, México — durante os equinócios, a luz do Sol projeta sombras na escadaria da pirâmide, criando a ilusão de uma serpente descendo os degraus, um fenômeno associado ao deus Kukulkán.
Jjos2018 · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

Tikal

Tikal, Guatemala — os templos maias foram construídos de maneira que, nos equinócios, o Sol nasce exatamente no meio de certas estruturas.
Francisco Anzola · CC BY 2.0 · Wikimedia Commons

Por outros exemplos
ao redor do mundo…

Angkor Wat

Camboja — o templo principal foi projetado para que o Sol nasça exatamente sobre sua torre central no equinócio da primavera. A foto é do equinócio de 21 de março de 2012.
សុខគឹមហេង (Sok Kim Heng) · CC BY-SA 3.0 · Wikimedia Commons

Newgrange

Irlanda — um dos mais antigos monumentos megalíticos da Europa, com cerca de 5.200 anos. Durante o solstício de inverno, a luz do Sol entra por uma abertura e ilumina a câmara interna do túmulo por alguns minutos.
fhwrdh · CC BY 2.0 · Wikimedia Commons

Stonehenge

Inglaterra — alinhado com o nascer do Sol no solstício de verão e o pôr do Sol no solstício de inverno. O Sol nasce sobre a Heel Stone em junho e se põe no eixo oposto em dezembro.
Callyclan · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

Machu Picchu

Peru — o Intihuatana, um pilar de pedra na cidade inca, alinha-se com o Sol durante os solstícios. No solstício de inverno (junho, no Hemisfério Sul), o Sol nasce precisamente sobre certas montanhas, marcando um momento sagrado para os incas.
Alesegura · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

Chankillo

Peru — um dos observatórios solares mais antigos do mundo (cerca de 2.300 anos). Consiste em 13 torres alinhadas ao nascer e pôr do Sol ao longo do ano, marcando os solstícios com precisão.
Corrispo · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

Matemática
+
Astronomia

Matemática como impulsionadora da astronomia

Civilizações antigas, como os babilônios, egípcios e os maias, usaram sistemas numéricos para criar calendários solares e lunares, essenciais para a agricultura e festividades religiosas.

Exemplo: osso de Ishango (África).
Os gregos, como Eudoxo e Hiparco, usaram a geometria esférica para descrever o movimento dos astros.

Ptolomeu desenvolveu um modelo geocêntrico baseado em epiciclos, com cálculos geométricos refinados.
Hiparco de Niceia (séc. II a.C.) criou a trigonometria para calcular distâncias lunares e o tamanho da Terra.

Al-Battani e os astrônomos islâmicos aprimoraram a trigonometria esférica para prever eclipses e calcular a precessão dos equinócios.

A astronomia grega em uma linha

Oito séculos separam Tales de Ptolomeu — mais tempo do que nos separa de Copérnico.
Figura gerada para o curso

Gregos

Foram pioneiros no pensamento racional sobre o cosmos, com figuras como Tales de Mileto (modelo de disco da Terra), Pitágoras (harmonia cósmica), Eudoxo de Cnido (esferas homocêntricas), Aristarco de Samos (modelo heliocêntrico primitivo), Hiparco de Niceia (catalogação de estrelas e precessão dos equinócios) e Cláudio Ptolomeu (modelo geocêntrico).
  • Civilização grega clássica e helenística: c. 800 a.C. – 146 a.C.
  • Os maiores avanços astronômicos ocorreram entre 600 a.C. – 200 d.C., com Hiparco e Ptolomeu.
Ao lado: o mecanismo de Anticítera (c. 100 a.C.), uma calculadora astronômica de engrenagens de bronze — a mais antiga que se conhece.
Zde · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

Construção de modelos físicos
ao invés de mitos

é essa a virada que os gregos operam — e é ela que ainda usamos

A batalha do eclipse

Batalha do Hális (585 a.C.) — medos × lídios
Segundo Heródoto, Tales de Mileto previu um eclipse solar em 585 a.C., o que marcou o início da abordagem racional e científica da astronomia na Grécia.

Devido ao eclipse, os reis selaram um acordo de paz por meio de um casamento.
Gravura do século XIX · domínio público

A batalha do eclipse

Batalha do Hális (585 a.C.) — medos × lídios
Segundo Heródoto, Tales de Mileto previu um eclipse solar em 585 a.C., o que marcou o início da abordagem racional e científica da astronomia na Grécia.

* Os babilônios já conheciam o ciclo de Saros, e Tales pode ter se baseado em seus registros.
Prever que um eclipse aconteceria não é o mesmo que prever onde ele seria visível. A previsão de Tales, se existiu, veio de um catálogo — não de uma teoria.
Gravura do século XIX · domínio público

Tales de Mileto

A astronomia grega foi inaugurada por Tales de Mileto (c. 624 a.C. – 546 a.C.), no século VI a.C., sendo um dos primeiros filósofos a tentar explicar os fenômenos celestes sem recorrer a mitos ou divindades. Ele propôs sua visão de que a Terra era um disco flutuando em um vasto oceano, cercado por uma esfera contendo todas as estrelas.

O terreno visto na ilustração representa a região do Mediterrâneo, o mundo conhecido de acordo com os mapas da época.
Figura gerada para o curso

Eratóstenes de Cirene

Eratóstenes de Cirene (c. 276 a.C. – 194 a.C.), um matemático, astrônomo e geógrafo que viveu em Alexandria, Egito.

Ele soube que em Siena (atual Assuã, Egito), no solstício de verão, ao meio-dia, o Sol iluminava o fundo de poços e não projetava sombras.

Em Alexandria, no mesmo horário, objetos verticais projetavam uma sombra, indicando que o Sol não estava exatamente no zênite.
Gravura do século XIX · domínio público

A medida

Duas sombras, uma distância e uma hipótese — a de que os raios do Sol chegam paralelos. Com isso se mede o planeta inteiro.
Figura gerada para o curso

O resultado

250 000 estádios ≈ 40 000 km

  • O ângulo medido em Alexandria, 7,2°, é 1/50 de uma circunferência completa.
  • A distância Alexandria–Siena era estimada em 5000 estádios.
  • Logo, a circunferência da Terra vale 50 × 5000 = 250 000 estádios.
  • Convertendo o estádio para unidades atuais, isso dá cerca de 40 000 km — muito próximo do valor real (40.075 km).
O erro do resultado depende quase todo de uma coisa: quanto media um estádio. A geometria estava certa; a régua é que era incerta.

Cuidado com a
visão eurocêntrica

Quem fazia o quê

CivilizaçãoMétodo principalExplicação física dos movimentos?Modelos matemáticos?
Tales de Mileto
(Grécia, séc. VI a.C.)
Proposição de um modelo físico: a Terra como um disco flutuanteSim (mas rudimentar e incorreto)Não, sem fórmulas matemáticas precisas
Babilônios
(séc. XVIII a.C. – séc. IV a.C.)
Cálculos baseados em ciclos numéricos e observações astronômicasNão, usavam padrões numéricos, não causas físicasSim, desenvolveram tabelas matemáticas para prever eclipses e movimentos planetários
Chineses
(séc. XIV a.C. – séc. IV a.C.)
Modelos geométricos do céu e observação sistemáticaNão explicitamente, mas já sugeriam que o céu era regido por leis naturaisSim, tinham métodos matemáticos para prever eclipses e órbitas planetárias
Indianas
(séc. XIII a.C. – séc. V d.C.)
Cosmologia cíclica e matemática aplicada aos astrosSim, sugeriram que a Terra poderia girar sobre seu eixoSim, criaram modelos trigonométricos avançados

Aristóteles

No entanto, para o bem e para o mal, os filósofos gregos tinham uma confiança inabalável (e injustificada) de que a lógica e o pensamento racional trariam sempre luz à verdade.
After Lysippos · Public domain · Wikimedia Commons

Um balanço

Pontos positivos

  • Criação da filosofia natural — os gregos foram os primeiros a buscar explicações racionais e não mitológicas para o cosmos.
  • Sistema dedutivo — desenvolveram métodos lógicos, como os axiomas matemáticos de Euclides e a silogística aristotélica.
  • Fundação da astronomia matemática — modelos como os de Eudoxo e Ptolomeu tentavam explicar o movimento dos astros sem intervenção divina.

Pontos negativos

  • Desprezo por observação e experimentos — Aristóteles, por exemplo, afirmou que objetos mais pesados caem mais rápido, mas nunca testou isso. Seu erro só foi corrigido por Galileu, quase 2.000 anos depois.
  • Modelos físicos errôneos — a insistência em formas perfeitas levou à ideia equivocada de que os corpos celestes seguiam órbitas circulares e que o geocentrismo era correto.
  • Confiança excessiva na lógica — ideias filosóficas eram muitas vezes consideradas superiores à observação, o que retardou o progresso de certas áreas da ciência.

A ciência precisa
de instrumentos

Dos gregos a Galileu

Dezoito séculos entre a projeção estereográfica de Hiparco e a primeira luneta apontada para o céu. O instrumento é o que separa observar de medir.
Figura gerada para o curso

Astrolábio

1) Antecessores (século II a.C.) — Hiparco de Niceia (c. 190–120 a.C.) desenvolveu projeções estereográficas, fundamentais para a construção do astrolábio. O Mecanismo de Anticítera (c. 100 a.C.) sugere que os gregos já possuíam tecnologia avançada para medir e prever eventos astronômicos.
2) Primeiros astrolábios (séculos III–VI d.C.) — Cláudio Ptolomeu (c. 100–170 d.C.) descreveu instrumentos para medir posições estelares em sua obra Almagesto. Os bizantinos e os astrônomos alexandrinos desenvolveram versões rudimentares.
3) Aperfeiçoamento no mundo islâmico (séculos VIII–XIII) — durante o califado abássida, astrônomos como Al-Farghani e Al-Battani aprimoraram o design. No século X, Al-Sufi escreveu um tratado detalhado sobre seu uso. O astrolábio se tornou essencial para navegação, astronomia e astrologia no mundo islâmico.
4) Difusão para a Europa (séculos XII–XVI) — os moçárabes e estudiosos islâmicos transmitiram o conhecimento para a Espanha e Portugal, onde foi adaptado para a navegação marítima. Durante a Era das Grandes Navegações, o astrolábio náutico ajudou os exploradores europeus a calcular latitudes.
Daderot · Public domain · Wikimedia Commons

As partes do astrolábio

  • Mater — disco base onde todas as partes são montadas.
  • Tímpano — placa inserida na matriz com projeções da esfera celeste e graduações específicas para diferentes latitudes.
  • Rete — estrutura móvel semelhante a uma grade que representa as estrelas e o movimento dos astros.
  • Alidade — régua giratória na parte traseira usada para medir a altura dos astros.
  • Trono — parte superior com um anel para segurar ou pendurar o astrolábio.
  • Escalas e graduações — linhas que indicam altitudes, azimutes e outras medidas.
A rete é um mapa do céu vazado em metal: girá-la sobre o tímpano é simular a rotação da noite. astrolabeproject.com
? · CC0 · Wikimedia Commons

Luneta

Hans Lippershey (1608, Holanda) — um fabricante de óculos holandês, Hans Lippershey, é frequentemente creditado como o primeiro a patentear uma luneta refratora. Sua luneta consistia em duas lentes (uma convexa e outra côncava), permitindo ampliar objetos distantes.

Galileu Galilei (1609, Itália) — inspirado na invenção holandesa, Galileu construiu sua própria luneta e foi o primeiro a apontá-la para o céu. Com ela, descobriu as luas de Júpiter, as fases de Vênus, crateras da Lua e manchas solares, revolucionando a astronomia.
Na foto: as duas lunetas de Galileu conservadas no Museo Galileo, em Florença.
Zde · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

Galileu

Galileu, ao usar sua luneta em 1609, fez descobertas que desafiavam a visão aristotélica do universo, como:
  • Luas orbitando Júpiter (provando que nem tudo girava ao redor da Terra).
  • Fases de Vênus (o que contradizia o modelo geocêntrico de Ptolomeu).
  • Crateras na Lua (negando a ideia de que os astros eram esferas perfeitas).
Ele tentou convencer eruditos e membros da Igreja a olhar através da luneta, mas alguns se recusaram, argumentando que aquilo era um truque ou que seus olhos poderiam ser enganados.
Giuseppe Bertini · Public domain · Wikimedia Commons

O mesmo céu, hoje

stellarium-web.org — o céu que os babilônios anotaram em argila cabe hoje em uma aba do navegador. O que mudou não foi o céu: foi o instrumento.
Stellarium Web · captura do professor
Astronomia Antiga · Astronomia (AST0001)